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Catálogo

Crítica | Ace Attorney – Duelo no tribunal

Excelência na adaptação do videogame confirma, mais uma vez, versatilidade de Takashi Miike

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
24 de março de 2018 · 5 min de leitura
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Um imenso “OBJECTION!” para quem afirma não existir boas adaptações de videogames para as telonas – pelo menos no mercado oriental. Se a adaptação livre de um filme cheio de qualidades como Resident Evil: Retribuição parece não envolver, Ace Attorney reformula essa estratégia da apresentação de um mundo apostando na “fidelidade”.

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Sem fazer parte de quaisquer projetos transmídia ou de expansão de universo, o filme de Takashi Miike adapta Phoenix Wright: Ace Attorney, primeiro jogo da série que mistura adventure (passear por diversos cenários, coletar e investigar itens, conversar com personagens variados), e visual novel (a história que se desenrola em longos diálogos, quase em extensão de literatura), para um longa fiel, em primeiro lugar, ao cinema. Sendo Miike, não a um cinema convencional ou intocável, como sua extensa e irregular filmografia está aí para comprovar. Mas essa adaptação certamente figura entre suas melhores obras, ao lado de Ichi, o Assassino, Audition, A Felicidade dos Katakuris, The Bird People in China.

Uma das grandes inovações da série nos videogames foi justamente abordar o contexto do Direito em emocionantes julgamentos. No cinema, porém, esse tema não é novo, é um gênero bastante consolidado no cinema norte-americano, com filmes como 12 Homens e Uma Sentença, Anatomia de um Crime e Philadelphia. Essencialmente, Miike trabalha o filme investido no eixo desse gênero, mas da mesma forma como Speed Racer, das irmãs Wachowski, está para um filme/jogo de corrida – ou ainda mais perto do lirismo lúdico de Edgar Wright em Scott Pilgrim Contra o Mundo.

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A audácia de Miike está em sua força e capacidade de mostrar como o narrativa de um videogame pode ser tão rica e empolgante quanto a de qualquer outra arte. Aliás, a defesa do valor dos games como arte deve permanecer uma constante, vide o tipo de debate e julgamento ridículo que o senso comum repercute e autoridades continuam a endossar. A influência dessa estética mostra-se cada vez mais inescapável, inclusive no cinema tradicional – se é que seus traços não podem já ser identificados no começo dos anos 1980, com Os Selvagens da Noite e Fuga de Nova York. certamente não quando a técnica é o balde de referências ao mundo geek, mas ao buscar-se a representação da perspectiva de um jogador.

E como não ver isso em Ace Attorney, onde o tribunal parece uma mesa de RPG ou um tabuleiro de duelos de Yu-gi-oh!. As personagens caricatas, de maneira bem particular ao exagero japonês, portam-se como peças particulares de um jogo, desde os advogados até a plateia. Depois de um testemunho, por exemplo, nosso estabanado protagonista, o advogado de defesa Phoenix Wright (Hiroki Narimiya), deve apresentar seus argumentos e provas. Seja contestando escandalosamente algum trecho do testemunho ou movendo enormes hologramas pela sala do tribunal.

A computação gráfica, tanto em cenas externas como internas, funciona como elemento decisivo da própria mise en scène, que tenta, sempre que possível, replicar os ângulos da câmera no videogame – especialmente os contra-plongées para olhar os advogados (super-heróis semideuses trapalhões) ou o preenchimento da tela por uma prova, como uma foto.

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Apesar do jogo ter uma estrutura bem definida de fases (casos, com período de investigação e de tribunal), graças ao roteiro cheio de pequenos clímaces, o espectador consegue sentir o mesmo brilho da descoberta de quando joga.Não na mesma intensidade, claro, a experiência lúdica é única e inimitável. Assim como a cinematográfica. Com Ace Attorney, Miike parece demonstrar que nenhuma adaptação parece impossível. Mesmo alternando entre um tom intensamente dramático e outro livremente cômico, Miike não deixa o formalismo de sua encenação, que faz direta referência à dinâmica do jogo – que, por sua vez, já tinha muito a ver com o fluxo do cinema.

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Não bastasse todo o tesão estético que o filme inspira, vale notar a piada ácida do seu conteúdo: ver a Justiça como um jogo, em um sistema em que o tribunal também está ativamente envolvido na investigação do caso. A Justiça como um jogo, em sessões resumidas, que podem durar no máximo três dias, no intuito de resolver mais casos em menos tempo – vale a corrida da eficiência, das metas. E tudo é numerado e limitado, até as vezes que o protagonista pode errar em suas avaliações. É sim uma caricatura, mas baseada em um sistema jurídico real, o inquisitorial.

Com todas as suas qualidades, abertamente ligadas ao cinema como diversão e encantamento, Ace Attorney mostra-se não só uma das melhores adaptações dos games para o cinema, assim como um dos melhores filmes de Takashi Miike. Pensar em uma continuação pode refletir em uma fórmula repetitiva, subordinada ao frescor desse longa. Mas quem sabe? A versatilidade de Miike está sempre pronta para nos surpreender.

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Ace Attorney (Gyakuten saiban, Japão – 2012)

Direção: Takashi Miike
Roteiro: Takeharu Sakurai, Sachiko Ôguchi, baseado no videogame de Shu Takumi
Elenco: Hiroki Narimiya,Takumi Saitô, Mirei Kiritani, Akiyoshi Nakao, Shunsuke Daitô e Rei Dan
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 135 min.

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Tags: #Cinema japonês #Takashi Miike #Videogame
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