Não é de hoje que é possível perceber certos diretores tentando resgatar muito da vibe, tom e até técnicas de filmes da era clássica de Hollywood entre a década de 30 e 40 respectivamente em algum certo tipo de filme por pura nostalgia como autor, ou buscar integrar isso ao seu estilo particular. Basta olharem alguém como Steven Spielberg cujo praticamente toda a filmografia e carreira como diretor de baseou nisso ao buscar recriar muito do formato visual clássico em seus filmes, cheios de suas tomadas mais longas para até cenas das mais básicas, truques de lentes entre cenas, ou ter esse tom leve na caracterização de seus personagens que sempre remeteram à sua grande influência dos filmes de Frank Capra.

Mas em questão do que esse artigo busca tratar, é falar dos filmes que tentaram realmente recriar todos os elementos da era de ouro de Hollywood em filmes para o público de hoje (ou de uns anos para cá). Se realmente conseguiram fazer um filme que agradasse ambos ao público ou crítica é uma história completamente à parte, o que está em questão aqui é o quão perto e como eles procuraram e conseguiram realizar isso.

Recriando o Passado

Vide o nosso primeiro exemplo, O Segredo de Berlim (2006) de Steven Sodenbergh. O que já é de cara um dos exemplos mais óbvios desse tipo de filme. Bastava só de olhar para o material promocional do filme na época que você já conseguia ver o desespero dos envolvidos, desde o estúdio e do próprio Sodenbergh, em tentar querer vender o filme como sendo O NOVO CASABLANCA, ou O REVOLUCIONÁRIO EXPERIMENTO QUE VAI RESSUSCITAR A VELHA HOLLYWOOD, coisas do tipo, mas escuso dizer para se ter muita calma nessa hora.

Escuso dizer também o fracasso crítico e financeiro que o filme acabou sendo, mas que não é nem de longe um desastre total como pode parecer, e sim, como grande parte dos filmes não elogiados de Sodenbergh acabam sempre sendo, um filme de resultado morno e de cunho experimentalista, que mais valem à assistida por um ponto de estudo “acadêmico” se é que assim você pode chamar, ou apenas se você gosta de ver um diretor fazendo uma velharia de filme e claramente se divertindo com isso, então com certeza esse filme é para o seu gosto.

Mas é um experimento que não impede de mostrar os talentos de Sodenbergh como diretor e que se mostra completamente fissurado em querer mimicar e recriar toda a técnica 4:3 widescreen das antigas, frame por frame. Que revela tanto sua ambição desenfreada, como também dedicação profissional, que resulta mesmo no filme ter toda uma estética e visual quase perfeitas e indistinguíveis do que um filme feito nos anos 40 e remasterizado para hoje.

Porém, a pergunta que se desperta é sobre o que isso pode trazer de novo ou diferente e atual para uma história que também é escrita como se fosse um filme que diretores das antigas como Otto Preminger, Michael Kurtiz, entre outros que poderiam ter feito esse exato tipo de trama similar em seu auge nos anos 40? Um filme Noir claramente anti-guerra e Que com certeza não é o remake indireto de Casablanca por muito pouco?!

Exatamente pela tentativa que ele mostra de querer criar nesse grande experimento, uma espécie de clássico Hollywoodiano reverso, desconstruindo qualquer um dos elementos bem já familiares componentes e clássicos do gênero. Onde o jovem soldado Tully (Tobey Maguire) de semblante inocente e suposto símbolo idealista, é na verdade um beberrão violento e agressivo; onde o herói galã Jake (George Clooney) é feito de gato e sapato pelo mistério que tenta descobrir e é esbofeteado de todos os lados o tempo todo; onde a estrela mocinha ou a misteriosa femme fatale da história, Lena (Cate Blanchett), guarda nuances e segredos mais sombrios e trágicos do que tudo o que resta da guerra ao redor de cada um deles.

Mesmo que não acabe sendo um filme totalmente bem executado em suas ambições narrativas que são interessantes, mas que são tratadas de um jeito um tanto desgastado. Mas ainda assim, consegue ser um filme-experimento feito com total gosto e fascinação de seu diretor pelo que realmente representa o cinema clássico, e que questiona onde heroísmo e finais felizes realmente importavam em uma realidade nua e crua. Mesmo que embora o filme ainda se mantenha preso dentro da sua estrutura de experimento purista.

Algo um pouco semelhante com o que esses dois filmes a seguir fizeram um tanto melhor e de formas diferentes. De um lado O Artista de Michel Hazanavicius que tenta de todas as formas em ser uma comédia romântica das antigas em sua proposta também ambiciosa, e se usando do estilo e linguagem (ou melhor, falta dela) dos filmes de Chaplin dentro de uma trama que parece tirada de um certo filme ‘chuvoso’ de Gene Kelly, que esteticamente consegue ser uma recriação clássica bem melhor que O Segredo de Berlim, e bem mais eficiente como resultado, embora hoje apenas gostem de lembra-lo negativamente como sendo um projeto fajuto vencedor do Oscar de melhor filme. Mas que possui um ar de graciosidade que o torna irresistível aos mais puristas da estética mais classuda do cinema.

Ou vejam o já esquecido e infelizmente menosprezado Dália Negra, ironicamente do mesmo ano de O Segredo de Berlim, e um tipo de filme que só teria sido feito por alguém com culhão como Brian De Palma. Que pega atores relativamente famosos, os coloca em uma produção de alto orçamento e que busca de todas as formas recriar, se não a técnica, a sensação de estarmos assistindo à um clássico filme Noir de ponta à ponta. A narração em off? A femme fatale? A trama policial que questiona a moral do protagonista? Tudinho aqui.

