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Catálogo

Crítica | Dublê de Corpo – A Homenagem Bizarra

Quando De Palma descobriu a hora de parar suas homenagens a Hitchcock.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
10 de fevereiro de 2018 · 8 min de leitura
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Analisar o cinema de Brian De Palma é uma tarefa difícil e bastante imprevisível. A cada novo filme, não é possível saber o que o diretor terá a audácia de apresentar. Com Dublê de Corpo, é quase impossível compreender se De Palma quer construir uma enorme paródia ou um suspense sério como havia feito em Um Tiro na Noite e Vestida Para Matar, ambos filmes que visavam homenagear a cinematografia de Alfred Hitchcock.

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Aqui se trata de um clássico trágico caso de opiniões polarizadas. Há sim quem embarca na galhofa que De Palma busca trazer com esse novo thriller e há quem ache um completo desperdício de tempo. Apesar de reconhecer os bons momentos na direção, infelizmente estou do lado que simplesmente não vê muitas qualidades em Dublê de Corpo.

Homenagem além do aceitável

Mesmo que De Palma tenha flertado bastante com as narrativas trazidas por Hitchcock em filmes anteriores, nunca tinha simplesmente transposto uma história inteira para conceber uma “nova”. No caso de Dublê de Corpo, o roteirista e diretor simplesmente busca convergir Janela Indiscreta com Um Corpo que Cai em uma história espetacularmente insossa.

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Novamente brincando com a metalinguagem, De Palma nos apresenta a história do ator de filmes B, Jake Scully (Craig Wasson péssimo em todas as cenas). Após perder seu emprego em um filme mequetrefe por conta de um ataque de claustrofobia, o dia de Jake só piora quando descobre a traição de sua namorada. Sem emprego, mulher e casa, o ator decide fazer algumas aulas para melhorar seu desempenho no ofício. Em uma dessas aulas, conhece o simpático Sam Bouchard (Gregg Henry) que, por acaso, tem a casa perfeita para acomodar Jake por um tempo.

Além de poder ficar em um casarão luxuoso, Jake pode observar todos os dias, na mesma hora, a vizinha que mora na rua de baixo, Gloria (Deborah Shelton) que, inexplicavelmente, sempre faz um intenso streap tease antes de dormir. O que era apenas um passatempo, rapidamente se torna uma obsessão que leva Jake a caminhos cada vez mais obscuros.

Depois de ter visto os outros dois trabalhos inspirados na filmografia de Hitchcock com a criação de uma história original trazida por De Palma, ficou bastante claro que o forte do autor certamente não é nos seus roteiros. Porém, nada consegue chegar perto do nível rasteiro da narrativa de Dublê de Corpo. Como disse, é bastante difícil sacar se tudo é uma paródia estúpida ou uma história que se leva a sério.

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Para a narrativa iniciar de fato, há uma demora absurda que ultrapassa a metade do filme. Como o protagonista é insosso, é difícil despertar qualquer interesse por sua jornada lentíssima. De Palma tenta criar um personagem blasé com apenas a claustrofobia como principal característica, além da facilidade de ser influenciado por terceiros – assim como James Stewart nos filmes de Hitchcock. O grande problema é que Craig Wasson não é James Stewart ao manter o semblante bocó em toda a fita – isso quando não recorre ao overacting.

Por conta dessa notável demora na qual pouco acontece, De Palma cria um jogo de perseguição contra Gloria, inserindo Jake no meio disso tudo. Quem já viu Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai basicamente vai sacar a narrativa inteira com pouco ou nenhum esforço – ela, por si, já é bastante previsível. Até que uma determinada personagem morra, o filme não inicia de fato. Quando as coisas finalmente engrenam temos o conflito clássico sobre o homem inocente incriminado que De Palma tanto preza, além de abordar situações criativas para mimetizar a narrativa de Um Corpo que Cai, inserindo o protagonista diretamente na indústria dos filmes pornôs.

Esse lado mais interessante da obra chega tão atrasado que De Palma nem consegue ter tempo para desenvolver o arco com mais propriedade. Ao menos temos a apresentação de Holly Body (Melania Griffith) que traz mais vigor a trama, apesar de rapidamente se tornar uma personagem repetitiva no conflito que possui com Jake – este, absolutamente cheio de falhas internas de lógica, além de apelas diversas vezes para conveniências narrativas absurdas.

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No fim, De Palma conta uma história pouco interessante, apesar da reviravolta final da armação fazer bastante sentido. O final é risível mesmo contando com uma bela catarse conferindo o caráter cíclico que ele se esforça em criar nos seus roteiros originais. Não existe a menor preocupação também em oferecer uma conclusão mais esforçada sobre as consequências do assassinato. E, como de costume, De Palma continua trazendo forças policiais completamente imbecis, além diálogos medíocres.

