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Crítica | O Dia do Atentado

Tragédia e superação revelam o espírito de uma comunidade e de uma cidade apaixonadas pela liberdade

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
10 de maio de 2017 · 4 min de leitura
Crítica | O Dia do Atentado

Usar como ponto de partida para a produção de um filme eventos e personagens reais costuma ser uma via de duas mãos: de um lado, é preciso dosar na medida certa a dramatização com a fidelidade aos fatos; de outro, a inevitável confrontação do material ficcional com a história verdadeira confere familiaridade ao filme e aumenta sua exposição na mídia.

O Dia do Atentado, dirigido e co-roteirizado por Peter Berg, se sai bem ao fazer uma aposta relativamente ousada: em vez de definir claramente um ponto de vista, começa o enredo “atirando para cima”, apresentando pelo menos seis linhas de ação partindo paralelamente até o momento do ato terrorista com mortos e feridos, ocorrido durante a tradicional maratona de Boston no ‘Patriots Day’, em 15 de abril de 2013.

Conhecemos então o policial Tommy Saunders (Mark Wahlberg) e sua esposa Carol (Michelle Monaghan); o jovem casal Jessica Kensky (Rachel Brosnahan) e Patrick Downes (Christopher O’Shea); a estudante do MIT Li e seu interesse romântico; o empreendedor “Manny” (na verdade, Dun Meng), chinês que vive em Cambridge (cidade ao lado de Boston); o Sargento Jeff Pugliese (J.K. Simmons), da também vizinha Watertown; e finalmente o trio de islâmicos que perpetra o atentado e oculta suas intenções.

É evidente que o filme precisará escolher entre quais desses núcleos investirá tempo e situações dramáticas, e ele realmente o faz (o que acaba tornando, é verdade, excessivas algumas conexões que, após apresentadas, revelam-se dispensáveis ao longo da projeção). mesmo porque ainda precisa abrir espaço para outros personagens importantes na trama, como o agente especial do FBI Rick Deslauriers, vivido por Kevin Bacon.

Embora as caras mais conhecidas do filme pareçam interpretar papéis habituais dentro de suas carreiras (Wahlberg é o bostoniano briguento, Bacon o oficial cerebral, Monaghan a esposa carinhosa e engraçada, J.K. Simmons o cinquentão linha dura), o que é uma jogada certeira e até um pouco preguiçosa da produção, tal componente não atrapalha o envolvimento da plateia – ele, provavelmente, serve para aumentar a empatia, de modo que será difícil não estar bastante envolvido com os personagens do meio da projeção até o seu final, num movimento de fôlego único conduzido de forma discreta – mas hábil – pela direção.

Peter Berg ensaia alguma ousadia quando eventualmente alterna imagens reais de câmeras de vigilância, arquivo jornalístico e celulares com planos encenados, mas investe tão pouco no recurso que ele acaba passando despercebido (nada nem perto do balé formal de Moneyball – O Homem que Mudou o Jogo, por exemplo, que usa do mesmo expediente com virtuosismo). Da mesma forma, a questão do “ponto de vista” (talvez desde Rashomon, de Kurosawa, a preocupação inevitável na roteirização do filme “criminal”) arrisca a mostrar a cara (como na cena onde uma planta baixa da avenida do atentado é reproduzida pela equipe de investigação), mas o filme novamente opta por se centrar nos eventos reais, mantendo-se fiel ao espírito dos fatos e sem se arriscar a grandes arroubos estilísticos ou interpretativos.

Os momentos onde o filme “fala” mais alto que os fatos reais concentram-se na rápida cena de “despedida” de um dos terroristas e sua esposa (que o beija amorosamente, revelando sua verdadeira natureza, até então ocultada por conflitos domésticos) e no diálogo de Wahlberg com um colega, quando ambos resumem do que realmente se trata não apenas a produção, mas o problema do terrorismo: no final das contas, um conflito – ao menos momentâneo – entre pulsões de “bem” e “mal”.

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A maior parte da plateia deve imaginar – ou mesmo estar informada – de como termina a “história real”: quem eventualmente morre ou é preso. O Dia do Atentado, por sua vez, finaliza com uma emocionante celebração de uma cidade orgulhosa de suas tradições, mas ainda assim tolerante e aberta a imigrantes, cujo espírito coletivo é perfeitamente sintetizado em Fenway Park, o campo de baseball do lendário time da cidade, o Boston Red Sox.

O Dia do Atentado (Patriot’s Day, EUA – 2016)

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Direção: Peter Berg
Roteiro: Peter Berg, Matt Cook
Elenco: Mark Wahlberg, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman, Kevin Bacon
Gênero: Drama, thriller
Duração: 133 min

Tags: #J.K. Simmons #John Goodman #Kevin Bacon #Mark Wahlberg #Michelle Monaghan #Peter Berg
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Daniel Moreno
Escrito por

Daniel Moreno

Cineasta, roteirista e colaborador esporádico de publicações na área, diretor do documentário “O Diário de Lidwina” (disponível no Amazon Prime e ClaroTV), entre outros.

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