Em 1937, a Disney lançou “Branca de Neve e os Sete Anões” inspirado no conto dos irmãos Grimm. Este foi o primeiro filme animado norte-americano, totalmente colorido, sonoro e falado – um marco histórico para a época. Isso causou o boom criativo na Disney que massacrava qualquer outra empresa concorrente. Com isso surgiram inúmeras animações que conquistaram o público do mundo todo graças à grande qualidade técnica, as histórias simples e, claro, as infinitas canções. Em 2011, a Disney exibe orgulhosamente seu 50º filme animado.

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Agora a princesa da vez é Rapunzel que, logo recém-nascida, foi raptada pela malvada Mother Gothel por causa dos poderes mágicos de seus cabelos – estes com capacidade de rejuvenescer a velha vaidosa. Para impedir que todos chegassem até Rapunzel, Gothel trancafiou-a em uma alta torre, privando os poderes mágicos dos cabelos da garota só para si. Após 18 anos presa na torre, Rapunzel recebe a visita de um convidado incomum – o ladrão mais esperto do reino, Flynn Rider. Este firma um trato com a princesa que sempre sonhou: descobrir de onde vem as luzes flutuantes que sempre acontecem na noite de seu aniversário em troca da coroa que ele havia roubado, agora escondida na torre. Esta aventura transformará o mundo de Rapunzel de cabeça para baixo e sua “mãe” não gostou nem um pouco e está determinada a sequestra-la novamente.

Nem um pouco enrolado

O roteiro ousado de Dan Fogelman adapta de forma muito interessante o conto pesado dos Irmãos Grimm. O maior mérito de seu trabalho foram os personagens, um mais original que o outro. Rapunzel é a ovelha negra das princesas da Disney: ela é estabanada, é carismática, tem conflitos, não é elegante, não tem postura, tem um réptil como animal de estimação e certamente não é tonta como Aurora de “A Bela Adormecida” ou indefesa como Branca de Neve. Muitas vezes, ela salva o “príncipe” da morte certa com manobras de seu cabelo que dariam inveja ao chicote de Indiana Jones.

Já o príncipe da história deixa de ser super afeminado como vários outros anteriores e vira o ladrão malandro Flynn Rider. E a vilã do momento, Mother Gothel é uma mulher de coração mais frio e cruel que o da Madastra de Cinderela. O mais interessante desta personagem é sua relação mórbida de amor e terror psicológico com Rapunzel e, quando esta a pergunta o que existe no mundo de fora, ela sempre responde com hipocrisia e se faz de coitada. Porém, nem de longe Gothel chega perto da maldade da vilã de “A Bela Adormecida”, Malévola – a personificação da maldade feminina, essa mulher é tão ruim que até sua pele é verde.

A história é bem arquitetada e explica o porquê dos cabelos de Rapunzel nunca poderem ser cortados ao contrário do conto dos Grimm, onde ela tem aquela cabeleira sem motivo aparente a não ser servir de elevador para a bruxa. O roteiro não esquece o conto e homenageia com a clássica frase “Rapunzel! Jogue seus cabelos!”, adaptada do original “Jogue suas tranças!”. Ele também possui passagens que lembram até demais outros filmes da Disney, como a cena que se passa no barco quase igual a da “Pequena Sereia”.

Nem tudo, entrentando, é um mar de rosas, o roteiro pode ser bom demais, mas mesmo assim não escapa da vilania de alguns críticos. Uma de suas falhas é a falta do desenvolvimento do cavalo com espírito de cachorro Maximus, sempre emburrado e caçando Flynn, muito diferente de Pascal, o camaleão boa praça que diverte o público a todo instante. Fora isso o desfecho de cada ato é bem previsível.

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Os opostos não se atraem

Tive a oportunidade de assistir a versão com a dublagem original e a dublada do Brasil. Antes as dublagens brasileiras dos filmes da Disney eram simplesmente incríveis, agora parece que o encanto acabou. A diferença das duas versões são gritantes, afinal comparar Luciano Huck com Zachary Levi (famoso pelo seriado “Chuck”) é “loucura, loucura” como diria o caldeiroso.

Em algumas partes da versão brasileira, Luciano parecia que estava lendo uma pauta do quadro “Lar Doce Lar” de seu programa e além do mais, sua voz esganiçada e nasal não combina com a cara de Rider. Já Sylvia Salustti e Mandy Moore não diferem tanto, a voz das duas é igualmente agradável fora que Moore também não é tão boa atriz assim e Salustti já trabalhou bastante com dublagens. Gottsha faz a voz de Gothel na versão brasileira e tem uma mania irritante de terminar as frases cantarolando, coisa que Donna Murphy faz raramente. Aliás, quem realmente rouba a cena é Murphy, sua voz afinada deu as músicas no original outra cara, fora a dublagem magnífica. Ron Perlman também empresta sua voz cavernosa aos Irmãos Sttabington na versão original.