Exaustão de uma Estética

Brian De Palma consegue mimetizar Hitchcock tão bem que foi acusado de plagiador. O ápice da técnica estética foi visto Vestida Para Matar, mas era esperado que o diretor trouxesse seu melhor com Dublê de Corpo – tanto que um projeto está ligado intrinsicamente ao outro. Mas isso simplesmente não acontece.

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Ainda há sim muita fluidez nos cortes e movimentos de câmera barrocos de De Palma conseguindo evocar o melhor de Hitchcock – repare como o plano-sequência na casa de Jake, enquanto procura pela namorada, evoca o clima de Os Pássaros quando Tippi Hedren descobre a morte de um simpático caseiro, mas um cansaço pleno é sentido em grande porção da fita chegando até a impedir a criação de sequências elaboradas como a do museu em Vestida Para Matar ou do acidente em Um Tiro na Noite.

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Obviamente que tudo envolvendo a assimilação da linguagem voyeur com câmera subjetiva é feita com precisão absoluta conferindo um ar renovado para a direção magistral de Hitchcock em Janela Indiscreta, mas muito da tensão e interesse pela vida dos outros nunca se faz presente no clima dessas cenas em especial. Quando descobrimos a existência do segundo stalker, um índio mal-encarado, o mesmo mistério é assassinado pela notória maquiagem que o ator carrega no resto, tornando esse antagonista um ser bizarro e nada assustador como a loira psicótica de Vestida Para Matar.

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Apesar disso, De Palma consegue entregar uma ótima sequência de perseguição que passa por diversos cenários até finalizar em um túnel que provoca o ataque claustrofóbico em Jake. O diretor traz um belo domínio na câmera para conseguir estabelecer elementos orgânicos durante essa peculiar perseguição enquanto focada no shopping e também na praia – a encenação envolvendo a movimentação dos atores e um enorme enquadramento capturando um prédio é simplesmente apaixonante.

Elevando tanto a qualidade da direção, não demora muito para De Palma decepcionar com a sequência do assassinato que, apesar de apresentar boas ideias como a arma escolhida e um jogo de suspense razoável, há uma galhofa tão intensa aqui que praticamente te remove da experiência do filme. São sucessões de tropeços ou falhas inusitadas para estender a sequência, além de apresentar uma burrice notável tanto da vítima, do assassino e do próprio Jake.

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É aqui que ele apresenta também um cachorro psicótico que vira o terror do protagonista. Esse elemento é importantíssimo para o clímax, trazendo novamente a atmosfera da bizarrice e da galhofa em um dos momentos mais intensos da obra – o cachorro, preso no carro, simplesmente consegue quebrar o vidro traseiro sem o menor esforço para auxiliar seu dono no embate final. Absolutamente ridículo.

O que de fato De Palma faz de espetacular é a inserção inteligente de uma sequência que se trata praticamente de um videoclipe de Relax, exercitando novamente a metalinguagem da obra, além de usar seus icônicos reflexos reveladores para criar a encenação mais inteligente da obra. Estranhamente, não temos os clássicos Split screens característicos do diretor. Felizmente, temos Pino Donaggio na trilha musical mais uma vez, transitando em temas cinicamente românticos para outros extremamente invasivos em cenas importantes como a do assassinato.

Dublê de Clássicos

Mesmo desgostando de quase todos elementos de Dublê de Corpo, tenho a obrigação de recomendar para qualquer curioso por um motivo simples: é impossível sacar qual é a intenção do De Palma aqui. Pode ser que eu tenha levado uma galhofa proposital totalmente à sério, julgando que o diretor nunca faria uma paródia, além dele mesmo declarar que se trata sim de um “bom suspense”.

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Justamente por isso, pode ser que ele surpreenda positivamente o leitor decidido a dar uma chance ao filme, apesar dele estar muito longe de ser a melhor homenagem e mimese que De Palma já tenha ousado fazer sobre o verdadeiro mestre do suspense: Alfred Hitchcock. Talvez o melhor para De Palma seja mesmo trazer vida a histórias de outras pessoas, pois as que ele cria são apenas dublês de clássicos.

Dublê de Corpo (Body Double, EUA – 1984)

Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrech
Elenco: Craig Wasson, Gregg Henry, Melanie Griffith, Deborah Sheldon, Guy Boyd, Dennis Franz
Gênero: Suspense, Thriller
Duração: 114 minutos.

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Tags: #Alfred Hitchcock #Brian de palma #Craig Wasson #Dennis Franz
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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