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Crítica | Busca Frenética – Polanski travestido de Hitchcock

Ritmo de sono.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
16 de fevereiro de 2018 · 6 min de leitura
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Vez ou outra, diretores decidem dar passos maiores que a perna, resultando em filmes medíocres ou simplesmente fora de tom. Isso já aconteceu com Steven Spielberg, Robert Zemeckis, Woody Allen, Martin Scorsese, Guillermo del Toro, entre diversos outros grandes nomes. Até mesmo Alfred Hitchcock já fez algumas bananadas ao se aventurar em obras de gêneros desconhecidos por ele.

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Em Busca Frenética, foi a grande vez de Roman Polanski tomar uma grande invertida cinematográfica. Tentando criar um misto de ação com thriller, claramente inspirado em O Homem que Sabia Demais, Polanski mete os pés pelas mãos diversas vezes, apesar do resultado final ser razoável, mas nada memorável para um cineasta tão elogiado (e condenado).

Um Busca Monótona

Polanski realmente queria dizer algo com Busca Frenética, afinal ele mesmo escreveu a história. Apesar de almejar criar um thriller de ação, acabou criando um thriller de suspense, um dos medíocres inclusive. Na história, acompanhamos a viagem do casal Walker a Paris para uma convenção de Medicina. O respeitado doutor Richard Walker (interpretado competentemente por Harrison Ford) dará uma palestra para diversas pessoas, além da viagem à cidade mais romântica do mundo ser uma excelente oportunidade para apimentar um pouco seu relacionamento com Sondra, sua esposa.

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Porém, o que seria uma viagem tranquila, rapidamente muda de ares quando Sondra some misteriosamente no hotel sem deixar qualquer rastro. Preocupado, Richard começa a procurar por sua esposa nos arredores. Sem saber o idioma e sem poder contar com a ajuda policial local, o bom doutor terá que conhecer o submundo parisiense para encontrar alguém que possa lhe ajudar.

Apesar do mistério ser bom e bastante intrigante, Polanski falha muito para conferir alguma personalidade a esses personagens. Richard é apenas Harrison Ford fazendo o que sabe fazer de melhor e Sondra é apenas um macguffin completo para movimentar a trama que envolve um segundo macguffin. Sabemos que os dois tem filhos que nunca sabemos realmente quem são. Com esse ponto inicial desinteressante para engajar o espectador, Polanski sofre ainda mais ao trabalhar a narrativa no primeiro ato – sendo que esse é até mesmo o melhor dos três.

Os problemas de Busca Frenética são bem básicos, apesar de Polanski tentar burocratizar o mistério. Nessa busca inicial, há sempre aquela situação clichê, mas obrigatória em filmes assim: a solicitação de ajuda dos poderes locais que estão pouco se lixando para os turistas. Feito isso, o mistério começa a ser decifrado quando Richard decide abrir a mala que sua mulher pegou por engano no aeroporto suspeitando que ela contenha a resposta para o seu sumiço – aqui já acontece um dos elementos mais falhos na lógica dos responsáveis pelo sumiço da mulher, apesar de Polanski brincar com isso posteriormente.

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Em questão de pouco tempo, Richard encontra as pistas que o levam até alguém que saiba do paradeiro da esposa e rapidamente o mistério é resolvido, assim como a motivação dos antagonistas em atazanarem a vida do personagem. O problema é que Polanski já revelou todas as cartas da história na metade do segundo ato, com mais uma hora inteira de exibição. Mesmo apresentando uma nova personagem para auxiliar Richard, elaborando porcamente algum interesse romântico devido a total falta de coerência na moça, a hora final é simplesmente uma bela chatice.

Para estender ainda mais um filme superficial, o roteirista insiste em inserir reviravoltas bobas para dificultar a resolução do conflito. Com um ritmo mais elegante, não teria problema, mas como nada acontece, além do previsto, Polanski simplesmente dá um tiro fatal no final de seu filme. Fora isso, ainda há o uso recorrente de figuras misteriosas ou de personagens secundários totalmente redundantes. É apenas uma grande piada de Polanski, um criminoso confesso, para dizer o quanto que as forças policiais são idiotas.

