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É impressionante ver como um filme feito hoje ainda é capaz de se enquadrar no âmbito de ser tão ruim que é bom. E de certa forma até se tornar realmente uma lição inspiradora, de como você nunca deve realizar uma premissa tão sem pé nem cabeça que com certeza não passou por nenhuma revisão de roteiro e com uma construção que aparenta tentar ser original e até experimentalista a todo o instante, e apenas acaba parecendo ser um trabalho completamente amador.

Mas é triste dizer isso, ainda mais de alguém como Steven Knight cujo trabalho como roteirista (Senhores do Crime, Aliados) se mostrou bem competente, e após sua estreia na direção com o ok Redenção e prosseguido com o fantástico Locke, com certeza poderíamos esperar uma melhora ainda maior com sua terceira investida na cadeira de direção com Calmaria que prometia ser esse thriller Neo-Noir moderno com um elenco estelar, mas que acaba apenas sendo uma verdadeira recaída de tudo que pode ser esperado de algo minimamente competente.

A trama se passa em Plymouth Island, uma suposta ilha tropical onde Baker Dill (Matthew McConaughey) trabalha como um capitão de barcos de pesca que lidera perigosas excursões na sua caça contra um misterioso grande peixe. Mas seu cotidiano mundano é logo interrompido quando sua ex-esposa Karen (Anne Hathaway) aparece em Plymouth com um pedido desesperado de ajuda. Implorando a Dill para salvá-la – e o filho de ambos – de seu violento marido Frank Zariakas (Jason Clarke), planejando para que Dill o leve para o mar em uma excursão de pesca apenas para jogá-lo para aos tubarões e deixá-lo para morrer. Mas a reaparição de Karen puxa Dill de volta em uma vida que ele tentou esquecer por muito tempo, e agora internamente luta para decidir o que é o certo e o errado, enquanto sente que o mundo onde habita é mergulhado em uma nova realidade que pode não ser tudo o que parece ser.

O que parece ser a trama com potencial de ser um thriller que poderia querer exigir a atenção do seu público para uma experiência de mistério e análise, na verdade é bem mais simples em execução sobre o que Calmaria realmente é ou o que Knight gostaria de contar através do filme, mas com o resultado que com certeza o desapontou. Pois o filme é exatamente o que ele a primeira vista aparenta ser, um thriller estranho, mal montado e com personagens de personalidade um pouquinho peculiares.

Com muito mal planejadas passagens devotadas a criar a base do mistério que percorre o filme, mas que acaba apenas deixando tudo ainda mais confuso que nem um nó em saco plástico que você não consegue desenrolar e você se estressa querendo só rasgar tudo logo para abrir, como as estranhas visões do passado de Dill onde você não sabe se ele é o jovem menino ou o pai dele, ou se ele está vivo ou não, ou porquê a voz do rádio do carro estranhamente fala o objetivo principal de Dill em voz alta que é caçar o peixe, ou quem raio é esse baixinho de terno que aparece em cena de cinco a cinco minutos querendo falar com Dill.

Ou o principal e risório de tudo, como é que toda a população da ilha parece saber que Karen é espancada pelo marido e Dill precisa ajuda-la, cuja a única desculpa dada pelo roteiro é que “em Plymouth todos sabem de tudo”. Isso mesmo, deem uma razão digna de uma trama de novela. Aliás, o que não falta aqui são fatores que poderiam fazer desse filme uma trama perfeita de uma novela da Globo, e cuja a decapagem de ser um filme Noir foi uma desculpa de estilo.

Apenas reparem nas semelhanças gritantes, o astro bonitão escondido em um lugar paradisíaco exibindo seus músculos aquáticos, fugindo de um passado que volta à lhe assombrar na forma da antiga esposa e mãe de seu filho à muito não visto, junto do novo marido babacão ricaço cruzando o cúmulo do caricato. Sem contar o fato de que o filme quase parece ser um remake MUITO mal feito de Pacto de Sangue de Billy Wilder com uma trama um pouco similar à Calmaria, a femne fatale convence o protagonista a matar o marido etc, mas com motivações (e conclusões) divergentes claro.

Tudo que alguns poderiam dizer fazer parte de um “significado maior” a se prestar atenção por debaixo do que o filme deixa a aparecer, mas quando o que tem a revelar consegue fazer sentido algum e apenas soar nem pretensioso ou original, somente bobo.

Significado Oco

Há decisões podem que podem se dizer ousadas na busca de Knight de se fazer algo original mas que são apresentadas e desenvolvidas de forma atrapalhada e sem nexo, seja a trilha sonora de Benjamin Wallfisch que parece ter sido feita para um blockbuster de ação quando o filme é exatamente o que seu título sugere (até sua versão original – Serenity), uma verdadeira calmaria que nunca se apressa, ou sem falar da montagem ridiculamente picotada que totalmente se desperdiça da bela fotografia de Jess Hall que faz o filme parecer uma bela propaganda de férias paradisíacas.

Sem falar do roteiro em si que realmente se leva à sério em seu tom e decisões narrativas quanto à sua trama que resulta em tudo soar mesmo como algo idiota, não importa quão ambicioso fossem as intenções que Knight não soube conduzir nada bem sobre o que a suposta crise existencial que o personagem de Dill começa a enfrentar frente à tramóia que Karen lhe envolve, e o como isso se conecta com o filho de ambos.

Deixando tudo entre ser ligeiramente subtendido no início, para totalmente expositivo do meio para o fim quando suas reviravoltas e revelações começarem à acontecer. Com tudo de estranho e bizarro do filme finalmente chegando à uma espécie de explicação, mas que se resume à uma revelação da mais estapafúrdia possível, que quase parece se inspirar em um estilo de trama que Christopher Nolan faria em filmes do tipo A Origem ou O Grande Truque, mas que o próprio Nolan iria olhar pra esse filme e dizer: “o quê que você anda injetando na veia Knight? Sai dessa mano!”.

O mesmo poderia ser dito para McConaughey, pois como raio um ator desse calibre vem escolhendo fazer parte de filmes tão mequetrefes assim. Parece que o buraco de minhoca em Interestelar levou em bora a consciência que ele havia arranjado de escolher fazer parte de ótimos filmes, mas que aliás não está nada ruim no lado qualitativo de atuação, só o fraco personagem com péssimos diálogos que torna tudo um tremendo desperdício do ator, ou atores de um elenco mais do que formidável.

Mas para não deixar tudo aqui soar como uma listagem de depreciação, o filme até consegue levantar duas potenciais ideias sobre qual o objetivo principal dele ser feito, além do fato mais provável de ter sido um tremendo tiro no pé de Steven Knight. Se foi talvez mesmo uma genuína tentativa de fazer esse conto existencial de um homem em dúvida sobre si e o mundo em que habita, e sua conexão com seu filho que parece atravessar a própria realidade.

Ao mesmo tempo que tenta fazer uma mistureba de elementos de filme Noir, thriller de mistério, drama erótico só que sem nudez e até ficção científica da mais lúdica. Ou se o filme foi mesmo feito com o propósito de ser um forte concorrente à The Room de Tommy Wiseau em ser a obra-prima dos filmes tão ruim que é bom. Com certeza passou bem perto nessa segunda tentativa!

Calmaria (Serenity, EUA – 2019)

Direção: Steven Knight
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Jessica Rothe, Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Diane Lane, Jason Clarke, Djimon Hounsou, Jeremy Strong
Gênero: Drama, Mistério, Thriller, Ficção Científica
Duração: 106 min

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