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Crítica | Bando à Parte – A Rebeldia Apaixonante de Godard

Um grito exorcizado contra o cinema de estúdio.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
17 de fevereiro de 2018 · 6 min de leitura
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Crítica | Bando à Parte – A Rebeldia Apaixonante de Godard

Jean-Luc Godard é um cineasta que está sempre em movimento. O mais fascinante é que não existe uma direção predeterminada para ele. Se resolve se renovar, simplesmente o faz, sem planejar tudo com antecedência ou gerar alguma crise pessoal que seria refletida em um novo filme. De muitas maneiras, Bando à Parte é uma resposta ao cinema anterior de Godard.

Não sobre os pequenos grandes filmes que havia feito como Acossado, Uma Mulher é Uma Mulher, O Pequeno Soldado, entre outros, mas especialmente para seu flerte com o star system e studio system que resultou uma obra-prima desgostada por si mesmo: O Desprezo. Para qualquer diretor, seria natural seguir o caminho das pedras e realizar filmes com orçamentos maiores e repletos de elegância.

Mas Godard não é qualquer diretor. Livre da produção do seu luxuoso filme anterior, já iniciou Bando à Parte como a completa antítese do que havia feito um ano antes. E o resultado é simplesmente único.

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Passado Revisitado

Mesmo que Godard traga de volta diversas características de seus filmes anteriores aqui, há diferenças substanciais que marquem essa renovação de estilo do diretor. A começar, Bando à Parte é praticamente improvisado em sua totalidade. O diretor adapta livremente o romance de Dolores Hitchens, Fool’s Gold, com essa simpática história de três jovens: Odile (Anna Karina), Franz (Sami Frey) e Arthur (Claude Brasseur) que “planejam” um assalto na casa dos pais da bela e ingênua moça que compartilhou a valiosa informação de que há uma enorme quantia de dinheiro guardada em sua casa.

Godard ainda dilui a narrativa como de costume, fazendo diversas curvas para chegar ao destino final sem se preocupar em desenvolver os personagens. Visando trazer algo próximo de um film noir com os filmes de crime, ele apresenta Franz e Arthur como uma dupla fissurada por violência e bastante inspirada pelos filmes de assalto que tanto gostam de assistir.

Apesar de serem maliciosos, ambos compartilham a ingenuidade de Odile, agindo como criminosos tanto para atender o desejo inerente de adrenalina da juventude assim como resolver uma pendencia financeira com o tio criminoso de Arthur. Novamente, é bastante fácil ficar perdido nessas minucias do roteiro livre de Godard, já que temos diversas cenas desconexas focadas no envolvimento do trio em um poderoso triangulo amoroso.

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Tanto que a apresentação de Odile se dá em uma aula de inglês na qual a professora pede para que os alunos traduzam trechos de Romeu e Julieta, inferindo uma aventura apaixonante para Odile. A abordagem dela com os bandidos é bastante excêntrica, pois claramente ela é atraída pelo perigo que eles representam, da instabilidade completa, mas também teme que os dois machuquem sua família ou lhe tragam miséria.

Essa dicotomia é bem trabalhada e dividida nas figuras de Franz e Arthur, um rapaz mais introvertido contra um rapaz mais violento e impulsivo. Godard insere diversas ironias tornando os personagens reféns da própria imaturidade como a questão sobre organizar um plano para esse assalto desajustado. Negando a necessidade de reagir contra imprevistos, subestimando os donos do dinheiro, o trio passa o tempo se divertindo em bares em cenas muito apaixonantes e memoráveis que colocam Bando à Parte como um filme muito simpático.

Aliás, esse tom leve e simples entra em contraste direto com a atmosfera densa e intelectual de O Desprezo. De muitas formas, essa é uma das obras mais acessíveis de Godard para qualquer espectador. Nessa linha de condução da narrativa, Godard brinca com a descontração dos personagens através de passagens sobre “um minuto de silêncio” na qual todo o som diegético é removido por trinta e seis segundos experimentando mais uma vez com a linguagem cinematográfica, ou com a inesquecível cena de dança “Madison” que evoca toda a meiguice de Odile – cena que também inspirou a sequência de dança em Pulp Fiction, além de um recorde improvável a uma visita ao Louvre.

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Esses desvios apenas comprovam como a história do assalto é a tarefa menos importante para Godard em Bando à Parte. O diretor subverte essas convenções ao focar no lado mais humano dos personagens bastante realistas. Se trata apenas de uma jornada de bobos ingênuos que aprendem o sacrifício necessário para realizar sonhos criminosos. Há até mesmo a presença de um narrador over onisciente e onipresente para balancear melhor o intelecto dos personagens, esclarecendo alguns sentimentos que poderiam ficar fadados em uma ignorância do espectador menos atento.

Com esse rumo de improviso tão forte na obra, o mesmo ocorre com a direção de Godard, fugindo ao máximo do que havia feito em O Desprezo. Ou seja, nada de elegância e bastante desleixo. Nesse ponto é que o diretor tenta evitar realizar encenações longas com passeios de câmera muito bem estabilizados, closes e experimentação excessiva com a montagem.

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As inovações linguagem estão presentes, mas muito reduzidas, assim como as características quebras de quarta parede. Apesar de ainda dar preferencia para planos longos, Godard interpola mais a decupagem, oferecendo um visual mais fragmentado do que o de costume ao trazer diferentes planos para diálogos ou ações. Já com a câmera, basicamente realiza todo o filme com ela instável, operada na mão, sem se preocupar com a plasticidade equilibrada dos enquadramentos. O que de fato é muito mais experimentado pelo diretor aqui é o uso da profundidade de campo, além de longas sequências que acompanhamos as andanças de Franz e Arthur com o carro conversível pelas ruas de Paris – além de outros trechos totalmente avulsos como uma pequena jornada de Odile para alimentar um tigre.

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Ao fim de seu simples filme, para ridicularizar de vez a experiência controlada que teve com O Desprezo, Godard anuncia que seu próximo filme será filmado em cinemascope e technicolor, recursos que havia usado obrigatoriamente com o longa anterior.

Atos de Rebeldia

Bando à Parte é um filme rebelde e provavelmente um dos mais pessoais de Godard. O uso da história desleixada, dos improvisos e do descuido cinematográfico funcionam como um exorcismo do diretor, um grito de guerra e desespero clamando que nunca mais voltará a trabalhar nos moldes que experimentou com uma produção mais cara – e isso de fato acontece.

O verdadeiro Bando à Parte, de jovens deslocados e apaixonados pela aventura e o imprevisível, não é sobre Odile, Franz e Arthur, mas sim o Bando das produções frenéticas do jovem Jean-Luc Godard, o isolado mais criativo do Cinema.

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O Bando à Parte (Bande à part, França – 1964)

Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Dolores Hitchens
Elenco: Anna Karina, Claude Brasseur, Sami Frey, Louisa Colpeyn
Gênero: Crime, Comédia, Drama
Duração: 95 minutos

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Tags: #Anna Karina #Jean-Luc Godard #Nouvelle Vague
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Matheus Fragata
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Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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