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Catálogo

Crítica | Amores Expressos – A Ascensão Excêntrica do Amor

Amores silenciosos, amores ambíguos.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
4 de maio de 2018 · 6 min de leitura
Crítica | Amores Expressos – A Ascensão Excêntrica do Amor

Mesmo já adquirindo boa experiência com duas ficções e um documentário, Wong Kar-Wai experimentaria um sucesso monumental com um dos dramas românticos mais interessantes de sua carreira: Amores Expressos. Em uma inesperada janela de exibição para o mundo, o cineasta chinês conseguiu imprimir um estilo verdadeiramente único enquanto se inspirava profundamente pela técnica de Martin Scorsese na montagem.

Apesar de ser considerado um drama, Amores Expressos é um filmes simpático e bem-humorado que tem diversos toques de doçura tão rara, além de momentos poéticos que revelam o furor criativo que Kar-Wai experimentava nessa fase que seria muitíssimo generosa para com ele a ponto de cunhar sua obra-prima incontestável com Amor à Flor da Pele.

Paixões de Momentos

Kar-Wai basicamente realiza dois filmes em um com história diametralmente opostas. A primeira delas é a mais agitada, injetando uma dose espetacular de energia no começo da obra, tornando toda a experiência realmente magnética. Nessa narrativa acompanhamos dois personagens, dois protagonistas. O policial de número 223 patrulha as ruas de Hong Kong diariamente em busca de criminosos. Dentre perseguições diversas, o homem agoniza por um amor não correspondido. Sem superar o termino de um caso amoroso, 223 passa noites em claro procurando algum sentido no viver.

Paralelamente, enquanto 223 se perde entre cumprir a Lei e sofrer em sua solidão silenciosa, conhecemos outra alma perdida nas noites agitadas da cidade: uma mulher que usa constantemente um disfarce nada sutil por conta da volumosa peruca loira. Sua aparência suspeita é apenas a porta de entrada para a escuridão de sua rotina. Envolvida com o narcotráfico, a mulher organiza viagens para transportar a droga em indianos pobres que se sujeitam ao trabalho de mulas. Porém, em um momento de desatenção, a mulher perde o grupo inteiro e também a droga que estava com eles, virando um alvo para a máfia local.

Antes de tudo, é preciso levar em conta o título bem traduzido do longa. Kar-Wai elabora essa primeira história realmente como um amor expresso. Esse segmento dura apenas pouco menos da metade da obra, mas pelo ritmo desenfreado apaixonante da montagem do diretor, parece passar voando. Isso também é auxiliado por conta da atmosfera que resgata os neo-noirs dos anos 1970, principalmente de Taxi Driver, por conta da narração over que nos permite conhecer bastante as mazelas daqueles dois personagens tão distintos.

É neste núcleo que Kar-Wai tem maior liberdade de ir e vir com sua câmera e aproveitar a troca dinâmica de cenários. O estilo cinematográfico gerado pelo efeito da câmera na mão confere um realismo orgânico raro de se ver, mais pertencente a um documentário direto do que uma ficção totalmente ensaiada. É possível notar que esse estilo repleto de imagens em ângulos inusitados está diretamente ligado na pressa das filmagens da obra que duraram apenas vinte e um dias.

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Através da história da vida do policial 223 e da moça da peruca, o cineasta explora as ruelas caóticas de Hong Kong, bem como o estilo de vida urbano muito ligado ao capitalismo e da confusão visual trazida pelos famosos neons. De certo modo, Kar-Wai afirma que as vidas solitárias se tornam menos insuportáveis com esses rituais curiosos de compra que os dois personagens passam. Com 223, o observamos em uma jornada excêntrica da compra de diversas latas de abacaxi em conserva, comida favorita da ex, que possuem a mesma data de validade. A busca pelo devorar a validade é uma vã tentativa de 223 trazer sua amada de volta, além de elaborar uma filosofia tocante sobre o prazo de vencimento sobre as próprias relações humanas.

Para ele, tudo vence. Até a existência. Já com a moça da peruca, o lirismo desaparece para a praticidade surgir, já que sua relação com o capitalismo é oposta à do policial, afinal ela utiliza dos diversos produtos disponíveis em um mundo globalizado como instrumentos facilitadores do seu trabalho nada glorioso do narcotráfico, além de se valer da exploração da miséria de um povo alheio a sua nação.

As duas jornadas individuais são tão poderosas que quando o breve encontro dos dois acontece, o efeito é um tanto banal e decepcionante, mas nada que seja um verdadeiro defeito da obra, já que o cineasta está interessado em mostrar duas rotinas que são, de certa forma, extraordinárias, para ter justamente um clímax tão banal.

Um Trânsito Inesperado

Concluído esse ato, Kar-Wai não faz muito cerimônia para trocar totalmente o núcleo narrativo – apenas utiliza a técnica do frame congelado (também inventada por Scorsese) para realizar o efeito, além de alterar o tom do filme que agora mais se aproxima de uma pequena comédia romântica do que um neo-noir como acontecia antes. Nessa história temos os constantes encontros entre um policial 663 com a garçonete chamada Faye de uma simples lanchonete local.

Aqui, o cineasta traz a imobilidade da personagem em contraste com os aparecimentos constantes do policial simples. Essa questão de Faye estar sempre aprisionada no trabalho é colocada em choque com seus sonhos expansivos de conhecer o mundo, representado então pela repetição incessante da música California Dreamin’.

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Apesar de parecer um segmento mais lento, o diretor dribla isso com elipses constantes para forçar a evolução do relacionamento dos dois que sofre uma reviravolta quando Faye toma pose de uma cópia da chave do apartamento do policial. Novamente um tratado de vidas solitárias surge, mas com uma identidade totalmente oposta e marcada pelo humor natural dos atores e das situações bizarras que o cineasta cria ao longo de toda a situação.

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Agora Kar-Wai se concentra totalmente no realismo da imagem e da fluidez dos cortes entre as ações de Faye e dos encontros com 663. Além dos ângulos curiosos de pontos de vista sempre diversos, o visual sofre mudanças radicais para abandonar a fotografia sombria e colorida de neons, além de nunca mais utilizar o recurso poético dos fotogramas borrados que são tão marcantes no começo do filme. Vale mencionar também que a trilha musical, antes agitada com temas sintetizados, se torna mais romântica com composições belas criadas com pianos e saxofones melancólicos vindos diretamente de Taxi Driver – eu avisei que Scorsese era uma influência grande aqui.

A Surpresa do Amor

Poucos longas são tão apaixonantes e excêntricos sem pender para o brega repleto de idealismos bobos, mas felizmente este é justamente o caso de Amores Expressos, uma obra realmente rara de muita qualidade. Wong Kar-Wai conduz seu filme com alma muito leve, além de uma criatividade invejável para sintetizar imagens e relacionamentos humanos com filosofias universais tangíveis a todos espectadores. Essa dramédia romântica merece ser apreciada por todos.

Em quase um quarto de século de existência, Amores Expressos prova que a arte de imensurável qualidade não tem data de validade.

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Amores Expressos (Chung Hing sam lam, Hong Kong – 1994)

Direção: Wong Kar-Wai
Roteiro: Wong Kar-Wai
Elenco: Brigitte Lin, Tony Chiu-Wai Laung, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Valeria Chow
Gênero: Drama, Romance, Crime
Duração: 102 minutos.

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Tags: #Faye Wong #Wong Kar-Wai
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Matheus Fragata
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Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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