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Crítica | Eternos é ambicioso, mas insuportável

Falando de forma totalmente pessoal, tenho um grande problema com a Marvel Studios. Sim, a gigante do cinema blockbuster reinventou a forma de se fazer negócios e contar histórias com filmes interconectados desde que Homem de Ferro iniciou a gigantesca franquia do MCU em 2008, abrindo a porta para inúmeros novos personagens e possibilidades de histórias originadas dos quadrinhos. Pelo menos, essa era a proposta no papel, já que os últimos 13 anos resultaram na criação de uma fórmula que raramente é mudada ou arriscada, onde o chefão Kevin Feige oferece (com algumas raras exceções) a mesma versão do mesmo tipo de filme, todas as vezes.

Eternos não é assim. Novamente apostando em personagens que certamente são desconhecidos para o público geral, o novo filme do estúdio tenta fugir da fórmula e das convenções do estúdio (e até mesmo do gênero no geral) ao lado de uma cineasta completamente autoral e premiada com o Oscar. É a melhor das intenções, e eu sou uma das pessoas que mais grita pela quebrada de regras no gênero, mas o resultado – infelizmente – é dolorosamente enfadonho e entediante.

A trama é ambientada “no começo”, como o letreiro inicial nos avisa, ao criar um panorama ancestral para a criação do Universo. Na ameaça de criaturas conhecidas como Deviantes, os divinos Celestiais dão origem aos Eternos, seres super-poderosos que têm como única função destruir os tais monstros e auxiliar diferentes civilizações em seus processos evolutivos. Na Terra, o grupo liderado pela sábia Ajak (Salma Hayek) acompanha toda a História da Humanidade e, milênios após sua primeira missão, são reunidos por Sersi (Gemma Archan) e Ikaris (Richard Madden) para combater uma misteriosa nova ameaça que coloca o destino do planeta em xeque.

Confusão narrativa

É uma premissa extremamente ambiciosa e de proporções gigantescas, tanto que o roteiro fica a cargo de um batalhão quase tão grande quanto o dos personagens nos pôsteres. Além de Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Katz Firpo, a diretora Chloé Zhao (de Nomadland) também tem um crédito em dobro no roteiro (algo extremamente incomum), o que talvez justifique todo o trabalho narrativo: ao mesmo tempo em que Eternos segue o grupo titular se reencontrando nos dias atuais, o longa aposta em uma série de flashbacks ao longo da História para acompanhar momentos chave na vida desses seres imortais; uma ferramenta de dramaturgia difícil de se acertar, e que também vem como uma novidade para o MCU.

Mas isso vem com um grande custo. Ao longo das mais de 2h30 de projeção, a experiência de Eternos se torna maçante e entediante enquanto o filme salta entre os períodos temporais. Praticamente todas as cenas ambientadas no passado são irrelevantes para o desenvolvimento da história, servindo apenas como “curiosidades” acerca do envolvimento dos personagens e as sementes de alguns conflitos entre eles – especialmente o conflito interno da Thena de Angelina Jolie que não faz o menor sentido em qualquer uma das linhas temporais.

Por exemplo, há um breve flashback onde vemos Phastos (o ótimo Brian Tyree Henry) devastado pela detonação da bomba atômica em Hiroshima. É um momento delicado e bem atuado, mas que não serve para nada: logo após a curtíssima cena, estamos de volta para a progressão no presente, que já tem seus problemas para lidar com toda a atrapalhada exposição (só faltou o Power Point) envolvendo a origem dos Eternos, o nascimento de Celestiais, explicar múltiplas vezes onde os Eternos estavam durante o conflito de Thanos, além de uma série de outros conceitos que desafiaram minha capacidade de permanecer acordado.

Elenco de peso

Com tanto tempo de projeção e possibilidades narrativas, Eternos garante erros e acertos com seu gigantesco elenco. A figura protagonista fica com Gemma Chan (que curiosamente já havia vivido um papel menor em Capitã Marvel), que se mostra uma atriz carismática e capaz de lidar com o drama e a responsabilidade de Sersi. Só é difícil comprar a relação amorosa que Sersi carrega com o apático Ikaris de Richard Madden, personagem que só se mostra um pouco mais interessante na segunda metade do longa – e que ao menos tem mais presença do que o bobalhão Kit Harington que fica refém das clássicas piadinhas Marvel.

Angelina Jolie infelizmente é completamente desperdiçada pelo drama bobo envolvendo sua Thena, enquanto suas habilidades de luta são substituídas por uma bonecona digital de péssima qualidade. Enquanto Kumail Nanjiani se especializa nas piadas sem graça que tem feito pela última década (apesar de protagonizar uma homenagem divertida a Bollywood), o coreano Ma Dong-seok (que roubou a cena em Invasão Zumbi) garante uma boa presença física na ação, mas quem realmente se destaca é a energética Lauren Ridloff como a  velocista Makkari, Lia McHugh como a pequena Duende e o cada vez mais interessante Barry Keoghan como o desafiador Druig.

Oscarizados também erram

Quando chegamos ao trabalho de Zhao na direção, o resultado é um pouco mais complicado. Sim, ao lado do diretor de fotografia Ben Davis, a cineasta é bem feliz em trazer belíssimas imagens com paisagens naturais, pôr do sol e um olhar típico de western para os diversos diálogos e “encaradas” que seu volumoso elenco compartilha ao longo da narrativa; uma verdadeira pérola em meio à pobreza visual que assombra grande parte dos longas da franquia, e que Zhao também aproveita quando os membros do elenco protagonizam momentos mais intimistas e carregados por emoção.

Infelizmente, Zhao se mostra bem mais amadora quando Eternos parte para a ação, apresentando uma mise en scene confusa, perdida e dependente de efeitos visuais pedestres que me trouxeram flashbacks da luta de Neo contra o exército de Smiths em Matrix Reloaded (mas sem a criatividade das irmãs Wachowski, diga-se de passagem). Não ajuda também que os principais oponentes dos Eternos, os Deviantes, sofram do design pobre e sem qualquer imaginação que assola produções do gênero na Hollywood contemporânea: quando as criaturas enfrentam os heróis, é uma verdadeira cacofonia visual de pixels e imagens escuras. Nem mesmo o compositor Ramin Djawadi consegue levantar um ânimo em tais sequências.

Fico realmente feliz que a Marvel Studios tenha se arriscado com algo ousado e diferente com Eternos. O resultado acabou sendo uma das obras mais irregulares e difíceis de se assistir até o final que o estúdio já fez, se perdendo entre sua ambição cósmica, belas paisagens e um elenco que é mais ou menos bem aproveitado. É um filme bem problemático, cujo maior elogio que posso fazer, é o fato de que definitivamente não é um genérico.

Eternos (Eternals, EUA – 2021)

Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo, Kaz Firpo
Elenco: Gemma Chan, Richard Madden, Angelina Jolie, Salma Hayek, Kumail Nanjiani, Brian Tyree Henry, Richard Madden, Lia McHugh, Lauren Ridloff, Barry Keoghan, Ma Dong-seok, Bill Skarsgard
Gênero: Aventura
Duração: 154 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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