Dentre sete filmes que formam sua carreira que perfeitamente se classificam como ‘ame ou odeie’, talvez seja certo dizer que Fonte da Vida foi talvez o único filme de Darren Aronofsky onde o diretor não deu as respostas mais fáceis ou completamente mastigadas sobre o que ele queria comunicar com sua trama para com o público, como seus filmes póstumos viriam mais ou menos a fazer, apenas vide a adaptação do Velho Testamento que ele realizou em Mãe! e não fez questão nenhuma de ser sutil quanto à isso.

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Enquanto em Fonte da Vida, que foi o primeiro de seus filmes dentro da sua mais ou menos considerada como “trilogia religiosa” (junto de Mãe! e Noé), Aronofsky tratava seus temas e significados com muito mais sutilezas e camadas totalmente abertas à interpretações. O bastante para ter tornado o filme ser totalmente divisivo, ou melhor escorraçado e diminuído pelas críticas, sendo classificado por ser ou altamente pretensioso e confuso, ou não ter nada a dizer em sua trama dividida entre três linhas de tempo diferentes que aparentemente lida com vida, morte, e uma árvore da vida que ascende para o espaço dentro de uma bolha espacial.

O filme também coopera muito para esse julgamento, não se preocupando nem um pouco em possuir uma estrutura convencional de uma narrativa de filme, constantemente intercalando as linhas de diálogo que parecem seguir uma linha de história coerente junto com as metáforas visuais à todo estante. Sempre confundido o público sobre o que é real, o que é uma visão, ou o que é um paralelo de ambos

Tudo que o torna em um infeliz alvo fácil para esses críticos contra o anti-convencionalismo formulaico de filmes, mas que talvez carregue algo forte e profundo a dizer sobre esses exatos mesmos temas, e talvez algo mais além que toda sua estrutura e concepção pode e procura transmitir. Não só um “filme de arte” pretensioso, mas sim um conto alegórico de ascendência e renascimento.

Uma História de amor, vida e morte

Para conseguir entender um pouco do todo do filme, saibamos o básico de tudo, onde o miolo da história do filme é seguir esse casal de personagens formado por Rachel Weisz e Hugh Jackman interpretando diferentes personagens em três diferentes linhas narrativas.

Uma se passando durante a Inquisição Espanhola com Tomas Verde, conhecido como O Conquistador, sob ordens da rainha que está em ameaça de ataque pela Inquisição, parte em  busca da fonte da vida na América Central; a outra no que parece ser o presente e o “real”, seguimos o personagem de Tommy, um cientista que está em busca desesperada de encontrar uma cura para o tumor que está lentamente matando sua esposa Izzy, que pouco tempo tem para estarem juntos enquanto Izzy está escrevendo seu livro sobre a busca da Árvore da vida dentro da América Central e espera que Tommy o termine se ela não terminar; e a terceira, se passando aparentemente no espaço, onde vemos Tommmy agora careca e subindo mais e mais alto aos céus dentro de uma bolha junto de uma árvore com que ele se alimenta e conversa como se fosse sua amante.

No centro disso tudo, o mais óbvio a se tirar é que o filme trata do romance entre ambos, dentro de cada linha temporal, claro. Mas a grande pergunta que fica é, do que realmente se trata cada um desses arcos além de suas premissas aparentemente tão simples mas que se intercalam constantemente. O que real e o que não é? O que é um sonho, visão, ou alucinação dentro de tudo isso? Pode haver diversas respostas e análises diferentes para isso, mas aqui vão algumas bem plausíveis e com várias provas presentes no filme.

Amor Reencarnado

A primeira que logo vem em mente seja o fato de que cada linha temporal seja uma reencarnação da mesma alma, ambos de Tommy e Izzy, ou de Tom e a Rainha. Sendo que a última, nomeada pelo diretor de “Astro Tom”, possui memórias das duas últimas “vidas” que viveu, e se reparar ele se martela constantemente com passagens de cada uma delas, tanto as constantes memórias de Izzy, e também da rainha da Espanha. Uma que ele nunca conseguiu achar uma cura ou terminar o seu livro, e a outra que ele nunca conseguiu retornar para ela como prometido. Mas agora, ao ascender à esse novo nível espiritual no espaço celeste, junto da poderosa árvore da vida, ele poderá retornar para ela e viver eternamente.

