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Crítica | Cinquenta Tons de Liberdade – Preto no Branco

Um final previsível para uma trilogia fracassada.

Thiago Nolla
Thiago Nolla Redação
7 de fevereiro de 2018 · 6 min de leitura
Crítica | Cinquenta Tons de Liberdade – Preto no Branco
Universal

É incrível como uma fanfic criada a partir da saga Crepúsculo alcançou a magnitude que hoje carrega. A trilogia Cinquenta Tons de Cinza, assinada originalmente por E.L. James, talvez não encante exatamente os olhos daqueles apaixonados por uma história de amor mais clássica, mas sem dúvida teve a capacidade de chocar o mundo com sua escrita sensual e que prezava pelos inúmeros fetiches que as pessoas têm consigo e que preferem esconder dos olhos mais conservadores da sociedade. De forma analítica, essa não é uma literatura realmente boa, e as coisas pioram um pouco mais quando resolve-se colocá-la das telonas – afinal, uma coisa é certa: se o material original não é bom, por assim dizer, é bem difícil que sua releitura audiovisual tenha alguma centelha de esperança.

Depois de dois longas-metragens e muitas complicações, finalmente somos apresentados à nem tão aguardada conclusão da franquia. Em Cinquenta Tons de Liberdade, Anastasia (Dakota Johnson) e Christian (Jamie Dornan), depois de enfrentarem as barreiras do preconceito e se apaixonarem perdidamente enquanto perseguidos por perigosos e sedutores fantasmas do passado. Logo, não é nenhuma surpresa que o casal procure por uma paz que nunca realmente lhes foi concedida usando e abusando de todos os fatores que os tornam perfeitos um para o outro – incluindo a lascívia e a clara inclinação para a volúpia. Mais uma vez, o paraíso é ameaçado por uma força externa e perigosa, no caso com o retorno do ex-chefe de Ana, Jack Hyde (Eric Johnson) e suas tentativas de recuperar sua vida e sua reputação de volta.

O principal problema da narrativa é justamente não utilizar a premissa que tem como base: sabemos que este tipo de vertente criativa preza muito pelo explícito – afinal, trata-se de um romance erótico com cenas que prezam por uma atmosfera essencialmente sexy e que não abre margens para o desenvolvimento de outras subtramas. Também é previsível que, seguindo o padrão das iterações anteriores, essas sequências entre o casal ocorram dentro do Quarto Vermelho, um microcosmos à parte do mundo real que é adornado por fortes e vibrantes tons quentes mesclados com a neutralidade do preto e do marrom, no qual podem usufruir de suas fantasias mais obscenas e perigosas.

Mas e quanto ao restante da trama de Cinquenta Tons de Liberdade? Focar apenas nos momentos íntimos do casal Grey não é uma opção: faz-se necessário buscar alguma complexidade para esses personagens, cujo sucesso nunca é alcançado pelo fato de não se saber em que direção seguir. O primeiro longa pende mais para uma comédia não proposital; o segundo finca-se nas raízes das novelas mexicanas, com momentos tão risíveis quanto extremamente melodramáticos; e esse novo funciona como uma mixórdia desequilibrada de diálogos mal construídos, cenas de ação picotadas e um desfecho doloroso e ruim.

Niall Leonard retorna mais uma vez como roteirista e mantém-se em um beco sem saída com tantos personagens secundários que surgem e desaparecem sem realmente causa impacto. Uma delas emerge no rosto de Gia Matteo (Arielle Kebbel), arquiteta responsável por transformar um antiquado casarão no novo lar onírico do recém-casado duo: desde sua primeira aparição, sabemos que ela tem uma queda por Christian e isso chama a atenção de Ana, a qual responde-lhe com a mesma moeda em um dos momentos mais envolventes do filme – e já digo que esses são bem escassos e quase imperceptíveis. Apesar de ser mencionada mais algumas vezes, ela simplesmente é varrida para debaixo do tapete quando poderia ser introduzida em outra trama secundária, talvez como escape cômico ou obstáculo dramático para o amadurecimento dos Grey em sua configuração marital.

Mas analisar cada um desses aspectos é pedir muito para um longa que não se preocupa com detalhes ou com profundidade. Como supracitado, Hyde volta em um arco de vingança que na verdade é extremamente engraçado por ser bizarro: primeiro, ele os persegue em um SUV azul-escura através das estradas e das ruas de Seattle, cuja tensão tenta ser reafirmada por uma montagem picotada e frenética e que, eventualmente, não causa nada além de desconforto sensorial – cada maldito frame completa o um segundo de duração com muita dificuldade. Segundo, ele invade de algum jeito o apartamento de Anastasia e Christian, conseguindo o que quer por alguns segundos antes de ser ridiculamente atacado por uma das guarda-costas da protagonista, cena que dá margem para uma das maiores piadas do filme que envolve um diálogo sobre cordas.

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De qualquer modo, Hyde não tem um pingo de motivação real, valendo-se de aspectos definitivamente não condizentes com a atmosfera que é construída e que se valem de conclusões no estilo deus ex machina – utilizando-se de uma backstory de Christian que remonta ao tempo em que ambos estavam no mesmo orfanato e que “não foi justo ele ter sido escolhido em meu lugar”. Basicamente uma supérflua subtrama de méritos, vantagens e injustiças que nunca vê de forma sólida a luz do dia, mantendo-se em uma coberta de boas ideias desperdiçadas ou descartadas em prol de algo mais simplório.

Não podemos tirar a ambição do longa em expandir suas possibilidades para todos os âmbitos. Com a chegada do terceiro ato, Leonard se recorda de que os antagonistas da trama devem ter o seu breve momento de glória, arquitetando às pressas uma cena de sequestro, perseguição e ação que nos deixa num estado de letargia e confusão plenos. Não há necessidade para tudo aquilo, e Foley não se permite nem ao menos brincar com alguns movimentos e enquadramentos de câmera para resgatar o mínimo possível de obras do gênero: ele restringe-se ao monótono jogo do campo-contracampo, mostrando cada uma das reações e respostas dos personagens seguindo o tempo dos diálogos.

Cinquenta Tons de Liberdade é algo esperado. Não ousa, não compromete a “integridade” da franquia multimilionária e felizmente põe um ponto final em uma saga com uma carga de envolvimento e dramaticidade tão forte quanto os livros originais – ou seja, inexistente.

Cinquenta Tons de Liberdade (Fifty Shades Freed, EUA – 2018)
Direção: 
James Foley

Roteiro: Niall Leonard, baseado nos romances de E.L. James
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Eloise Mumford, Rita Ora, Luke Grimes, Victor Rasuk, Max Martini, Jennifer Ehle, Arielle Kebbel
Gênero: Drama, Romance Erótico
Duração: 105 min

Tags: #Arielle Kebbel #Cinquenta Tons de Liberdade #Dakota Johnson #E. L. James #Eloise Mumford #Eric Johnson #James Foley #Jamie Dornan #Jennifer Ehle #Luke Grimes #Max Martini #Niall Leonard #Rita Ora #Victor Rasuk
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Thiago Nolla
Escrito por

Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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