Crítica | O Bebê de Bridget Jones
O retorno repleto de carisma e risadas de Bridget Jones.

Praticamente com quarenta anos e sem marido, namorado ou filhos, Bridget alcança o sucesso no jornalismo tornando-se diretora de um telejornal em Londres. Entre o vai e vem cotidiano, a âncora do programa, sua amiga, a convida para ir em um festival de música que ocorrerá no interior da Inglaterra. Lá ela conhece Jack, galã de meia idade com quem ela acaba indo para a cama. Porém, alguns dias depois, ela reencontra seu ex-marido e antigo amor, Mark Darcy. Depois de um papo e ligeiros coquetéis, também dorme com a paixão de outrora.
Após alguns meses, com todos os sinais de uma gravidez, Bridget se encontra novamente em um dilema tão digno do nome dela: descobrir quem é o pai de seu bebê. Até o nascimento da criança, ela terá que se decidir se reata vida amorosa conservadora e segura com Darcy ou parte para uma grande aventura imprevisível com o bonachão Jack.
Com presença ativa da autora Helen Fielding no texto do longa, é possível afirmar que as características marcantes da franquia continuam presentes – mesmo que o roteiro tenha colaboração de mais outras duas pessoas. Assim como nos outros dois filmes, o conflito principal se desenlaça em mais um triângulo amoroso com Bridget sendo disputada por outros dois homens – Hugh Grant dando a vez para Patrick Dempsey.
As maiores novidades ficam por conta do salto temporal e das mudanças na vida de Bridget, agora uma ex-gordinha e bem-sucedida. Enquanto o filme diverte contando uma história agradável como as outras, é um roteiro bastante pautado por clichês e agora, agravados por conta da história de Um Senhor Estagiário, pois aqui também há aquela intenção discussão sobre o “rejuvenescimento” do mercado de trabalho, jogando profissionais mais adultos em escanteio.
Logo, Bridget é confrontada por uma nova chefe megera e antipática. Um núcleo conflituoso bastante forçado e que não agrega, removendo tempo de tela onde a história tinha que se concentrar mais: no novo personagem Jack interpretado por Patrick Dempsey e sua relação com Mark Dary vivido novamente por Colin Firth.
A inserção de núcleos secundários de conflitos distintos talvez seja o maior problema dessa comédia romântica. Até mesmo nesse drama de sucateamento de antigos profissionais, a amiga de Bridget acaba desaparecendo do filme por um tempo relevante. Também há o mais descartável que acompanha a mãe de Bridget movendo uma campanha eleitoral em busca de um cargo de deputada. Aqui há um jogo de conflitos de gerações a respeito de morais e bons costumes um tanto deslocado para uma obra do cunho Bridget Jones, entretanto serve para inserir certa complexidade em como a gravidez inesperada de Bridget poderia afetar a campanha da mãe.
Então, ao mesmo tempo que a roteirista tenta mostrar que Bridget evoluiu, também cria situações que a jogo diretamente para as enrascadas do primeiro filme. Há quem goste, porém, em termos artísticos, trata-se de uma reciclagem levemente modernizada, adaptada para os tempos de hoje.
Jogando a relevância dos conflitos secundários para trás, o longa oferece o sempre divertido conflito da disputa masculina por Bridget. A novidade é que agora os conflitos são muito mais diretos já que Mark e Jack convivem com a protagonista durante boa parte da gravidez rendendo ótimos momentos – todas as cenas com a ginecologista são ótimas. Nisso, o longa é excelente, trazendo o humor típico da franquia com o trio de personagens interessantes.
Sharon Maguire retorna para dirigir o capítulo final da trilogia – ela é a responsável por O Diário de Bridget Jones. Mesmo estando ociosa por tanto tempo, Maguire consegue conferir o feeling e a atmosfera genuína do início dos anos 2000 para os enquadramentos desse novo filme. Se valendo de uma estrutura tecnológica e de produção maiores, o visual do longa ganha tons mais interessantes assim como a movimentação de câmera. Porém, tudo muito regrado para pertencer àquela unidade visual característica das comédias românticas dos anos 1990 e 2000.
Maguire até mesmo arrisca um plano sequência fácil durante o festival musical e arranha simbologias fortes se valendo de inspiração de O Império dos Sentidos durante o clímax do filme quando Darcy caminha em sentido contrário a uma manifestação denotando todo o cavalheirismo e conservadorismo do personagem. É algo bacana e corajoso de se ver em obras desse gênero. De resto, a diretor ainda continua muito feliz no uso inteligente da trilha musical e no uso correto da montagem em favor da comédia.
Impossível não citar o trabalho divertido que Zellweger construiu ao longo de tantos anos. Aqui, há certa mudança substancial na psique da personagem e ela consegue transmitir isso com maturidade enquanto em diversos momentos repete os maneirismos e nervosismos atrapalhados que marcaram a personagem quando mais jovem. É um trabalho de resgate impressionante que deixará os fãs da franquia tranquilos em ver como Renée preservou bem as características de Bridget.
O Bebê de Bridget Jones tem os mesmos defeitinhos dos filmes anteriores – um tanto previsível e clichê, porém não acho que isso seja lá grande demérito de uma obra tão modesta e despretensiosa quanto é essa querida franquia. Este terceiro longa marca um retorno muito amistoso e divertido capaz de fazer o mais emburrado espectador sorrir em algum momento. As piadas continuam engraçadas, o slapstick ainda é eficiente e os diálogos são mais graciosos. Com certeza qualquer fã sairá satisfeito, pois é mais um Bridget Jones que transborda do carisma tão único desses filmes.