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Crítica | Colossal

O terceiro ato compromete este ótimo filme de monstro.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
15 de junho de 2017 · 4 min de leitura
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Depois de Godzilla, filme lançado em 1954, estabeleceu-se no Japão o conceito conhecido como “kaiju”. Numa tradução literal, seria algo como “besta estranha”. Em sua categorização, encaixam-se os monstros cinematográficos que acordam de uma espécie de longo sono e destroem Tóquio. Uma série de acontecimentos foram importantes para o surgimento desse gênero tão característico do país, mas um foi essencial: a Segunda Guerra Mundial. Deixando de lado as movimentações que aconteceram dentro da indústria cinematográfica japonesa, foram as bombas nucleares despejadas em Nagasaki e Hiroshima que deram a esses monstros um caráter histórico muito mais importante.  De uma maneira metafórica, eles passaram a ser vistos como representações físicas dos pesadelos econômicos e sociais enfrentados pelo país depois de 1945.

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Sendo assim, a ideia que move Colossal, filme escrito e dirigido pelo talentoso Nacho Vigalondo e que é uma homenagem norte americana a esses filmes de monstros japoneses, se revela muito poderosa e pertinente. Afinal de contas, a história, cujo desenrolar gira em torno de Gloria (Anne Hathaway), uma jovem alcoólatra que decide retornar para a cidade natal e lá descobre ter o poder de fazer surgir um kaiju em Tóquio, é perfeitamente condizente com o sentimento que deu início ao próprio gênero. Da mesma maneira com que as armas humanas deram vida aos monstros arrasa-quarteirões, neste novo longa metragem do diretor espanhol, são os vícios auto destrutivos do Homem que os fazem surgir.

Essa perfeita compreensão do que os kaijus representam enquanto figuras monstruosas acaba se tornando o grande atrativo de Colossal. Se os monstros não dizem nada sobre nós, eles são inúteis. É como se fossem uma consequência da criatividade humana, mas totalmente desprovida de sentido. Para que gerem algum tipo de reação no público, eles precisam ser mais do que ameaças prontas para serem abatidas. E isso o filme de Vigalongo evita completamente. Sabemos desde o início que o primeiro deles a surgir só o fez por causa de uma ação de Gloria. Depois disso, eles darão as caras mais vezes somente em razão dos gestos inconsequentes da protagonista e do personagem interpretado por Jason Sudeikis.

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Nesse território de eventos, em um desdobramento lógico, o filme chega a uma conclusão óbvia, porém, nunca ultrapassada: os verdadeiros monstros são os seres humanos. Sem exceção, todos os personagens que compõem a narrativa mostram ter características negativas em algum momento. Dentre essas características, a que mais chama atenção por sua intensidade é o alcoolismo de Gloria. Desde Farrapo Humano, de Billy Wilder, não há um filme norte americano que trate essa questão com tanta força quanto Colossal. Ver uma estrela como Anne Hathaway cambaleando por causa do álcool é, no mínimo, impactante. Aliás, no filme, há um contraste entre uma atmosfera mais leve (nesse sentido, a escolha de Jason Sudeikis foi bem pensada) e outra muito mais soturna que acaba desarmando o espectador, deixando-o emocionalmente vulnerável, o que, por sua vez, é algo quase sempre positivo.

No entanto, se opondo às boas escolhas feitas no começo, as decisões tomadas por Vigalongo no restante do longa terminam sendo extremamente decepcionantes. Claramente, uma vez estabelecida a sua ideia e o universo do filme, o diretor não sabia como terminar a história. Assim, o que lhe restou foi inventar uma mudança de atitude brusca por parte de um dos personagens, que, para ser justificada, teve de ser inventado também um motivo para a existência dos monstros que não era somente desnecessário (a alegoria do impulso destrutivo do homem como ponto de partida para o surgimento de monstros era suficiente para explicar a história), como insatisfatório, já que deixa ainda mais perguntas no ar.

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No fim, Colossal tem um encerramento indigno de sua proposta e realização iniciais. Numa época em que reina produções descerebradas como o próprio Godzilla, de Gareth Edwards e Kong: A Ilha da Caveira, o filme de Vigalongo é um sopro de vida e consciência. Por isso, é uma pena que o seu terceiro ato seja tão desastroso. A história contada pelo longa merecia um fim muito melhor.

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Colossal (Idem, EUA – 2016)

Direção: Nacho Vigalondo
Roteiro: Nacho Vigalondo
Elenco: Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Tim Blake Nelson, Austin Stowell, Dan Stevens
Gênero: Fantasia, Drama
Duração: 109 min

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Tags: #Anne Hathaway #Billy Wilder #crítica #Filme #Gareth Edwards #Godzilla #Japão #Kong: A Ilha da Caveira #Nacho Vigalondo #Tim Blake Nelson
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