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Crítica | Desejo e Reparação – A Tragédia do Amor Interrompido

As consequências da inocência.

Guilherme Coral
Guilherme Coral Redação
6 de janeiro de 2018 · 6 min de leitura
Crítica | Desejo e Reparação – A Tragédia do Amor Interrompido

Baseado no romance homônimo de Ian McEwan, Desejo e Reparação é o segundo longa-metragem dirigido por Joe Wright, que estreara no cinema com Orgulho e Preconceito. Wright, aqui, mantém seu foco em filmes de época, trazendo uma história de amor e guerra, lidando com as consequências do falso testemunho, da inocência e ingenuidade. Trata-se de um relato poderoso, que demonstra perfeitamente o terrível impacto que pequenas ações podem ter sobre a vida das pessoas.

Com sua história sendo contada através de décadas, o longa tem início em 1935, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra. Cecilia Tallis (Keira Knightley) e Robbie Turner (James McAvoy) nutrem um amor secreto um pelo outro, mantendo-se no constante vai e vem. Quando, enfim, decidem ficar juntos, Brionny Tallis (Saoirse Ronan), jovem irmã de Cecilia acaba vendo os dois terem relações sexuais. Quando uma outra da casa é estuprada, Brionny diz que Robbie foi o culpado, embora ele seja inocente, sem ela saber. Robbie, então, é preso e, posteriormente, acaba se alistando na Guerra, enquanto Cecilia espera que ele retorne.

Um dos aspectos mais notáveis do roteiro de Christopher Hampton, que, por sua vez, adapta o livro de McEwan, é como todas as relações humanas são tão perfeitamente traduzidas para a tela. Tirando algumas conveniências breves e sutis do texto, não há nada que soe artificial de fato, o que faz com que, de imediato, acreditemos em cada um dos personagens. Além disso, por desenvolver sua história ao longo de décadas, alternando constantemente entre diferentes focos, não temos como dizer onde exatamente tudo vai dar – sabemos, de início, que a guerra é iminente, mas fora isso, nada é previsível, mantendo nossa atenção do início ao fim.

Importante notar, claro, a atenção que o diretor, Joe Wright, tem em relação aos diferentes pontos de vista apresentados. Logo no primeiro ato o diretor faz questão de mostrar como Brionny enxerga tudo ao seu redor. Logo na primeira cena ela é estabelecida como alguém de fértil imaginação e isso vai sendo desenvolvido e reiterado inúmeras vezes ao longo da projeção. Wright acerta em cheio em sua decupagem, transformando o amor de Cecilia e Robbie em atos praticamente selvagens aos olhos da irmã mais nova – o que é apresentado como algo extremamente passional por um ponto de vista, do outro se torna algo puramente visceral, nos fazendo plenamente entender o que se passa na cabeça da menina, justificando, pois, seu grande equívoco, que tanto afetou aqueles à sua volta.

Do amor partimos para a tragédia e a chegada da Segunda Guerra perfeitamente simboliza a dor da separação do casal, que por tão pouco tempo ficou unido. A deslumbrante fotografia de Seamus McGarvey sabiamente alterna os tons esperançosos do primeiro ato, mais bem iluminados – Wright fazendo questão de apresentar o céu claro – com a tristeza da guerra, de tons acinzentados, escuros, sem muita cor. Não há espaço para a paixão aqui, apenas o sonho distante de Robbie em ver novamente sua amada. A evacuação de Dunquerque, apresentada brevemente durante o longa, vem para reforçar essa esperança, mas sempre deixando aquela pitada de dúvida, aquela desconfiança de que nem tudo irá terminar bem.

Enquanto tudo isso acontece vemos o crescimento de Brionny, seu amadurecimento e tomada de consciência sobre o terrível erro que cometera ainda jovem. Nesse ponto enxergamos características claras de um coming of age, ao passo que a irmã mais nova passa a reconhecer as consequências de seus atos e cada vez mais vai sofrendo por isso – tentando ao máximo dizer a verdade, mas sem, de fato, conseguir. Todo esse desenvolvimento da personagem é o que garante o impacto da sequência final, que brinca com o gênero documentário e, claro, com a metalinguagem. Brionny, sem dúvidas, é uma fascinante personagem e funciona como um grande aviso, para todos tomarmos cuidados com nossas ações – por menores que elas possam parecer, elas podem trazer catastróficas consequências.

Grande parte do impacto da obra seria perdido caso Wright não tivesse ao seu dispor um elenco tão dedicado. Keira Knightley mais uma vez ocupa papel de destaque em obra do diretor, encarnando um retrato humano e trágico dessa personagem, vítima da injustiça. Os maiores destaques, no entanto, vão para Saoirse Ronan e James McAvoy. A primeira, em seu terceiro longa-metragem como atriz, rouba a cena totalmente, a tal ponto que sentimos profunda falta dela quando outra pessoa a substitui para viver Brionny mais velha. Seu olhar profundo, seus olhos azuis, perfeitamente simbolizam a inocência e ingenuidade da menina de treze anos, há um vívido quê de sonhadora em sua expressão, a tal ponto que, mesmo no silêncio, conseguimos praticamente ouvir seus pensamentos, aspecto que faz de sua personagem uma das mais marcantes da obra, não somente pelas circunstâncias nas quais ela está inserida. Já McAvoy representa toda a tragédia da trama – sua transformação é evidente, do risonho jovem que encontramos no primeiro ato, ele passa por uma triste jornada, que o leva a ser despedaçado, tanto pela prisão, quanto pelos horrores que presenciara. Mais do que tudo no filme, ele representa a Europa destruída pela Guerra – na época, ainda incerta se haveria algum futuro.

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Toda essa homogênea, orgânica e trágica mistura é coroada pela trilha, ganhadora do Oscar, de Dario Marianelli, que mistura a diegese à não-diegese através de efeitos sonoros presentes na música, como o ocasional som de datilografia, aspecto que, ao término da projeção, faz total e completo sentido, mas, que antes disso, funciona como metáfora para a imaginação de Brionny, que cria sua própria versão dos fatos em sua mente. Misturados à tons mais românticos, a trilha ganha um caráter único, garantindo a identidade audiovisual do longa, ao mesmo tempo que enriquece todo o drama que acompanhamos em tela.

Dito isso, se Joe Wright já acertou em cheio em sua adaptação de Orgulho e Preconceito, é seguro dizer que sua técnica foi aperfeiçoada em Desejo e Reparação, filme de época que nos entrega uma trágica história de amor, enquanto desenvolve uma fascinante personagem em paralelo, mostrando como suas ações tanto impactaram a vida daqueles à sua volta. Utilizando a Segunda Guerra como palco para a trama, o roteiro de Christopher Hampton sabe utilizar detalhes históricos a fim de aprofundar cada um dos personagens, dando um peso a mais a toda essa triste história, que, no fim, nos deixa pensando apenas no que poderia ter sido.

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Desejo e Reparação (Atonement – Reino Unido/ França/ EUA, 2007)

Direção: Joe Wright
Roteiro: Christopher Hampton (baseado no livro de Ian McEwan)
Elenco: Saoirse Ronan, Keira Knightley, James McAvoy, Brenda Blethyn, Benedict Cumberbatch, Harriet Walter, Juno Temple, Alfie Allen, Patrick Kennedy
Gênero: Drama
Duração: 123 min.

Tags: #Alfie Allen #Benedict Cumberbatch #James McAvoy #Joe Wright #Juno Temple #Keira Knightley #Patrick Kennedy #Saoirse Ronan
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Guilherme Coral
Escrito por

Guilherme Coral

Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.

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