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Crítica | Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível – Atirando para Todos os Lados

Quem não conhece as incríveis aventuras do ursinho mais fofo da literatura e do cinema? O Ursinho Pooh, ainda que pertença a gerações um tanto quanto antigas, tem seu rosto muito familiar e já foi repaginado inúmeras vezes para o crescente público apaixonado por histórias comoventes, infanto-juvenis e de superação de obstáculos. Logo, levando em conta a constante propagação em live-action dos clássicos da Disney, não é surpresa que os estúdios tenham mergulhado mais uma vez nesse clássico universo para trazê-los às telonas de uma forma já vista em, por exemplo, Mogli – O Menino Lobo: o hibridismo entre animação e realidade.

Em 2017, uma tentativa de dramatizar todo o escopo acerca dos personagens da Floresta dos Cem Acres havia chegado ao expoente máximo da indústria do entretenimento com a releitura um tanto quanto excessiva em seu melodrama em Adeus, Christopher Robin, trazendo Domnhall Gleeson e Margot Robbie. Entretanto, ao contrário do que poderíamos imaginar, a história não focava exatamente nos animais antropomorfizados, mas sim na vida do criador A.A. Milne, que se respaldou no próprio filho para vender suas histórias e acabou abrindo um abismo psicossocial em sua família que culminou na morte pré-matura de seu único legado. Ainda que baseado em fatos reais com um quê de ficção, o que poderia ter se tornado uma investida interessante e suposta base para uma continuação futura caiu no esquecimento – e sequer chegou ao Brasil.

O marketing de Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível prometia mudar isso e colocar Pooh, Leitão, Tigrão, Ió e todos as outras personas de volta à tona, incluindo o personagem-título a ser interpretado pelo sempre carismático Ewan McGregor. Mas o que esperar desse “reencontro”? Afinal, a história gira em torno de um jovem Christopher que mergulha de cabeça na vida real, forçado a estudar em um austero internato, obrigado a amadurecer com a morte prematura do pai e logo depois abandonando sua infância perdida ao se mudar para Londres, casar-se, constituir família, lutar na II Guerra Mundial e então viver sua vida como um corretor de juros numa grande empresa de malas de viagem, entregando-se total e apenas ao laboro constante.

Enquanto isso, numa narrativa paralela, Pooh (Jim Cummings) percebe que a Floresta está acometida por uma estranha névoa que a transforma num cenário amedrontador – e todos os dias caminha até a conhecida árvore, esperando que seu melhor amigo retorne. Essa constância se mantém até que, repentinamente, o urso dá conta de que seus amigos sumiram, levando-o a tomar coragem para cruzar a “fronteira entre mundos” e parar na cidade grande, onde, por obra de destino, os dois se cruzam, cada qual com seus próprios obstáculos. O primeiro momento entre Pooh e Christopher é cômico e nada além de fofo, e começa a dar outro tom para uma insossa trama que esperançosamente será varrida para debaixo do tapete.

Entretanto, não é muito bem isso o que acontece: o diretor Marc Forster, em conjunto com um time formado de três roteiristas, não abandona em nenhum momento as raízes melodramáticas que insiste em enfiar onde for possível, tornando a obra maçante em diversos pontos. Talvez ele tenha puxado algumas referências desnecessárias de construção cênica de sua obra-prima, A Última Ceia, ou até mesmo de outra tragicomédia interessante, porém falha – Em Busca da Terra do Nunca. As investidas técnicas com a câmera são próprios de seus macetes fílmicos, incluindo os momentos em que um personagem mais velho reencontra-se em uma situação totalmente diferente da inicial com um bem mais jovem, naturalmente uma criança e, no caso, sua filha Madeline (Bronte Carmichael), para resolverem seus problemas. Mesmo assim, a brusca quebra de ritmo entre os múltiplos atos é incômoda ao extremo e parece não buscar o apoio de um público-alvo certeiro.

Apesar disso, alguns aspectos artísticos são inegáveis, a começar pela direção de arte. O fotógrafo Matthias Koenigswieser e a designer Jennifer Williams fazem um trabalho incrível tanto na atmosfera urbana quanto na selvagem, optando por elementos expressionistas que conversem relativamente com os espectadores mais jovens. As árvores retorcidas da Floresta dos Cem Acres antes da chegada de Christopher Robin, tomadas por uma luz difusa e pela névoa envolvente e assustadora, entram em contraste com a iluminação propositalmente asséptica de Londres, ambas encontrando uma convergência no antigo chalé do protagonista – cujas delineações são realizadas com mais afinco nas presença de Madeline e da esposa Evelyn (Hayley Atwell).

O filme não sabe o que quer – e nem parece se preocupar em achar um caminho conciso. Mesmo com a adorabilidade de seus personagens animados, incluindo a melancolia excessiva de Ió (Brad Garrett), o medo de Leitão (Nick Mohammed) e a irreverência cômica e aplaudível de Tigrão (também dublado por Cummings), o qual de longe rouba a cena. A inocência de Pooh por vezes é ofuscada pela química dos outros coadjuvantes, principalmente quando todos se juntam à garota para tentar salvar uma das maiores apresentações de trabalho do pai e embarcam numa jornada que definitivamente poderia ser mais explorada.

Christopher Robin – Um Reencontro Inesquecível é muito irregular – irregular até demais para ser aproveitado tanto pelos adultos, no tocante à parte dramática, quanto pelas crianças, em relação ao hibridismo entre live-action e animação. Mas não precisamos jogar tudo fora: algumas sequências são ótimas e, no final das contas, a Disney consegue passar mais uma vez uma mensagem fofa, ainda que facilmente esquecida.

Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível (Christopher Robin, EUA – 2018)

Direção: Marc Forster
Roteiro: Alex Ross Perry, Tom McCarthy, Allison Schroeder, baseado nos personagens de A.A. Milne
Elenco: Ewan McGregor, Hayley Atwell, Bronte Carmichael, Mark Gatiss, Jim Cummings, Brad Garrett, Nick Mohammed, Peter Capaldi, Sophie Okonedo
Gênero: Família, Drama
Duração: 104 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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