Sam Mendes pegou o mundo de surpresa com seu novo filme, 1917. Após quatro anos do lançamento de seu último filme, 007 Contra Spectre, seu retorno às telonas não precisava apenas de uma boa história, mas sim de um tremendo trabalho para lança-lo novamente na tendência do mercado.

Felizmente, parece que Mendes não conseguiu somente reconquistar seu prestígio com a crítica especializada como também agradou o público e deve conquistar ainda mais premiações nessa temporada de 2020 – o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama já foi conquistado.

Então, afinal, qual é a fórmula mágica para isso acontecer? Algo bem simples, na verdade, mas tremendamente complexo: um relato audiovisual de uma das maiores corridas contra o tempo situada em plena Primeira Guerra Mundial – acontecimento que, por alguma razão, não é tão explorado no meio audiovisual quanto a Segunda Guerra.

Correr ou Morrer

O roteiro é também escrito pelo cineasta Sam Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns inspirados em uma antiga história de guerra que pode ser tão verídica quanto uma história de marinheiro. A proposta narrativa de 1917 é mínima. Tudo se trata puramente de Cinema e de sentir a tão famigerada “experiência cinematográfica”, afinal o filme INTEIRO é gravado em plano sequência (ainda que seja trucada para dar a impressão de não haver cortes entre diversas cenas).

Para Mendes e o diretor de fotografia Roger Deakins mostrarem um apuro técnico e estético fascinante, o espectador é levado pelos dois cabos Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George McKay) em uma jornada contra o tempo para entregarem uma mensagem ao Coronel MacKenzie que está prestes a levar mais de 1500 homens para uma armadilha mortal montada pelos alemães.

Para salvar o pelotão inteiro e também o próprio irmão de Blake, a dupla se arrisca em uma jornada excruciante e maldita em encarar os todos os terrores e perigos da guerra, além da ameaça iminente da morte que é exalada por todos os territórios onde passam.

Logo, se trata de uma proposta narrativa bastante similar a diversos filmes de guerra, mas o filme que mais é lembrado na sessão certamente se trata de O Resgate do Soldado Ryan, obra máxima do gênero até agora graças aos esforços impressionantes de Steven Spielberg.

Há muito pouco o que afirmar sobre a narrativa de 1917 por si. A proposta é simples e deixa o espectador ansioso e aflito até a resolução do clímax, pois tudo depende do sucesso da missão de Blake e Schofield. Ambos os personagens são razoavelmente desenvolvidos. Com a narrativa presa a uma aventura que se passa ao decorrer de um dia, inevitavelmente se torna difícil se afeiçoar pelos personagens que funcionam como meros avatares do espectador.

É através deles que sentimos a iminência do perigo, o caos, a desolação, o frio, a fome, o esgotamento físico e psíquico, o medo, raiva, alívio e por aí vai. Seria absurdo eu escrever que 1917 não é um filme emocionante. Provavelmente ele seja mais catártico que muitos filmes de super-heróis enlatados lançados aos montes nos cinemas anualmente.

Evidentemente que para o filme dar certo, Mendes arranja seu roteiro com conveniências muito, mas muito descaradas, além de não conseguir fugir da sensação de plot armor com alguns certos personagens ao longo da correria toda. No caso, a narrativa é justificada pela técnica gloriosa e abundante que o cineasta e Deakins apresentam com o gracejo visual soberbo do filme. 

Logo, infelizmente, (claramente uma picuinha minha), a proposta de “transpor” a Primeira Guerra em uma experiência hiper-realista se torna um tanto conflitante quando essas conveniências surgem durante as generosas duas horas do filme. Afinal, convenhamos, a guerra por si pode ser tudo, menos conveniente. Infelizmente, do mesmo modo, os diálogos são superficiais, rasos, e nunca evocam o sentimento de camaradagem entre os dois soldados. É um filme estranhamente asséptico nesse termo.