A nova aposta da Disney

A computação gráfica ou CG está ganhando força na empresa do Mickey. Antes a Disney tinha um comportamento relutante a respeito de filme em CG e deixava o trabalho nas mãos dos estúdios da Pixar, mas parece que agora tudo mudou e a maior prova disto é este filme. A animação inteiramente feita por computadores não poderia sair melhor: os níveis de detalhamento do longa são incríveis e fazem jus ao seu orçamento milionário.

O maior destaque ficar por conta do cabelo louro de Rapunze – repare que ele fica mais ralo enquanto ela o fica penteando e torna-se mais espesso enquanto parado ou molhado –, tudo feito com um cuidado incrível, fora a movimentação dele enquanto a princesa anda, pula ou o joga para o alto. É interessante citar que não foi somente o cabelo dela que é bem cuidado, o de Rider e Gothel também são muito bem animados e reagem a vento e aos gestos a todo instante. Fora a cabeleira dos personagens, as sobrancelhas, cílios e barbas – quando aparecem são detalhadas de pêlo a pêlo.

A física da água também é apresentada de maneira esmagadora, se a de “Megamente” era soberba, essa é simplesmente dez vezes melhor. Na cena em que a represa desaba, toda aquela quantidade de água reage com os elementos do cenário, transformando-se em espetáculo para os olhos. Falando em olhos, esses são um dos melhores que já vi, com direito até a contração de pupilas e de ficarem vermelhos quando os personagens choram.

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Pegando as paletas

Outra vez a direção de arte da Disney dá o brilho de sua existência. Todos os cenários do filme têm um design inspirado assim como os personagens. Em cada cenário predomina uma cor. No início do filme, assim que Rapunzel sai da torre, tudo fica verde vivo; nas suas crises de existência, as cores ficam num tom verde musgo para contrastar a infelicidade da garota; já no covil dos bandidos predomina um tom avermelhado. Logo depois tudo torna-se bege claro misturado com o azul vivo da água.

Destaque para as entradas e saídas dramáticas de Gothel, com direito a nevoeiros e escuridão e as sempre ótimas cenas coreografadas. A cena mais bonita do filme é a do barco onde a criatividade dos artistas surpreendem até o espectador mais exigente: as lanternas e seus reflexos na água misturadas com o efeito 3D e uma fotografia inteligente resultam na melhor utilização da “nova” tecnologia até agora.

A caminho do 9º Oscar

Que Alan Menken é um gênio não é novidade. Afinal o cara compôs trilhas clássicas como as de “A Bela e a Fera”, “A Pequena Sereia”, “Aladdin” e vários outros. Durante o filme existe uma música de fundo que é incessante, ou seja, o tempo todo o filme tem alguma música. Para não perder o costume, suas músicas possuem todas alegorias possíveis: cheias de sininhos ou ritmos animados de piano dignas de Broadway.

Mas o melhor fica por conta das canções, todas são boas e tiveram uma adaptação interessante para o português, mas novamente a versão original é melhor que a dublada. As melhores músicas são “Mother Knows Best” e sua reprise, “I See The Light” e “Kingdom Dance” – esta última têm um toque irlandês muito legal.

Os efeitos sonoros também são competentes, sendo o melhor deles os barulhos que o cabelo de Rapunzel faz enquanto esfregam no chão ou se enroscam em alguma coisa.

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Duas cabeças pensam melhor do que uma

O diferencial dos filmes da Disney era a dupla direção – dois diretores  trabalhavam juntos, o que resultava em uma explosão de criatividade se ambos entrassem em um consenso. Fora a participação, neste caso, do produtor executivo John Lasseter proprietário do toque de Midas (tudo em que ele está envolvido transforma-se em obra de arte). Para ter uma idéia de sua competência, foi ele que desafogou a Disney durante sua época nem um pouco criativa: “Tarzan 2”, “Pocahontas 2” e vários outros filmes “2”.

Desta vez a direção ficou por conta de Nathan Greno e Byron Howard, cada um com seus méritos e toques especiais. Por exemplo, desconstruir a princesa modelo da Disney, humanizar os bandidos com seus respectivos sonhos, as crises de culpa de Rapunzel, etc.

Os dois fizeram um trabalho exímio deixando o filme com uma narrativa simples de fácil entendimento para as crianças e tirando o tabu de “filmes para meninas” com as inúmeras sequencias de ação que agradam todos meninos também.

★★★★

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