Quando filmes desse tipo de temática são lançados, é sempre despertado o que os internautas atuais gostam de chamar “o dedo puxar a treta chega à coçar”. O que não é claro o intuito aqui, mas o quanto de “problematização” vem sido feita à um dos indicados ao Oscar de 2019, Green Book: O Guia de Peter Farrelly, mesmo não tendo um nível de discussão digamos “nível Pantera Negra”, vem despertado reações interessantes de se analisar. A principal e mais negativa delas vem sendo a “suposta visão esbranquiçada sobre o racismo” que o filme aborda, além de apelativa e amenizadora. Mas será realmente esse o caso? Um grande crime que o filme de Peter Farrelly comete?

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Mas começo questionando o que seria essa visão esbranquiçada afinal do racismo que tantos apontam e acusam em certos filmes? Se estamos falando por exemplo de uma visão do tipo Paul Haggis em Crash – No Limite que se usa de apelações gratuitas e forçadas, atirando para todos os lados no intuito de criar o “conflito dramático racial” e acaba sendo apenas um desastre de filme, aí com certeza todos podem chegar à um consensus de razão.

Mas quando a mesma acusação é posta em um filme como A Cor Púrpura de Steven Spielberg pelo simples fato de ser um diretor branco dirigindo uma “história negra”, onde se encaixa a razão e o justo nisso? Sua cor de pele retira a genuinidade social e histórica presentes no filme? Ou o seu talento como artista já garante a qualidade do filme e fidelidade para com o espírito do livro de Alice Walker, o que é o caso. Ainda que seja sim uma obra de tom assumidamente leve e esperançosa, o que não lhe impede de ser bruto e realista quando precisa e com eficiência.

Claro que Green Book não é nenhum A Cor Púrpura obviamente, mas é feito seguindo um tom bem similar. É humorado e leve, o típico feel-good movie de cabo a rabo, mas que não esconde a realidade dos temas com que lida. Essa é a clara e principal proposta que o filme Peter Farrelly aponta em realizar na sua história da viagem de Dr. Don Shirley (Mahershala Ali) com Tony Lip (Viggo Mortensen) rumo ao Sul americano, e a grande amizade que começa a se formar entre eles. Mas que claro já foi o bastante para fazer muitos torcerem o nariz exatamente para “esse tipo” de história.

Não desmerecendo totalmente a válida discussão que muitos ainda se têm sobre o que esse “tipo de filme” ainda tem a dizer sobre racismo à partir da “visão branca” já outrora mencionada. E levando em conta toda a polêmica que o filme vem levantado sobre a retratação de ambos os personagens na vida real, que até ocasionou em um revoltoso artigo da Vulture não muito antigo que atacou todas essas vertentes do filme em palavras carregadas de revolta, e que claramente mostra a visão “problematizadora” com que se assistiram ao filme.

Para isso alguns gostam de levantar o já velho Hollywood vs Realidade só intensifica a razão dessa discussão. Mas é exatamente aí que o filme e qualquer forma de arte na verdade, tendem sempre a pedir para o público separar a ficção da realidade, algo que cada vez mais tornou-se impossível para o público cada vez mais “problematizador” de fazer. Mas é por isso que temos em uma positiva contraposição à Green Book, um filme como Ponto Cego de Carlos López Estrada, que consegue conjurar ambas essas vertentes do entretenimento de público e o drama narrativo em sua execução, inegavelmente melhor que o filme de Peter Farrelly.

Mas infelizmente um filme tão bom como Ponto Cego, diferente e original em sua técnica tão descolada e original, e ainda tão humano em sua história, nunca teria seu valor reconhecido nessas premiações com sistemas de “qualidade” ridículas, e que sem sombra de dúvidas foi um dos melhores filmes de 2018. Um filme que lembra muito e até se assemelha em traços narrativos com os primeiros filmes de Spike Lee como Faça a Coisa Certa ou Febre da Selva, na forma que remete à um estilo muito pop cultural da comunidade em que se passa com um tom frenético, humorado e musical, traços do currículo de videoclipes do próprio diretor.