Entretanto, não é por isso que 1917 é um filme muito bom, mas não ótimo. Ocorre que, apesar de ser um ponto de vista extremamente subjetivo, a fita é chata. Arrastada, no mínimo. É um clichê tosco da crítica que recorro agora, mas o filme seria espetacular caso tivesse 30 minutos a menos.

Com um problema notório por conta da técnica de plano-sequência, o filme sofre muito com o realismo implacável do tempo. Uma das maiores invenções da linguagem cinematográfica foi justamente a elipse. Em vez de mostrar um personagem abrindo a porta do prédio, entrando no hall, subindo as escadas, andando no corredor, batendo na porta e aí entrando no apartamento, a montagem simplesmente resume toda essa andança com apenas dois ou três planos muito bem desenvolvidos.

Para ilustrar esse ponto, tenho o prazer de lhe descrever uma longa cena envolvendo Schofield e uma carona em um caminhão. Por duas vezes, o espectador fica aprisionado junto ao soldado no espaço minúsculo e nada interessante da boleia do carro. Para piorar ainda mais as coisas, o caminhão atola na lama e, preso no realismo, o diretor faz questão de mostrar o esforço hercúleo dos homens por uns generosos minutos em conseguir arrastar o veículo para fora da lama. Logo, temos ai facilmente sete minutos absolutamente inúteis – outros momentos tão inúteis quanto acabam surgindo posteriormente, mas não me cabe apontá-los a você, caro leitor.

Esse gracejo nem tão moderno da montagem serviria como uma luva para 1917, mas infelizmente Sam Mendes quer mostrar que sabe trabalhar a câmera muito bem. E, sem exageros, ele realmente o faz. Mendes é um diretor tão bom com essa técnica quando Alfonso Cuáron foi em Gravidade, e muito superior a Alexandre Iñarritú com Birdman e O Regresso. Isso nos leva diretamente ao ponto técnico da obra, onde os elogios nesse texto começarão a ficar mais abundantes.

Toque de Mendes

Um diretor brilhante passa anos estudando linguagem cinematográfica e soluções inteligentes para aplicar em seus filmes. Quentin Tarantino fez isso, Stanley Kubrick fez isso e com Sam Mendes não é diferente.

Misturando a narrativa inspirada a Soldado Ryan com a brutalidade de sobrevivência mostrada visceralmente em O Regresso, Mendes encontra seu próprio tom ao encontrar o equilíbrio quase perfeito entre suspense, horror e terror. Não é loucura afirmar que 1917 seja um dos filmes de suspense mais eficazes fora do gênero que tenha surgido em muitos anos.

Assim como Christopher Nolan fez com seu fascinante Dunkirk, Mendes se apropria da técnica que nunca abandona o ponto de vista dos protagonistas para gerar esse desconforto imprevisível latente em toda a obra. Raramente vemos os alemães, raramente temos cenas de tiroteio portanto, o inimigo é quase invisível, apesar de estar assombrando vividamente os dois protagonistas. Não só fisicamente, mas como psicologicamente, afinal se eles fracassarem, as vidas de mais de 1500 homens seriam desperdiçadas. Ou seja, um saldo determinante para o sucesso das forças britânicas na França.

Logo, como já mencionado, o filme sofre de modo espetacular com seu ritmo, ao menos há o preciosismo estético do cineasta para que o espectador atento aprecie o apuro absolutamente perfeito na técnica do design de produção. Absolutamente tudo é perfeito e adequado historicamente. As trincheiras mofadas, sujas e cinzentas, os capacetes amassados e desconfortáveis, os rifles semiautomáticos nada práticos, a vestimenta dos soldados e, claro, o famigerado espaço entre trincheiras que é conhecido como a Terra de Ninguém – quem se aventurasse por ali, morreria com um tiro na cabeça em questão de segundos.

