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Crítica | Cruella – A Disney abraça o punk rock

Duas locomotivas aceleradas de Hollywood se chocam no mais recente projeto da Disney, lançado simultaneamente nas salas de cinema e no serviço de streaming da empresa.

A primeira delas é o desejo de roteiristas e produtores em apostar na figura do anti-herói, oferecendo histórias de origem para vilões e “simpatias pelo diabo”, como dizia a canção do Rolling Stones. A outra, claro, é a prática agridoce da Disney de reinventar seus grandes clássicos animados em versões live-action que lucram na nostalgia de públicos ao redor do mundo.

Essa colisão de locomotivas nos leva à Cruella, um ambicioso projeto que, em comparação com apostas anteriores, se revela como um dos mais bem-sucedidos.

A proposta deste novo filme começa de forma bem incomum: pegar a icônica vilã de 101 Dálmatas, cuja única motivação encontrava-se em matar filhotinhos de cachorros e confeccionar um luxuoso casaco, e jogá-la em uma história de origem ambientada na Londres dos anos 70, em meio à revolução cultural do punk rock. Assim, acompanhamos a jovem Estella (Emma Stone) e suas investidas no submundo criminoso, culminando em sua batalha de figurinos com a poderosa Baronesa (Emma Thompson), uma magnata influente que tem uma misteriosa conexão com sua mãe.

Guerra de vestidos

Esse elemento de inusitado é justamente o que torna Cruella uma obra tão peculiar. Ao contrário de produções como os recentes O Rei Leão, Mogli – O Menino Lobo, Cinderela, Aladdin ou até mesmo os dois filmes de Malévola (que também apostavam na empatia por uma personagem vilanesca), Cruella não parece nada com um conto de fadas do estúdio, descartando elementos de fantasia, florestas encantadas ou criaturas mitológicas. É, em sua maior parte, uma trama completamente pé no chão que troca os longos vestidos de gala e purpurina por um verdadeiro fashion week cartoon, que evoca o melhor do trabalho de Jenny Beaven (figurinista de Mad Max: Estrada da Fúria que já deve estar preparando espaço para mais um Oscar), e opta pelo caminho comentado lá em cima, de uma jornada em espiral “para o lado sombrio”.

As intenções certamente são animadoras, assim como a maestria de Craig Gillespie na direção. Responsável pelo bombástico Eu, Tonya e produções subestimadas como Lars e a Garota Real e o bom remake de A Hora do Espanto, Gillespie oferece caprichados planos de câmera que claramente se inspiram no cinema de Martin Scorsese, momentos de atuação que realmente parecem quebrar com a “mesmice” que domina a maioria das produções Disney e uma estética radical que, novamente, realmente não é o que costumamos associar com o estúdio de Walt Disney – algo potencializado também pela ótima trilha sonora incidental do filme (ainda que seja um pouco inchada demais, à lá Esquadrão Suicida). Este distanciamento tonal é o segundo maior elogio que eu posso fazer à produção.

O primeiro deles, claro, é Emma Stone. Carismática desde sua pequena participação em Superbad: É Hoje, e que explodiu em performances radiantes como A Mentira, A Favorita e La La Land: Cantando Estações, Stone tem a oportunidade perfeita para se divertir e entreter na pele de Cruella De Vil. A transformação de Estella para Cruella pode soar um tanto apressada (falaremos sobre o roteiro em breve), mas Stone arrebenta em ambas as encarnações, aproveitando-se de um sotaque britânico claramente debochado e cartunesco, conseguindo se distanciar da versão de Glenn Close e criar uma figura que é instantaneamente icônica em todas as suas aparições, que garantem também muitas oportunidades para a equipe de maquiagem e penteados. 

Vale apontar também o trabalho do elenco coadjuvante, especialmente do cada vez mais eficiente Paul Walter Hauser. Já tendo tido participações memoráveis em Eu, Tonya e também em O Caso Richard Jewell, Hauser garante um dos melhores alívios cômicos como um dos comparsas da protagonista, adotando uma divertida persona de inglês briguento. Já Emma Thompson não precisa fazer muito para garantir uma presença marcante em cena, e ao fazer de sua Baronesa uma versão (um pouco) mais simpática da Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada, garante uma antagonista competente.

Só um manequim

O problema de Cruella é tudo que não envolve seu elenco e toda a questão plástica. Escrito por Dana Fox e Tony McNamara a partir de argumentos de Aline Brosh McKenna, Kelly Marcel e Steve Ziss (vejam só quantas pessoas jogaram diferentes ideias aqui), o roteiro infelizmente fracassa em suas tentativas de elaborar uma história que justifique a origem da personagem e todo seu conflito com a Baronesa. Na metade de suas carregadas 2h15 de duração, me peguei perguntando: “É uma grande competição de moda? As pessoas vão morrer por conta disso?”. Em suma, não é uma história capaz de justificar toda essa transformação e o drama da protagonista, que só fica mais tolo com a reviravolta previsível envolvendo a personagem de Thompson.

E… eu sei que a Disney realmente queria dálmatas nesse filme de alguma forma, mas a forma como são aproveitados no prólogo chega a ser risível, como se os roteiristas estivessem passando tempo demais vendo memes na internet.

Cruella é um excelente incentivo da Disney em evoluir a estética e a casca de suas produções live-action, injetando energia e personalidade em um modelo de cinema carente de estilo. Infelizmente, apesar da ótima Emma Stone, toda a profundidade e história do prelúdio não merecem essa sofisticada vestimenta. Apenas um manequim oco, com um belo casaco.

Cruella (EUA, 2021)

Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Dana Fox e Tony McNamara, argumento de Aline Bosch McKenna, Kelly Marcel e Steve Bliss, baseado na obra de Dodie Smith
Elenco: Emma Stone, Emma Thompson, Paul Walter Hauser, Joel Fry, John McCrea, Mark Strong, Emily Beecham, Kirby Howell-Baptiste, Kayvan Novak
Gênero: Aventura, Comédia
Duração: 135 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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