Crítica | Coração Selvagem não apela ao sentimentalismo para emocionar o espectador
No final, Coração Selvagem é um bom filme e, acima de tudo, uma boa sessão de cinema na tela grande.
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Coração Selvagem é um drama de aventura, sobrevivência e individualismo discretamente celebrado. A trama acompanha basicamente um único protagonista, vivido por Brad Pitt, ao lado de poucos outros personagens humanos e de um cachorro pastor extremamente expressivo e capaz de despertar rapidamente a afeição do espectador.
O filme é emocional, mas não sentimental. Essa diferença é importante. Em nenhum momento ele força a relação entre o homem e o cachorro para produzir uma emoção maior do que aquela que a própria história já oferece. Não há exagero na construção desse vínculo, nem situações criadas artificialmente para provocar comoção. A relação simplesmente se revela ao longo da narrativa, e justamente por isso funciona tão bem. Outro mérito está na duração. É um filme curto, que se desenvolve em um único fôlego, sem prolongamentos desnecessários e que também se beneficia enormemente das paisagens do Alasca durante a primavera, que são espetaculares e contribuem de maneira muito forte para a experiência.
Na trama, James Belmont (Brad Pitt, carismático como sempre) é um boina verde aposentado que se aventura naquele território inabitado acompanhado apenas pelo cão Odin, que também trabalhava na guerra. Ambos carregam traumas da época da ativa e precisam usar suas habilidades de sobrevivência quando um acidente com o avião pilotado por Belmont cai e os dois se veem totalmente sozinhos, ameaçados por lobos selvagens numa fuga dificultada pelo estado de saúde do homem.
A montagem não força o ritmo com picotamento excessivo, acompanhando esse registro mais contemplativo e a relação do personagem com a natureza. Nesse sentido, Coração Selvagem lembra outros filmes que trabalham, de diferentes maneiras, a relação entre o homem e o ambiente natural. É possível pensar em O Náufrago, de Robert Zemeckis, com Tom Hanks; em Até o Fim, dirigido por J.C.Chandor com Robert Redford; em O Regresso, de Alejandro Iñárritu, com Leonardo DiCaprio; e também em Mais Forte que a Vingança, de Sydney Pollack, novamente com Robert Redford. São filmes diferentes entre si (e nenhum deles supera Amargo Pesadelo, de 1972, provavelmente o filme definitivo dentro do subgênero, mas que explora a relação de um grupo, e não do indivíduo), mas existe uma aproximação importante: todos exploram, de alguma maneira, o indivíduo solitário diante da natureza e dos desafios que ela impõe.
É justamente a partir desse aspecto que aparece a principal ressalva a Coração Selvagem. O filme começa adotando um registro bastante realista. O andamento das situações, a encenação e a maneira como o protagonista enfrenta aquilo que está ao seu redor estabelecem inicialmente um determinado termo formal. Tudo parece apontar para uma experiência de sobrevivência tratada com realismo.
Em determinado momento, porém, o filme abandona parcialmente esse caminho. A abordagem se torna mais fantasiosa e espetacular, com maior presença de efeitos visuais, composição e coreografia nas cenas de ação. Essa mudança acaba distorcendo um pouco a experiência.
O filme poderia funcionar muito bem mantendo o mesmo registro realista do início ao fim. No entanto, em determinado ponto, parece surgir a necessidade de oferecer algo mais “espetacular”, com maior encenação e mais coreografia. O resultado é uma certa irregularidade formal.
Essa irregularidade aparece também em outro aspecto: o filme é, em alguns momentos, excessivamente explicativo. Alguns flashbacks, por exemplo, parecem desnecessários. As situações poderiam ser compreendidas pelo espectador sem essas interrupções ou explicações adicionais. Isso contribui para a sensação de que o filme não sustenta até o final o mesmo termo que havia estabelecido no começo.
A impressão é de que a direção de David Ayer fica insegura diante da possibilidade de não estar oferecendo “espetáculo” suficiente. E então surgem mais efeitos visuais e uma coreografia de ação mais elaborada. Mas isso não era necessário. O filme já funcionava muito bem naquele registro realista do homem e do cachorro enfrentando a natureza e seus desafios.
Essa mudança, entretanto, prejudica pouco a experiência geral. Coração Selvagem continua sendo um filme fácil de gostar. É difícil imaginar que grande parte do público termine a sessão simplesmente rejeitando o filme. Ele possui uma relação central muito bem construída entre o homem e o cachorro e, principalmente, não exagera no sentimentalismo. Esse equilíbrio é um de seus méritos. A relação está presente, é importante para a história e é capaz de produzir emoção, mas sem recorrer a excessos para manipular o espectador.
Por isso, mesmo com suas irregularidades, Coração Selvagem alcança uma parcela muito grande do público. O problema está menos na capacidade de o filme funcionar do que em seu rigor formal. A direção poderia ser mais rigorosa na escolha e na manutenção de seu registro. Seria possível, por exemplo, manter o realismo estabelecido no início até o final, evitando a quebra provocada pelos flashbacks e reduzindo as explicações. Isso daria ao conjunto uma maior unidade. Mas essas questões não comprometem o filme de maneira decisiva. No final, Coração Selvagem é um bom filme e, acima de tudo, uma boa sessão de cinema na tela grande.