Ao mesmo tempo em que sabe meter o dedo na problemática racial sem pudor, mas tem a coragem de mostrar os prós e contras de ambos os lados do embate, talvez até abordando a polêmica “criação de segregação”. Que filmes como o Pantera Negra de Ryan Coogler também indicado nas premiações, muito causou no público. Despertando os ridículos comentários “Não gostou do filme? Então é racista!”, ou “apenas negros vão compreender o valor desse filme”, e assim por diante.

Algo que ambos Green Book e Ponto Cego sutilmente abordam ao construir no embate entre essas duas personalidade de “cores opostas”. Exatamente onde ambos os filmes se assemelham, no conflito moral e dramático entre o branco e negro embutidos nessa relação, uma de indiferença que se torna em uma amizade (Green Book) e uma amizade que entra em balanço graças à tensão racial que os cerca (Ponto Cego).

Em Green Book vemos Tony Lip com seus comentários cheios de relativização racial para cima de Don que claramente se sente desconfortável com tudo sendo falado. Mas há uma inocência e ingenuidade em Tony que permite tanto Don a se aproximar com conselhos de sua postura, e claro vice versa. Enquanto em Ponto Cego vemos Collin (Daveed Diggs) ao longo do filme literalmente “tremendo na base” pelo fato dele ter presenciado a execução de um negro por um policial (branco), ao mesmo tempo em que tenta ficar o máximo possível longe de problemas por causa de sua liberdade condicional, o que seu melhor amigo e colega de trabalho Miles (Rafael Casal) envolvido com drogas e carregando uma arma ilegalmente claramente não está ajudando. Com em ambos os casos, problemáticas começam a ser levantadas.

Onde em Green Book quando vemos o arco de Don se desenvolvendo, que algumas pessoas já classificaram como o “negro se tornando negro” é uma visão tão turva e negativa do que a proposta realmente é, um homem se mostrando aquilo o que ele é, descobrindo que não tem que sentir vergonha daquilo que possui mesmo que a era em que ele vive o possa fazer se sentir. Em uma época onde a cassação racial era das mais tensas e violentas, eis um homem negro que nasceu em um berço de ouro, e que pela primeira vez encara suas origens históricas e sente orgulhos dela, sem perder a essência do que é obviamente. E aprende a gostar de Frango frito, todos gostamos.

E Tony não é o mero personagem branco “Miss Daisy” às avessas cujo arco se limita a descobrir que o negro é um seu igual, e sim é sobre alguém que descobre o maldizer de suas palavras, conotações e atitudes, carregadas de um inevitável preconceito enraizado do meio em que cresceu e foi criado. Que descobre tanto de si e de seu potencial através do seu lado mais puro que Doc lhe desperta, encontrando o marido apaixonado e prestativo que sempre quis ser para a esposa e encontrando um trabalho honesto que lhe afastou do mundo do crime com alguém que tanto admira e respeita.

Enquanto em Ponto Cego, vemos ambos Collins e Miles se colidindo no seu embate de fúria. Com Collins finalmente reagindo final com revolta às atitudes temperamentais e violentas de Miles que só lhes trouxeram problemas, que tanto ocasionaram na prisão de Collins anos antes, e com o próprio filho de Miles segurando sua arma dentro de casa. Ao mesmo tempo em que joga na cara de Miles suas atitudes idiotas de “apropriação cultural” na forma com que ele sempre busca falar como um gângster e possuir uma arma para possuir um senso de moral e respeito. No que Miles responde ser a sua forma de sobreviver no bairro perigoso em que sempre viveu e foi a “minoria reversa”, agindo do jeito que age para ter um mínimo de respeito em seu lar. Algo que ele descobre e cai em si mais tarde que nunca precisou.

Onde ambos Toni e Miles no final realizam suas atitudes sim racistas que nunca notaram cometer, ao mesmo tempo em que Don e Collins encaram de onde seus amigos vem e os próprios problemas que enfrentam. Nas duas duplas, ambos os personagens tem erros e acertos a se aprenderem entre si.

