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Crítica | Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa – O Girl Power da DC

Quando Esquadrão Suicida foi lançado em 2016, a grande aposta da DC se revelou um tiro no pé por diferentes motivos. Dentre eles, um roteiro desconjuntado, uma montagem confusa que foi fruto de executivos e empresas diferentes assumindo controle do projeto e a própria expectativa, que era gigantesca após um marketing caprichado – e, claro, o bizarro Coringa de Jared Leto. Mas havia pelo menos um elemento absolutamente certeiro naquela bagunça: a Arlequina de Margot Robbie, que se revelou divertida, carismática e perfeitamente caracterizada.

Mesmo que mal recebido, o filme gerou dinheiro e com certeza renderia mais projetos atrelados. Mas como Arlequina foi o grande destaque, a Warner Bros não foi besta e decidiu focar o próximo longa dessa franquia na figura da ex-psicóloga insana Harleen Quinzel. E dado o crescimento de Margot Robbie na indústria (2 indicações ao Oscar e uma carreira bem sucedida com sua própria produtora), a atriz teve o poder criativo e a liberdade de escolher onde veríamos Arlequina uma nova vez. O resultado foi o insano e caótico Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, um filme que pega as peças quebradas de Esquadrão Suicida para formar seu próprio e original brinquedo.

A trama segue tangencialmente os eventos do filme de 2016, revelando que Arlequina (Robbie) e o Coringa (nunca visto de forma explícita, adeus Jared Leto) terminaram seu namoro abusivo. Sem a proteção que o Palhaço do Crime lhe garantia sobre todos os outros criminosos de Gotham City, ela logo é colocada na mira do mafioso Roman Sionis (Ewan McGregor), também conhecido como Máscara Negra. Após ter um diamante valioso roubado pela jovem Cassandra Cain (Ella Jay Basco), Arlequina acaba se cruzando com as justiceiras Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) e a policial Renee Montoya (Rosie Perez), todas com motivos pessoais para enfrentar Sionis.

Peças de xadrez

De muitas formas, Aves de Rapina é um filme metalinguístico. Não apenas sobre a dependência da Arlequina em relação ao Coringa, mas da própria emancipação que a personagem de Margot Robbie passa a ter nos cinemas, se convertendo em uma figura que pode garantir seus próprios filmes isolados e franquias diversas – que é um planos da Warner, inclusive. Diante dessa proposta, o roteiro de Christina Hodson tem muito trabalho em seus minutos iniciais, que são os mais desconjuntados e apressados da narrativa: há uma sequência inicial de abertura para recontar a origem de Harleeen Quinzel, lidar com as consequências de Esquadrão Suicida e introduzir essa Gotham City radicalmente diferente pouco antes de vermos o título do filme na tela. Não foi uma boa primeira impressão, devo admitir.

Porém, à medida em que vamos entendendo o que Hodson pretende com seu texto ágil e deliberadamente não linear, a forma se torna mais bela. Claramente inspirada pela obra de Guy Ritchie e Quentin Tarantino, a estrutura vai e volta no tempo para explicar a origem de algumas personagens (o flashback da Caçadora é bem derivativo de Kill Bill) e também para justificar decisões bruscas da história – como quando Arlequina aleatoriamente invade uma delegacia, o que rende até mesmo interjeições que quebram a quarta parede para que a protagonista explique como chegou ali. De certa forma, é bem parecido com o que Deadpool fez para a Marvel/Fox em 2016.

O que impressiona no trabalho de Hodson é sua engenhosidade. A cada nova personagem introduzida, o roteiro faz um bom trabalho em revelar, através de reviravoltas e digressões, a forma como todas elas estão relacionadas ao universo de Sionis, e também como lida com temas pesados (como abuso sexual e alcoolismo) de forma correta e criativa, especialmente na relação entre Canário Negro e Arlequina, que rende diálogos incisivos e momentos de reflexão convincentes.