Ao mesmo tempo em que é feito nos moldes do estilo sempre autoral de seu diretor, criando um thriller de teor quase macabro em sua linha de mistério que comanda a trama, e que não resiste em querer mostrar, assim como O Segredo de Berlim, a perversidade suja e erótica por detrás que seu período guardava. Seja com a vítima da história, uma jovem atriz que busca a fama em Hollywood e acaba sendo uma atriz de filme erótico sujo e quase perturbador, ou o detetive modelo Lee (Aaron Eckhart) que inspira o amigo e protagonista Dwight (Josh Hartnett) que na verdade se mostra como um temperamental corrupto e de mãos sujas.

Você pode tanto pode encarar essas como tentativas fracassadas ou com a pura pretensão de recriar o clássico por pura forma nostálgica. Mas De Palma fez com Dália Negra algo que também tentava ser um filme direcionado para o público de hoje mesmo com sua técnica e estética clássica. Claramente não deu certo, mas não foi o último filme que buscou fazer algo parecido em querer transformar o clássico no moderno.

O Passado moderno

Eis que entra em cena um filme como Aliados de Robert Zemeckis, que por mais que críticos possam se dividir ou discordar sobre, talvez consiga ser um filme muito mais interessante na sua pegada do clássico Hollywoodiano sendo criado pelas lentes de hoje do que os outros filmes aqui citados. Que, assim como O Segredo de Berlim, Zemeckis busca criar sim uma forma narrativa bem old school, cujo o roteiro de Steven Knight quase que poderia facilmente ser uma continuação espiritual para Casablanca, mas dentro disso, consegue realizar um drama bem moderno.

Mesmo que ainda seja outro filme, assim como os já citados, que resgatam o cinema clássico Hollywoodiano em sua estrutura, mas cria uma visão ácida, ou até melhor, mais brucutu e “realista” sobre ele. Pois que ao contrário de Segredo de Berlim, Zemeckis tenta colocar esse tipo de trama que tipicamente poderíamos ter visto Humphrey Bogart estrelando ao lado de Ingrid Bergman, recriado com as tecnologias e estruturas narrativas atuais, e Zemeckis sendo um digno experimentalista tecnológico e tão classudo ao mesmo tempo, Aliados só fica bem mais interessante como um filme.

Ao misturar o realismo do mundo que apresenta aos personagens, junto das pretensões hollywoodianas das mais ridículas, e que conseguem ser divertidas de se assistir. Pois se de um lado você tem tiroteios violentos sem nenhum pudor de mostrar corpos queimados e sangue jorrando por tiros de balas em uma missão que quase termina em tragédia, você também tem a dupla/casal formada por Max (Brad Pitt) e Marianne (Marion Cotillard) varrendo uma festa nazista aos tiros como se o Tenente Aldo Raine e a Edith Piaf se tornassem heróis em Bastardos Inglórios.

E se de um lado você vê no segundo ato uma tensão sexual quase tóxica se formando entre o casal quando Max começa a ficar paranoico com a possibilidade de Marianne ser uma espiã infiltrada, que já remete à um toque sutil bem típico de Hitchcock como Interlúdio, ao mesmo tempo em que criam esse cenário de um relacionamento se auto deteriorando em dúvidas e falta de confiança que consegue ser bem palpável e atual. Ao mesmo tempo em que você também tem junto disso coisas do tipo uma cena de sexo acontecendo dentro de um carro durante uma tempestade de areia e um parto acontecendo durante um enorme bombardeio que nem aspira ser um momento de tragédia no filme e sim doce e belo. É uma mistura estranha, mas que consegue funcionar bem mais do que pode se esperar.

Porém, como esperado, Aliados também não é um filme que consegue agradar à todos, o que só deixa a argumentação persistente aqui sobre essa forma de narrativa conseguir encontrar seu lugar nos filmes de hoje quase falha. Mas eis que existe sim um filme definitivo à provar isso positivamente, e que consegue fazer todas as mesmas táticas dos filmes aqui citados e fazer tudo isso muito bem ao ponto de ser galardoado tanto por crítica e público, que é A Invenção de Hugo Cabret de Martin Scorsese.

Um filme que consegue recriar toda aquela estética e sensação dos filmes primórdios de Georges Méliès que a própria história do filme busca homenagear, e ainda consegue ser carregado de um tom inocente e de aventura que lembra tanto Chaplin quanto os filmes mais otimistas de Fellini como Noites de Cabíria, cujo personagens conseguem viver nessa realidade quase fantasiosa mas que não ignoram a triste realidade em que vivem. Conseguindo ser para o público de hoje um filme capaz de agradar à toda família, que traz o amor e fascínio pelo clássico para os dias de hoje naturalmente.

Ainda que continue sendo um tema de fato avulso em discussão, ou sobre se sequer é discutido no cenário atual do cinema, sobre resgatar o que fez os clássicos se tornarem clássicos de volta ao nosso presente. Mas em uma época onde grandes estúdios buscam apelar para a nostalgia do passado e criar algo novo no presente, um diretor como J.J. Abrams olhava para os filmes de Spielberg e Richard Donner e fazia algo puro e sincero com seu Super 8, assim como os diretores aqui citados. Se eles se sucederam sim ou não em recuperar o ar clássico do cinema para seu turbulento presente é outra história, mas pelo menos o fizeram com amor ao cinema que os moldou.