Somente o primeiro ato se salva e algumas boas piadas inseridas aqui e ali.

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O Hitchcock Deprimido

O que Polanski sabe fazer é criar clima e suspense. Realmente, é um diretor que saca muito bem de encenação e timing. Não é por menos que ele seja tão conhecido pela sua obra-prima, O Bebê de Rosemary. Apesar do roteiro trazer uma história tão… razoável, a direção de Polanski consegue transformar a experiência de assistir a Busca Frenética em algo interessante, mesmo que tudo fique um tédio completo no terceiro ato.

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Mesmo que ele aposte em cenas de situações claramente estúpidas como quando Richard acaba comprando cocaína por acidente, Polanski traz um retrato muito raro de Paris: o pessimista. Trazendo um domínio geográfico muito impressionante da cidade, o diretor cria uma atmosfera opressiva e completamente indiferente aos problemas alheios dos outros. Parisiense de nascença, Polanski sabe muito bem como capturar os lados mais depressivos da cidade, de uma beleza melancólica de abandono e frio. 

A atmosfera de Busca Frenética é realmente única por esse estilo sóbrio e escuro. Até mesmo em cenários, há um cuidado artístico para conferir mais personalidade aos personagens que vivem em outra realidade social distinta do conforto que o protagonista vive.

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Com muita câmera na mão, há grande realismo e desespero na linguagem visual do filme muito concentrada na figura do protagonista. Raramente temos um abandono do seu ponto de vista, o que acaba limitando Polanski ao construir planos mais abertos para mostrar diferentes cantos da cidade. Essas imagens acompanhadas à ótima trilha de Ennio Morricone resultam em um efeito único.

O que talvez interfira negativamente no trabalho de Polanski seja as constantes tentativas de emular o estilo de Hithcock – algo nada fácil. De fato, algumas vezes, a réplica cai como uma luva ao usar a profundidade de campo de modo tão inteligente. O mais marcante deles, é quadro que mostra Richard no banho enquanto Sondra misteriosamente sai do quarto para depois sua mala aberta ser arrastada consigo. Com o uso muito sutil do zoom in, Polanski gera um efeito arrebatador de estranheza e medo.

Os problemas surgem quando tenta, digamos, atualizar Hitchcock. Isso ocorre nas trapalhadas sequências de ação ou nas inusitadas, focadas no exotismo de uma casa noturna árabe na qual novamente Polanski repete situações e ainda organiza uma dança totalmente esquisita de Richard com Michelle. Aliás, é curioso o fato que Polanski tenta trazer tanto de Hitchcock para a estética do filme e consiga ignorar completamente sua influência na montagem – área da qual Hitchcock sempre apostava suas fichas. Não existe um bom momento ou uso mais inteligente da montagem em Busca Frenética, apenas o básico do básico.

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Desequilíbrio Frenético

Longe de ser ruim, mas também igualmente distante de ser ótimo, Busca Frenética é apenas um thriller razoável. É sabido que Polanski gosta muito de brincar com clichês e gêneros para surpreender sua plateia e entregar algo inesperado e cheio de personalidade. Talvez se estivesse menos obcecado em emular quem não é, esse filme fosse melhor, pois Polanski trai algumas de suas marcar autorais para entregar um filme redondo, mas esburacado.

A tragédia do homem comum em um cenário hostil sempre foi cativante. O mesmo acontece aqui, mas há diversas escolhas ruins de Polanski em estender a burocracia de seu filme totalmente imprevisível. É como dizem: até os grandes caem.

Busca Frenética (Frantic, EUA, França – 1988)

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Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach
Elenco: Harrison Ford, Betty Buckley, Emmanuelle Seigner
Gênero: Suspense, Thriller
Duração: 117 minutos.

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Tags: #Betty Buckley #Emmanuelle Seigner #Harrison Ford #Roman Polanski
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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