Games

Ubisoft demite equipe de Black Flag Resynced dias após o fim do desenvolvimento

A Ubisoft demitiu 51 funcionários de Barcelona dias após o fim do desenvolvimento de Black Flag Resynced, levando a equipe a uma greve de seis dias.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
5 min de leitura

O prêmio por um trabalho bem-feito foi a demissão

Assassin’s Creed Black Flag Resynced chega ao mercado nesta quinta-feira, 9 de julho, com pré-vendas fortes e projeções de vendas promissoras, como já detalhamos em cobertura anterior sobre as melhorias técnicas do remake no PS5 Pro. Mas a equipe que ajudou a construí-lo em Barcelona não vai comemorar o lançamento como funcionária da Ubisoft. Dias depois de concluir o trabalho no jogo, em 10 de junho, a empresa demitiu 51 funcionários do estúdio espanhol, aproximadamente 28% da força de trabalho anterior aos cortes.

Segundo fontes ouvidas pelo Insider Gaming, os cortes pareciam premeditados e aconteceriam independentemente de quão bem-sucedido o remake fosse.

Um padrão de comportamento que a própria equipe já temia

A Ubisoft normalmente atribui um novo projeto a uma equipe antes mesmo de o trabalho atual ser concluído, às vezes com até um ano de antecedência. A equipe de Barcelona não recebeu essa garantia desta vez. Já no verão de 2025, os funcionários levantaram publicamente a preocupação de que nenhum projeto novo havia sido designado, o que soou como alarme precoce de que a equipe seria dispensada assim que terminasse o trabalho em Black Flag Resynced.

O temor se confirmou. Segundo fontes do Insider Gaming, o evento de comemoração de lançamento planejado para a equipe foi cancelado, substituído por um pequeno encontro com catering no próprio estúdio. Um funcionário afetado, falando sob condição de anonimato, resumiu o sentimento geral: “Esses cortes coincidem com o contexto mais amplo de problemas trabalhistas contínuos. Isso não é um evento isolado; reflete um padrão de maus-tratos constantes, perda de talento, saídas forçadas resultantes da erosão dos direitos dos trabalhadores, e uma cultura de gestão cada vez mais verticalizada, que deixa os funcionários com pouca voz nas decisões que afetam seu trabalho.”

Seis greves em três semanas

Em resposta, os funcionários da Ubisoft Barcelona, organizados através do Comitê de Coordenação do Sindicato dos Trabalhadores de Videogames, anunciaram greves nas tardes de terça e quinta-feira entre 30 de junho e 16 de julho, totalizando seis paralisações parciais. As principais exigências incluem um novo acordo vinculante que proteja os 51 funcionários afetados, uma garantia de cinco anos contra futuras demissões coletivas, execução imediata de promoções internas já acordadas anteriormente, e restauração da flexibilidade de trabalho remoto.

Não é a primeira mobilização do tipo na empresa neste ano. Em fevereiro, cinco sindicatos franceses já haviam organizado uma greve de três dias em outras unidades da Ubisoft, e os trabalhadores de Barcelona já haviam processado a empresa em novembro de 2024 por causa da política de retorno obrigatório ao escritório, processo sem resolução pública confirmada até agora.

O contexto financeiro que explica, sem justificar, os cortes

A reestruturação em Barcelona não é um caso isolado dentro da Ubisoft. No mesmo mês de junho, a empresa confirmou o fechamento completo dos estúdios de Belgrado e Winnipeg, além da reorganização de Barcelona para focar exclusivamente na franquia Rainbow Six. No relatório de resultados de maio, a Ubisoft registrou prejuízo de aproximadamente €1,3 bilhão no ano fiscal encerrado em 31 de março de 2026, com queda de 17,4% nas reservas líquidas em relação ao ano anterior.

Publicidade

A empresa já alertou investidores que espera novo prejuízo entre 8% e 9% no próximo ano fiscal, algo em torno de €500 milhões.

Curiosamente, Black Flag Resynced teve a colaboração de pelo menos 15 estúdios diferentes da Ubisoft ao redor do mundo, incluindo Singapura na liderança, além de Barcelona, Bordeaux, Bucareste, Chengdu, Montreal e outros, o mesmo nível de escala de recursos usado em Assassin’s Creed Shadows. A ironia é evidente: o mesmo jogo que exigiu um esforço coletivo massivo de toda a empresa resultou no desmantelamento de uma das equipes que o construíram, assim que o trabalho terminou.

Um padrão que se repete em toda a indústria

O caso da Ubisoft Barcelona se soma a uma lista que só cresceu nas últimas semanas, como temos documentado extensivamente: os cortes profundos na Xbox atingindo Id Software, Obsidian e ZeniMax Online, as demissões na Bungie após o fim de Destiny 2, e agora a Ubisoft repetindo o mesmo roteiro logo depois de um lançamento bem-sucedido. A crítica mais recorrente entre desenvolvedores e observadores da indústria é que esse ciclo de contratar em massa para um projeto grande e demitir em massa assim que ele termina impede a acumulação de conhecimento institucional que historicamente definiu estúdios duradouros.

A comparação mais citada nos fóruns é com a Nintendo, cujo presidente Shuntaro Furukawa declarou recentemente que a empresa valoriza profundamente a experiência acumulada dos funcionários e o trabalho em equipe entre gerações como parte fundamental do “DNA” da companhia, mesmo durante períodos difíceis como a era do Wii U.

Para trabalhadores como os de Barcelona, que passaram anos construindo um remake bem recebido pela crítica e pelo público, a lição que sobra é amarga: mesmo o sucesso comercial não garante mais nenhuma segurança dentro da indústria de games atual.

Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp