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Catálogo

Crítica | A Dupla Vida de Véronique – Sonhos na Realidade

Um filme para poucos e muitos.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
27 de março de 2018 · 6 min de leitura
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Entre as duas obras-primas de sua vida – o Decálogo e a Trilogia das Cores, Krzysztof Kieslowski flertou como nunca com a pureza da forma cinematográfica em A Dupla Vida de Véronique. Pegando a proposta curiosa do doppelganger, ou seja, de pessoas diferentes que são precisamente muito parecidas entre si.

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A mente pioneira de Kieslowski já adiantava a tendência que filmes de suspense modernos se inspirariam para criar histórias realmente estranhas e incomodas. O único entrave aqui é que a narrativa geralmente não é de grande interesse para o famoso cineasta polonês e certamente essa é uma das obras mais difíceis para com o público em toda a sua carreira. O problema é que filmes que flertam com a semiótica em um nível tão intenso, geralmente tem muito potencial para desagradar para desagradar um punhado de espectadores devido a falta de uma base concreta para a narrativa bastante raquítica.

Uma Dupla Vida marcada pelo Banal

Kieslowski e seu amigo roteirista Piesiewicz trazem a história de Véronique e Weronika (ambas interpretadas por Irène Jacob). Em primeiro momento, conhecemos Weronika, uma jovem que sonha em ser cantora erudita para a orquestra sinfônica da Cracóvia, na Polônia. Em suas andanças pela cidade, se aventurando com o namorado e praticando sua música, ela acaba encontrando uma mulher que é simplesmente uma cópia fiel de si mesma.

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Essa mulher é Véronique que, infelizmente, não percebe a existência de Weronika, apesar de sempre sentir uma conexão forte e misteriosa com alguém que simplesmente desconhece. O problema é que subitamente essa conexão desaparece e Véronique passa a sentir que não deve seguir na carreira de cantora consagrada e passa a buscar desesperadamente pelo afeto humano e maior contato familiar.

Kieslowski conta a história dessas mulheres de modo bastante subjetivo, totalmente livre para a interpretação do espectador. No começo há uma incômoda confusão visual para sacarmos quem é Véronique e quem é Weronika, o que é algo proposital, sim, para o diretor reforçar a proximidade espiritual das duas, como se fossem partes iguais de uma alma dividida. O discurso central da narrativa é justamente a busca por sentido da solidão, sobre o não-estar só, já que isso é marretado constantemente pelos poucos e repetitivos diálogos existentes na obra.

A narrativa mais interessante certamente é a de Weronika pela sua personalidade mais arriscada e interessante que movimenta a narrativa. O problema é que rapidamente abandonamos seu ponto de vista para acompanharmos Véronique pelo restante da obra. O maior brilho do longa certamente está nas passagens na Polônia, elaborando uma relação curiosa sobre saúde e morte que funciona bastante como foreshadowing.

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Porém, quando mudamos para Véronique, Kieslowski perde um pouco a mão da bela poesia visual que preenchia a vida de Weronika ao criar situações e imagens simplesmente de pura gratidão contrastadas com a frieza e miséria da fotografia e cenários replicando novos tempos de instabilidade da país. O diretor usa insistentemente um filtro visual esverdeado e tons ocres que experimentou em Não Matarás que confere certo tom onírico e poético para as imagens bonitas, mas logo o recurso se torna cansativo.

Aliás, logo o filme inteiro se torna cansativo quando acompanhamos a vida de Véronique. Kieslowski é particularmente feliz em estabelecer uma relação causal entre as duas personagens, com uma evitando os erros cometidos pela outra, como se fosse uma versão aprimorada de Weronika. Porém, essa jornada de angústia até resultar na busca pelo contato humano realmente é custosa por conta da abordagem cênica realista do diretor mesmo que flerte a todo momento pelo tom onírico.

Há muitas passagens poéticas ao longo da jornada que realmente evocam o talento de Kieslowski como um diretor muito sensível, porém, até chegar nesses momentos brilhantes, o espectador é forçado a aguentar muitas banalidades conforme o diretor filma as andanças de Véronique por Paris durante sua busca pelo intangível e a compreensão superior.

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São muitos minutos nos quais observamos deslocamentos e atividades mundanas, inclusive uma sequência de escuta que, apesar de vital para a narrativa, se estende por longos minutos. O romance também não é lá bem estabelecido, mas apenas conceitual, apesar da jornada peculiar até a junção dos dois personagens que finalmente revelam uma catarse bastante óbvia e previsível para o final do terceiro ato.

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A mensagem que Kieslowski quer passar é bastante política e tem a ver com o sacrifício da Polônia como nação no decorrer de boa metade do século XX. Porém, em termos realmente concretos, é difícil ficar conquistado pelo longa devido a narrativa ser tão diluída, além da direção ter essa abordagem menos ativa, apesar da construção das belas sequências envolvendo reflexos e um show de marionetes de modo fabuloso. Há, também, uma bonita mensagem divina no final, de expiação dos pecados que permite uma interpretação bastante cristã.

De resto, há o sempre formidável trabalho de iluminação, além de Kieslowski saber capturar a beleza de Irène Jacob como ninguém. O trabalho é sempre próximo através da câmera na mão. Novamente, essa abordagem é realista, mas sempre contrastada pelo visual onírico e impalpável do filme. Um resultado significativamente único para o longa. Fora isso, a presença da trilha musical é fortíssima, obviamente, servindo de muitas maneiras como um pano poético.

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É importante mencionar também que existe um pensamento claro sobre a câmera nas abordagens com as personagens diferentes. Com Weronika, Kieslowski usa bastante o olhar subjetivo, tornando a câmera e a personagem uma só, como se fosse uma visão de uma vida simplesmente própria que era vivida e não observada. Já com Véronique, há justamente o contrário. Nunca há o uso da câmera objetiva, sempre a vemos em terceira pessoa, como se fosse um olhar de proteção e fora de risco.

Melhor em outra vida?

Kieslowski nunca foi um cineasta fácil e ao recorrer tanto na semiótica a partir de suas imagens belas e frias, ignorando a importância narrativa de uma história tão promissora, A Dupla Vida de Véronique é um longa divisivo. Talvez encontre o sentido do viver e se sinta apaixonado pela peculiaridade poética da obra, mas também é possível que ache a experiência bastante sonolenta ou um porre completo. Entre imagens bonitas, passagens elegantes e uma performance bela, acabei gostando razoavelmente do longa repleto de poesia, mas ainda suspeito que ele acabe melhor em outra vida. Talvez, com uma consciência superior.

A Dupla Vida de Véronique (La double vie de Véronique, França, Polônia, Noruega – 1991)

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Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Irène Jacob, Philippe Volter, Sandrine Dumas, Jerzy Gudejko, Lorraine Evanoff, Aleksander Bardini
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 98 minutos

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Tags: #Aleksander Bardini #Irène Jacob #Krzysztof Kieslowski #Krzysztof Piesiewicz
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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