O que várias pessoas parecem tirar imediatamente um problema gigantesco disso. Mas porquê? Se torna uma forma de preconceito mostrar um homem tão falho quanto seu próximo, independente da sua cor? Onde ambos são tratados como iguais, e é através desses arcos onde cada dupla de amigos são emocionalmente desmembrados, as falhas de ambos são postas para fora assim como a razão de seus erros serem tão crível e compreensível. Descobrindo assim a igualdade entre si e se perdoam mutuamente.

Mesmo assim, há certa razão nas críticas sobre a visão levemente florida de Green Book sobre a realidade terrivelmente violenta em que se passa e retrata. E você poderia certamente argumentar que sua retratação sobre a política racial é simplista. Mas o filme não se esquiva de retratar o racismo em sua fealdade e sadismo quando isso é importante. Sem muito menos ignorar o fato de retratar as experiências de Don como um homem negro homossexual, e a óbvia e legítima opressão que recai no personagem ao longo do filme e brevemente abordada no filme em uma cena legitimamente tensa.

Algo que Ponto Cego em contrapartida faz com toda a potência, tanto mostrando o dia a dia em paranóia e medo em que Collins vive, como também botando pra fora os sentimentos em colapso de ambos Collin e Miles, perfeitamente representada no rap final que Collin canta na cara do policial que cometeu o crime, desabafando toda a angústia de uma vida. Ao mesmo tempo em que faz um retrato social muito atual e realista do intenso desemprego em Oakland com vários comércios pequenos fechando e as grandes empresas ocupando tudo e trazendo os “mileniais” para esse meio. Mesmo que no final ainda venha à mostrar uma visão positiva e esperançosa para a vida e o futuro de ambos os personagens.

É nisso que há de tão diferente e ao mesmo tão igualmente atraente em ambos os filmes. Ao invés de filmes que hoje tentam martelar o ódio e a negatividade em volta desses temas, o que também são obras de caráter importantes de um lado da esfera, é através de uma ótica descontraída e positiva presente em ambos os filmes que talvez venham agradar e conquistar muito mais a empatia do público, ao mesmo tempo em que não são filmes que amenizam ou escondem a triste realidade que os filmes passam, e assim passam sua mensagem com a mesma eficiência.

As preocupações de que Green Book transmita a datada e preguiçosos idéia sobre “salvadores brancos” não passam de uma visão completamente superficial do que essa história realmente é, mas a mensagem humanística central é importante, necessária e correta, mesmo que tome liberdades com a “realidade”. E o fato de que o que poderia ter sido apenas mais um ‘filme de mensagem correta sendo premiado’ é, na verdade, uma fatia entretenimento convencional e despretensioso, e que mostra que sua mensagem pode atingir o público em todos os recantos do mundo e ser compreendida em todas as línguas.

Seja em Green Book sendo esse filme Road-movie classudo que consegue fazer um bom casamento de humor e drama, que ainda é agraciado com duas bravas atuações de sua dupla fenomenal formada por Mahershala Ali e Viggo Mortensen. Quanto também em Ponto Cego que apresenta uma dura e atual realidade, mas que não deixa de entregar uma vibe constantemente humorada quase tragicômica, com dois excelentes personagens que mesmo em suas falhas conseguem conquistar nossa instantânea empatia.

No momento em que os racistas se sentem mais encorajados do que têm direito em nossa atualidade, a mensagem de ambos os filmes é muito bem-vinda, e é bom que tenhamos filmes como esses que não só se atenham apenas à apontar dedos e acusar os responsáveis pelo problema, mas propõe uma mensagem de paz, mudança e perdão. Enfrentar esse grande mal histórico em nosso presente, não com um crescente discurso de ódio e revolta, mas de amor e união puro e verdadeiros. Onde possamos largar o rancor frio que vivemos hoje e possamos caminhar para frente e busca de construir um futuro de união e paz.

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