Só mesmo outro filme da Netflix para fazer o público entortar a cabeça, ainda mais de um filme vindo do mesmo diretor de O Abutre que prometeu entregar com a trama bem original Velvet Buzzsaw não só um misterioso filme de terror violento, como também uma verdadeira reflexão sobre o estado atual da arte nos dias atuais. Onde depois que todos aqueles que decidiram tirar algum proveito, não do valor artístico mas do financeiro das pinturas do misterioso autor Vetril Dease, uma força sobrenatural começa a misteriosamente a atacar todos que investiram nos quadros.

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Quando no final depois que o crítico Morf (Jake Gyllenhaal) recebe seu castigo final sendo literalmente estuprado pelo robô mendigo, e a colecionadora Rhodora (Rene Russo) paranoica com o misterioso poder das obras de arte se livra de todas presentes em sua casa, é na tatuagem em seu pescoço, também uma obra de arte, cria vida e lhe estripa a garganta. Vemos que apenas algumas almas inocentes sobreviveram, como o artista Piers (John Malkovich) e Damrish (Daveed Diggs). Mas o que havia de tão especial neles para evitarem o fatídico destino do restante do elenco?

Encarando a Arte

Vejam personagem de Rhodora por exemplo e o seu importante papel no desenrolar da trama. À primeira vista ela parece apenas ser outra alguém apenas movida à ganância como as outras vítimas dos quadros, mas tem um coração amargurado ali dentro, que constantemente se é lembrada do seu passado como artista de música cuja obra de nome Velvet Buzzsaw, começou a ser vista com o passar dos anos como autoparódia. Se comparando à uma anarquista que se tornou uma provedora de “bom gosto”, uma lucradora da “arte moderna”, a copiada e sem originalidade, abandonando suas origens como artista.

Eis que nasce a razão pelo evento macabro, ou castigo divino se preferirem, onde o classicismo dos quadros de Vetril Dease criam vida sobrenatural e começa a caçar um por um dos que tiveram um mínimo de lucro dos seus quadros, usando da arte para apenas um fruto financeiro vazio. E também quem regurgita dessa arte moderna artificial, como a morte de Gretchen (Toni Collete) vindo da suposta esfera que transmite sensações aos que a colocam o braço dentro dela. Acabando apenas sentindo a sensação de dor e morte quando tenta, metaforicamente, tentar sentir o que a esfera, a obra de arte, lhe transmite.

O que ambos Piers e Damrish conseguem verdadeiramente sentir, os únicos que olham para as obras de Dease como verdadeiras obras de arte, sem visar o lado lucrativo. Onde pois por mais que Morf olhasse com genuíno encanto para os quadros, ele apenas visa o lucro pelo conteúdo como crítico e autor. Enquanto os dois artistas restantes, admiram a arte das pinturas e conseguem também adquirir um conhecimento valioso delas. Com Damrish se esquivando completamente da arte gananciosa e apenas procurando voltar para suas origens pois ele vê a sua arte de rua como mais valiosa do que a moderna inacessível e idiótica.

Enquanto Piers que procurava reconquistar as antigas glórias do passado com obras que lhe traziam dinheiro, e parar de refazer a mesma coisa de novo e de novo e fazer algo genuinamente do coração. Por isso que Rhodora, em seu raro momento de humanidade no filme, entrega a Piers uma carta de uma antiga colega, que consiste não só no monólogo perfeito que define todo o filme, como também serve o intuito de ajudá-lo a reencontrar a inspiração:

“A dependência mata a criatividade, a criatividade brinca com o desconhecido. Não existem estratégias que possam abranger o reino infinito do novo. Apenas a confiança em si mesmo pode te levar além dos seus medos e do que já é conhecido.”

O verdadeiro valor da arte

Transcrevendo para o que o filme busca dizer com esse belo trecho: a dependência do lucro, do sucesso, mata qualquer forma inspiração pura. Isso no nosso mundo moderno só se intensificou ao ponto de fazer com que a genuína forma de arte crie uma vida própria, daí nasce a imaginação de onde nasce a inspiração artística. Onde não mais existem tentativas desesperadas e frustradas de procurar ser original em um mundo onde ela não mais existe. Mas é na segurança em si mesmo, no seu potencial, no seu amor pela arte que é possível se vencer o medo da frustração e do não ser reconhecido por uma obra feita com verdadeiro coração.

E assim, por mostrar como os gananciosos que só desejavam tirar o fruto financeiro das obras de arte sucumbiram ao seu poder, e o vendedor de rua humilde que cobra uma simples merreca pelos quadros que encontra no lixo é que consegue transmitir ao público a beleza e pureza presente naqueles quadros. Assim como Piers que agora sim consegue por pra fora a inspiração que queria quando alcança se encontra em um cenário rústico e, novamente, de humildade ao desenhar sua arte nas areias de uma praia. Onde as ondas que passam não destroem os desenhos na areia, pois não há mais uma força, sobrenatural ou natural, capaz de destruir verdadeira e genuína arte, feita com sentimentos.

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