Como havia me perguntado sobre o motivo da Primeira Guerra não ser um tema tão interessante para Hollywood, acabei encontrando a resposta dentro do próprio texto. O motivo é simples: as batalhas aconteciam lentamente através de meses em uma disputa de exércitos que esperavam que a trincheira oposta simplesmente morresse por inanição, doenças e desnutrição – Mendes até mesmo insere em sua profundidade de campo alguns soldados morrendo de virose em meio a vômitos repentinos.

Para tentar “agitar” um pouco as coisas em 1917, o cineasta investe com proeza em algumas cenas de tirar o fôlego como a fuga dos protagonistas em um bunker inimigo que desmorona internamente e a melhor cena da obra: uma perseguição angustiante na noite amaldiçoada em Écoust. São justamente nessas duas que a fotografia de Roger Deakins simplesmente se torna monstruosamente incrível. Não é à toa que esse homem seja um dos profissionais mais respeitados da História (com H mesmo) do Cinema.

Replicando técnicas espetaculares de Skyfall, Mendes e Deakins criam uma verdadeira obra de arte na perseguição noturna trazendo a iluminação inconstante de um incêndio, a brutalidade da luz dura de sinalizadores inimigos e, consequentemente, o efeito de silhuetas em meio à uma caçada repleta de ferocidade e desespero. Como um curta, somente com essa sequência, não teria o menor problema em aplicar a nota máxima, mas infelizmente 1917 tem duas horas que pesam.

O motivo é simples: o plano sequência não permite que o espectador “respire”. Entre os cortes tradicionais da montagem clássica, existe sempre um espaço para o olhar do espectador ser guiado e recompensado com enquadramentos diferentes e sacadas inteligentes de encenação. Em um plano sequência, você fica preso ao que a câmera mostra. Sempre guiando seu olhar na direção do movimento dos personagens que, inevitavelmente, são enquadrados em planos conjuntos abertos permitindo mostrar o objeto de cena e também alguma parte do cenário enquanto não revela o que está mais adiante no eixo de movimento da ação restringindo a geografia do cenário.

Como falei antes, é óbvio que Mendes sabe das amarras criativas da técnica e para isso, ele realmente se preparou muito bem em seus estudos. Ainda que restrito a repetições incansáveis de enquadramentos, o cineasta consegue variar com muita elegância entre planos gerais enormes para fechá-los aos poucos até chegar num singelo close em momentos mais dramáticos da obra e vice-versa. Para o espectador sem olho treinado, isso é uma maravilha pois permite que o filme flua com maior gracejo, ainda que seja uma experiência em geral bastante chata. Agora, se você já é familiarizado com a técnica…

Há ainda que se dizer que trazer Roger Deakins para fotografar seu épico de guerra e não apostar fora do comum na paleta de cores do filme é um baita desperdício. A guerra é cinzenta, ocre, fede a fumaça. É isso que Mendes quer retratar e é isso o que ele consegue, para o bem e para o mal. Ele não só tem muito de seu talento seu desperdiçado, como também admitiu uma das maiores dores de cabeça da cinematografia. Ainda que ocorram muitas panorâmicas sutis, inevitavelmente o filme acaba exigindo o movimento horizontal em seu eixo em cenas internas. São nesses momentos que alguém pode perguntar: “mas que raio está acontecendo?”

O efeito visual péssimo e limitador de absolutamente todas as câmeras sempre sera o obturador e é impossível conseguir se fazer uma panorâmica sutil com o obturador clássico dos 24 quadros por segundo. Logo, diversos elementos de cena na profundidade de campo começa a sofrer um stuttering, um genuíno tremelique violento quando a câmera é obrigada a fazer uma panorâmica. Planos sequências exigem capricho, mas nem mesmo um deus da fotografia conseguiria se livrar desse limitador clássico que assombra o Cinema desde sua concepção.

