Crítica | Moana (2026) aposta na renovação de sua própria audiência com repetição da história original
A saga Moana, fenômeno contemporâneo da Disney, consolidou-se como um dos pilares de um dos maiores sucessos da animação moderna, combinando mitologia polinésia com uma jornada épica de autodescoberta e liderança feminina, evitando os clichês típicos de romance açucarado. O poder narrativo da jovem marinheira de Motunui se traduziu em um sucesso estrondoso de bilheteria […]

A saga Moana, fenômeno contemporâneo da Disney, consolidou-se como um dos pilares de um dos maiores sucessos da animação moderna, combinando mitologia polinésia com uma jornada épica de autodescoberta e liderança feminina, evitando os clichês típicos de romance açucarado. O poder narrativo da jovem marinheira de Motunui se traduziu em um sucesso estrondoso de bilheteria e um fenômeno cultural: enquanto o filme original de 2016 arrecadou impressionantes 687 milhões de dólares em todo o mundo e estabeleceu uma marca como o título mais assistido em plataformas, a aguardada sequência de 2024 quebrou todos os recordes, ultrapassando mais de um bilhão – a maior bilheteria de estreia da história para um filme de animação.
Apenas uma década após o lançamento do filme de animação original, a Disney está implementando uma estratégia de marketing ambiciosa, levando a odisseia marítima aos cinemas em um filme com atores reais, estreando agora em julho de 2026. Estrelado pela estreante Catherine Laga’aia no papel principal e com Dwayne Johnson como o semideus Maui, a produção está gerando debates na indústria do entretenimento sobre o esgotamento prematuro de fórmulas familiares e a velocidade com que o estúdio recicla seus próprios clássicos. No entanto, o ambicioso remake promete expandir o impacto visual do universo da Oceania e testar o apelo de uma história universalmente impactante em um formato fotorrealista e ricamente detalhado.
O desejo por autenticidade cultural guiou o processo de seleção do elenco. A escolha de Catherine Laga’aia, uma australiana novata com raízes samoanas, reforça o compromisso do estúdio em preservar a autenticidade da herança da protagonista. Além da presença sempre simpática de Dwayne Johnson como o extravagante Maui, o elenco de atores experientes da Oceania, incluindo John Tui como o austero Chefe Tui, Frankie Adams como a compassiva Sina e Rena Owen como a mística Avó Tala, traz à produção a profundidade dramática e a conexão com suas raízes necessárias para traduzir a essência espiritual e comunitária de Motunui para a encenação real.
Não deixa de ser curiosa a recepção por parte da crítica, que tem repudiado o filme como uma mera repetição do enredo original. Tal constatação parece ignorar um fato bastante perceptível: tanto o gênero infantil quanto o de horror costumam repetir fórmulas apostando na renovação garantida de seu próprio público. As crianças na plateia de 10 anos atrás não são as mesmas que, em 2026, poderão ser atraídas pelo universo de Moana (que elas não conhecem). Além disso, há o fator de nostalgia precipitada: quem conheceu o primeiro filme ainda na infância ou mesmo pré-adolescência pode retornar agora e reviver o mesmo tipo de emoção na sala de cinema com um novo filme.
Repetir, renovar e reciclar têm sido ferramentas de negócios fundamentais da indústria audiovisual, que não se constrange em consagrar, por exemplo, O Segredo de Widow’s Bay, um pastiche divertido mas que chega às raias do constrangimento com sua mistura quase aleatória de situações e personagens muito explorados do universo do horror, que vão desde Michael Myers até a Nova Inglaterra de Stephen King, com seus palhaços e nevoeiros assassinos, passando até pelos tentáculos tipicamente lovecraftianos.
O novo Moana se sustenta como filme ao repetir a animação original e superar esforçadamente tanto o desafio do olhar “para inglês ver” da comunidade polinésia, quanto a integração entre os atores reais e os cenários e ação elaborada digitalmente. Nesse último quesito, o filme se sai melhor que o Avatar de Cameron, por exemplo, pois consegue evitar a aparência liquidificada do protetor de tela que a ambientação repleta de mares e céu costuma desencadear.
Quem não viu a animação original vai encontrar aqui um bom divertimento familiar, com minutagem no limite (embora um ou dois números musicais a menos pudessem agilizar a narrativa). Quem viu talvez também se divirta ao presenciar o esforço dos realizadores em repetir a história sem que ela se tornasse uma mera cópia de si mesma. E as crianças têm a oportunidade de assistir a um conjunto de situações e personagens carismáticos que evita qualquer tipo de discurso ideológico banalizado.