Outra prova que sustenta essa interpretação, e novamente mostra a forte influência religiosa dentro do filme, é a hipótese de que ambos os personagens são tratados por Aronofsky como sendo, não só representações, mas vivas reencarnações de Adão e Eva. Já que o filme começa com a Gênesis 3:24 – “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida.”, e mais óbvio ainda o guardião nativo da Árvore da vida que O Conquistador confronta no início e no final do filme está exatamente com uma enorme espada flamejante.

Poderiam então serem eles essas possíveis reencarnações dos próprios Adão e Eva em busca da árvore da vida que lhes foi proibida, para finalmente encontrarem redenção e ascenderem ao reino de Deus? Vindo de um criador de alegorias como Aronofsky não é difícil imaginar que essa seja uma bela interpretação da história de Tommy e Izzy.

Mas se seguindo essa linha alegórica, você até pode levar o relacionamento de ambos para o sentido metafórico. Se Izzy é representada como a árvore da vida, Tommy é a do conhecimento, um descendente do fruto proibido, um cientista brilhante, descrente, impulsivo e um tanto arrogante como todo ser humano, mas que encontra o melhor de si junto de Izzy, e que possui todo o conhecimento necessário para carregar com a descoberta de encontrar a árvore da vida.

Aronofsky mostra isso visualmente constantemente ao longo do filme, com a câmera transitando tomadas entre a árvore e Izzy. E as cenas onde os pelos da árvore se arrepiando enquanto o Astro Tom sussura pra ela, são enquadradas da mesma forma que as cenas com Tommy beijando a nuca de Izzy e sussurrando em seu ouvido, ironicamente comunicando em ambas ocasiões a mesma coisa, “estamos quase lá” em um e “está tudo bem, estamos bem perto” em outro.

Na breve história que Izzy conta para Tommy isso fica mais claro ainda e talvez toque no principal tema do filme. “Ouça, escute. Ele disse que se eles cavassem o corpo de seu pai, ele teria ido embora. Eles plantaram uma semente sobre seu túmulo. A semente se tornou uma árvore. Moisés disse que seu pai tornou-se parte dessa árvore. Ele cresceu na floresta, na flor. E quando um pardal comeu a fruta da árvore, seu pai voou com os pássaros. Ele disse que … a morte era o caminho do pai para o renascimento. Foi assim que ele chamou. O caminho para o renascer.”. Ou seja, o renascimento, um novo viver, deve se passar antes pela dor, o sofrer, a morte.

Amor que atravessa o Tempo e a Realidade

Outra possível interpretação para a linha temporal do filme, é  quando Tommy ao usar uma amostra da suposta árvore descoberta na América Central (a mesma árvore da história de Izzy?) para salvar o macaco Donovan que está em sua mesa de testes, não só curando o seu tumor no cérebro (assim como o de Izzy) mas também estendendo sua vida.

E logo no final vemos Tommy plantando uma semente da mesma árvore sob o túmulo de Izzy, o que leva a pensar que as cenas onde ele aparece careca como um Hindu e flutuando para o espaço junto de uma árvore seja mesmo Tommy em sua versão de milhões de anos no futuro, que se manteve vivo graças à árvore que lentamente está morrendo (assim como Izzy)

“Todos esses anos, todas essas lembranças, lá estava você. Você me puxou através do tempo.”.

Porém tudo também poderia se passar como uma mera alucinação, para os mais incautos em descrença. Sendo próprias alucinações de Tommy em seu leito de morte se lembrando do passado com sua esposa e da história sobre a busca pela vida eterna que ela escreveu, onde suas cenas com a árvore sejam suas visões do mundo além vida. Uma breve cena em que ele encara um velho no leito de morte, usando uma aliança igual a que Tommy perdeu no início do filme, e a câmera focando nos olhos de cada um não foi colocada ali à toa.