Emendando melhor a proposta com a narrativa, Mendes acerta nas sutilezas, muito embora seja uma mensagem bastante batida que já foi vista diversas vezes em filmes melhores do gênero. No caso, o cineasta quer apresentar um conceito cíclico, contínuo e perene, assim como sua câmera que atravessa os cenários apocalípticos com o gracejo de um pincel expressionista.

O mesmo enquadramento abre e fecha o filme, mas ao mesmo tempo, a jornada até ali transformou o protagonista em seu próprio âmago. Ao longo desse enorme círculo técnico-narrativo, temos diversas outras passagens que exprime sutilmente a ideia do cineasta que pode tornar 1917 algo mais palatável.

O filme dimensiona opostos a todo o momento, um embate entre bem e mal, vida e morte, graça com terror. Essa dilatação pode ser vista rapidamente na relva verde que os personagens se encontram para então se enfiarem nas cinzentas trincheiras apertadas. Depois, a segurança da trincheira vs o front da Terra de Ninguém. Logo adiante, a mesma coisa, a segurança do terreno explorado contra o perigo que se embrenha nas trevas da trincheira alemã muito melhor equipada e espaçosa – conforto e comida em abundância quando comparado ao regimento britânico.

Entretanto, acho que a mensagem mais bonita que Mendes cria em sua encenação, ocorre em duas cenas trágicas. As duas envolvem a transformação gradativa da vida em morte. Isso ocorre diante uma cena envolvendo leite (que acaba sendo resolvido em outro sentido em uma cena posterior) e na outra, justamente quando Schofield se joga em um rio para fugir de seus algozes alemães.

Fugido da morte, o personagem finalmente contempla o sossego, a paz e tranquilidade do curso do rio. Enquanto contempla o céu, várias pétalas de cerejeiras o abraçam. A cerejeira, previamente, tem um significado importante dentro da relação entre os protagonistas. Quase cedendo para o relaxamento mental, refugiando-se do horror, logo as pétalas se transformam em cadáveres podres e fétidos abraçando o soldado que se desespera mais uma vez.

O horror da guerra é inescapável. E não poupa ninguém.

1917 em 2020

A temporada das premiações se aproxima. A vitória de 1917 com o Globo de Ouro mais importante da noite com certeza influenciará positivamente diversos espectadores curiosos para conferir simplesmente o que se trata. Porém, me sinto novamente em 2016, quando O Regresso havia chegado nas nossas terras tupiniquins.

As pessoas se amontoaram para ver o tão elogiado filme, vencedor de três Oscar, incluindo de Melhor Direção além de contar com Leonardo DiCaprio no elenco. Por curiosidade reversa, conferi o filme uma segunda vez em IMAX. Os longos minutos do filme de proposta bem similar a 1917 passaram, celulares foram abertos, feeds de facebook foram conferidos, roncos sonoros puderam ser ouvidos e as reclamações clássicas surgiram nos créditos: “puta filme chato, meu!”

“Mas e a arte?” Você pode me perguntar. Então a dica continua a mesma: existe arte sim, primor técnico eficaz e uma história tão instantânea quanto miojo (um bom miojo, ok?). Mas fique esperto se é mesmo dessa “arte” que você quer assistir e o intuito disso também. Seria apenas para ficar por dentro dos papos cinéfilos? Ou simplesmente por um genuíno interesse pela expressão máxima de uma experiência cinematográfica – incluindo seus momentos inexoravelmente entendiantes?

No fim, quem decide, obviamente, é você. Agora, convenhamos, realmente aquela correria do clímax com a boa música de Thomas Newman – o músico consegue conferir emoção para cenas carentes dessa característica – explodindo nas caixas de som é digna de uns bons papos cinéfilos.

1917 (1917, EUA, Reino Unido – 2019)

Direção: Sam Mendes
Roteiro: Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
Elenco: Dean-Charles Chapman, George McKay, Daniel Mays, Colin Firth, Mark Strong, Benedict Cumberbatch
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 119 minutos.