A revelação de Cathy Yan

Quando chegamos à direção, temos algo bem raro na DC: uma diretora estreante. Chegando no processo graças ao papel de Robbie como produtora, Cathy Yan tinha apenas um filme independente (Dead Pigs) no currículo. De frente a um blockbuster de quadrinhos, encontramos uma cineasta com estilo, ideias fortes e uma condução muito segura que equilibra o humor, a ação e o suspense de forma excepcional – reparem na escalada da cena em que Sionis recebe uma notícia ruim em seu clube, partindo da reação histérica hilária do vilão até o momento em que ele, completamente descompensado, se torna uma figura tenebrosa ao descontar sua raiva em uma mulher aleatória, garantindo um momento absolutamente desconfortável e constrangedor.

Falando da ação, Yan revela-se como alguém para ficarmos de olho. Contando com o apoio do diretor de fotografia Matthew Libatique e também da equipe de dublês chefiada por Chad Stahelski (diretor dos dois últimos capítulos de John Wick), Yan comanda alguns dos combates mais elaborados e violentos que o gênero de quadrinhos já viu. Felizmente, a diretora opta por planos bem abertos e que nunca são picotados excessivamente (a montagem da dupla Jay Cassidy e Evan Schiff é precisa e dinâmica), permitindo que o espectador confira a coreografia caprichada que conta com ossos pra fora, sangue jorrando e até acrobacias com carro – que também fazem um belo uso dos elementos diversos no design de produção de K.K. Barrett ( indicado ao Oscar por Ela), com destaque para a excelente luta em um parque de diversões cujo piso rodopia constantemente.

Passarinhas e psicopatas

Finalmente, temos um elenco majoritariamente feminino, algo que até então nunca havia acontecido em uma produção de quadrinhos. Margot Robbie já havia se provado como a Arlequina perfeita em Esquadrão Suicida, mas aqui ela tem a chance de trazer ainda mais peso e camadas para a personagem, dedicada a tentar ser uma pessoa melhor e mais independente, algo que a atriz explora bem graças à quebra da quarta parede e sua interação com a jovem Ella Jay Belasco – que mostra-se como o único ponto mais fraco entre as atrizes.

Em relação às novas heroínas, Mary Elizabeth Winstead faz um bom trabalho ao equilibrar o desejo de ser levada a sério de sua Caçadora com um senso de humor quase cartunesco ao não conseguir fazê-lo; vide a piada recorrente com seu nome. Rosie Perez surge carismática e convincente como o elo mais humano e injustiçado da história (e que “sempre fala como um tira dos anos 80”, como diz uma das personagens), mas é Jurnee Smollett-Bell que rouba o filme na pele de uma Canário Negro esperta, expressiva e que capta atenção em qualquer frame que aparece – rendendo até mesmo um número musical sensacional onde canta “It’s a Man’s Man World”.

E já mencionei sua cena assustadoramente constrangedora lá em cima, mas Ewan McGregor merece mais elogios por seu Roman Sionis. Estou ciente que é uma versão radicalmente diferente dos quadrinhos, afinal sua persona de Máscara Negra aparece apenas uma vez, dando espaço a um mafioso afetado e cheio de maneirismos que exibem uma criança mimada em pele de lobo; características que McGregor abraça ao sempre elevar a voz descontroladamente e no uso recorrente de um “eca” infantil e condescendente. Um dos trabalhos mais memoráveis de sua carreira.

Emancipado!

Aves de Rapina representa mais uma obra cheia de personalidade e estilo para a DC, que parece mais confortável em contar histórias isoladas e fechadas do que tentar replicar o modelo do universo cinematográfico. Com um roteiro esperto (ainda que desconjuntado no primeiro ato) e uma direção estrondosa, a Fantabulosa Emancipação da Arlequina garante uma experiência maluca, empolgante e – independente da opinião acerca do resultado final – única.

Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey or The Fantabulous Emancipation of one Harley Quinn), EUA – 2020

Direção: Cathy Yan
Roteiro: Christina Hodson, baseado nas personagens da DC
Elenco: Margot Robbie, Mary Elizabeth Winstead, Jurnee Smollett-Bell, Rosie Perez, Ella Jay Basco, Ewan McGregor, Chris Messina, Ali Wong
Gênero: Ação
Duração: 109 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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