Mas ainda dentro dessa linha de pensamento, é como se Aronofsky quisesse rebater toda essa visão ateia de sua história, repostando com fatores que não só apoiam a visão mística e religiosa do filme, junto de uma sobre conhecimento e sabedoria.

Vide um texto rapidamente citado no filme, o Bhagavad Gita, um texto religioso hindu que relata o diálogo de Krishna, considerado como a suprema personalidade (Deus), a verdade absoluta e inconcebível, com seu discípulo guerreiro em pleno campo de batalha, Arjuna. Que representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever e recebe iluminação diretamente do Senhor Krishna, que o instrui na ciência da auto-realização.

Tommy poderia então ser esse guerreiro (o Conquistador) em busca do conhecimento (no presente) através da cura da morte, mas só o consegue quando decidi optar por seguir Izzy quando lhe é dada a opção no início e novamente no final do filme, onde ela lhe entrega a semente que o permite plantar e no futuro ascender ao nível de uma entidade espiritual, o amor e sabedoria de Deus vindos através de sua esposa.

Uma Perfeita Alegoria

Ou ainda longe de toda a visão religiosa que o filme fortemente sucinta, a jornada de Tommy no filme, e na linha do tempo real entre ele e Izzy, pode ser encarada como o simples fato dele estar confrontando sobre o aceitar ou não a inevitável morte que está por vir. Ficando em paz com isso ou para sempre vivendo em sofrimento.

Aronofsky tem uma visão positiva à isso já que ao longo do filme ele usa os olhos de Tommy, em todas as linhas temporais, como uma progressão disso. No início sendo filmado complemente envolto de escuridão e vazio, e lentamente mostrando mais e mais luz. As cenas com ele e Izzy são luminosas, alegres e confortáveis, enquanto as cenas dele sozinho são envoltas de um breu, apenas com uma mínima fagulha de iluminação sugerindo fé e esperança que ele ainda possui.

O final, alegórico, alucinação, realidade ou não, morte ou vida, pode apenas ser Tommy abraçando a dor, sua morte interna pela perda, e a semente no túmulo de Izzy o sinal sutil e emocionante de renascimento sob sua morte.

Izzy diz que o seu livro começa na Espanha e termina dentro da Nebula Sebulba, na constelação de Xibalba. Então todo o arco com o Astro Tom seja a parte final do livro que Izzy não escreveu e agora Tommy terminava, fazendo com que a árvore não simplesmente dê eterna vida como não deu para Tomas Verde, que, ao tomar do leite da árvore, ele se desmantela ao criar galhos em seu corpo, se tornando parte da árvore, dando lugar uma nova vida em seu lugar.

O mesmo que acontece com o Astro que ascende até desaparecer enquanto a árvore volta à florescer – uma representação visual tanto do final do livro de Izzy quanto a de Tom na vida real encontrando aceitação em sua morte e fazendo com que a história de Izzy seja a sua nova forma de vida que viverá para sempre. “Através daquela última nuvem escura há uma estrela moribunda. E logo, Xibalba vai morrer. E quando explodir, irá renascer. Você vai florescer, e eu vou viver.”.

Ou como o próprio grande Inquisidor Silecio (Stephen McHattie) que no filme é visto como um vilão, carrega muita sabedoria sobre esses temas ao dizer: “Nossos corpos são prisões para nossas almas. Nossa pele e sangue, as barras de ferro de confinamento. Mas não tenha medo. Toda carne se deteriora. A morte transforma tudo em cinzas. E assim, a morte liberta toda alma.”.

Isso tudo podem ser apenas alguns dos vários significados que podem ser tirados e interpretados após assistir diversas vezes à Fonte da Vida, e com certeza algo a mais será encontrado e desvendado dentro de seu miolo. Essa é a beleza desse filme, apaixonadamente bem executado e minuciosamente planejado por seu diretor, e trazido à vida com duas das melhores atuações de seus dois grandes atores.

Tão pequeno e íntimo, mas tão grande e épico no tanto que têm a dizer e transmitir sobre encontrarmos a força e fé dentro do mais fundo de nosso âmago, para assim podermos superar nossas adversidades ao ir de encontro à sabedoria e o amor que nos aguarda no fim da felicidade.

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