Crítica | Euphoria 3 é o epitáfio de uma geração que confundiu arte com fanfic
Euphoria não é sobre conforto. A terceira temporada traz personagens em um mundo devastado emocionalmente. Veja como isso impacta o público.
That’s a Wrap on Rue Journey!

Desde sua estreia, Euphoria nunca foi uma série sobre conforto. Nunca foi uma história criada para validar expectativas, recompensar teorias, e para pior ou melhor, nunca se propôs a entregar ao público exatamente aquilo que ele gostaria de ver.
Sam Levinson construiu a série como um retrato estilizado, por vezes grotesco, de personagens tentando sobreviver em um mundo emocionalmente devastado e sem esperança. E a terceira temporada talvez seja a expressão mais pura dessa proposta.
A recepção divisiva dos novos episódios revela algo curioso sobre o estado atual do entretenimento. Algo que eu senti muito em parte da recepção é que uma parcela do público não queria assistir à terceira temporada de Euphoria. Queria assistir à temporada que inventou na própria cabeça durante os últimos quatro anos. Queria ver determinadas relações acontecerem, determinados personagens seguirem caminhos específicos e determinadas teorias serem confirmadas.
Quando Levinson decidiu contar outra história, a reação imediata foi chamar a temporada de fracasso.
Mas ela está longe de ser isso.
Após anos acompanhando esse grupo de adolescentes problemáticos afundados em vícios, inseguranças e relacionamentos destrutivos, Euphoria finalmente leva seus personagens para o lugar onde todas aquelas escolhas inevitavelmente os conduziriam: a vida adulta. E Levinson a retrata como sempre prometeu retratar desde o primeiro episódio — não como uma fase de amadurecimento ou como algo romântico, mas como um inferno sob a terra com os dias contados.
Se as temporadas anteriores passam mais a sensação de dramas juvenis revestidos por uma estética sofisticada, esta funciona quase como um epitáfio. Uma despedida brutal para qualquer ilusão de inocência que ainda restava.
A mudança de tom é radical e deliberada.
A terceira temporada é mais violenta, mais cruel e mais engraçada em seu humor negro. Ela troca parte do melodrama adolescente por uma narrativa que trafega entre o crime, a tragédia e o faroeste moderno. Em diversos momentos, a sensação é de estar assistindo a algo mais próximo dos irmãos Coen ou algo como Narcos do que dos dramas juvenis que dominaram o streaming nos últimos anos.
Mais irmãos Coen do que drama adolescente. Mais neo-western do que história de amadurecimento. Mais interessada em consequências do que em fantasias. E essa transformação é justamente o que a torna a nova temporada fascinante.
Visualmente, Levinson continua operando em um nível que poucos showrunners contemporâneos conseguem alcançar. Em uma era dominada por produções visualmente feias e homogêneas, onde muitas séries parecem ter sido feitas dentro da mesma fábrica de conteúdo sem alma visual, Euphoria permanece imediatamente reconhecível em cada enquadramento. Cada cena carrega uma identidade estética própria. A fotografia, os movimentos de câmera, a iluminação e a composição visual continuam funcionando não apenas como decoração, mas como extensão emocional dos personagens.
Sam Levinson obviamente não é perfeito em todos os quesitos (roteiro, direção), por vezes ele exagera, pode ser indulgente consigo mesmo e, em alguns momentos, pode até perder a mão na escrita. Mas existe uma coisa que ninguém pode tirar dele: o homem sabe fazer um tratamento estético realmente bonito e único.
Levinson dirige Euphoria como alguém que realmente entende de linguagem visual. Seus enquadramentos não existem apenas para serem bonitos; eles comunicam estados emocionais, criam tensão, ampliam a sensação de isolamento e isso fica mais nítido a cada episódio que passa. É possível reconhecer um episódio dirigido por ele em poucos segundos, e essa assinatura autoral é algo cada vez mais raro em uma indústria dominada por produções que parecem ter vindo diretamente de uma fábrica de produtos sem almas.
Mas como eu disse anteriormente, o Levinson não é um realizador perfeito. Vejam bem, embora Euphoria frequentemente utilize o sexo como ferramenta narrativa para discutir trauma, desejo e vulnerabilidade, há momentos em que Levinson ultrapassa essa função dramática e cai em uma sexualização desnecessária, exagerada e sem sentido de algumas personagens. E está terceira temporada atinge o auge deste problema.
Algumas cenas envolvendo a personagem Cassie Howard (Sydney Sweeney) e outras personagens parecem existir mais para reforçar a identidade provocativa da série do que para aprofundar seus conflitos. É um defeito real e recorrente em sua obra. Entretanto, reconhecê-lo não diminui suas qualidades como diretor, mas também impede que a análise se transforme em apenas celebração, obviamente.
Mas agora, vamos falar da real alma da série, que é a Rue, interpretada por Zendaya. Essa personagem permanece sendo uma das personagens mais complexas da televisão atualmente, carregando uma mistura de fragilidade, culpa e sobrevivência que transforma até os momentos mais silenciosos em algo profundamente impactante.
E talvez, a maior surpresa narrativa da temporada seja a jornada espiritual de Rue. Durante anos, sua história foi definida pela dependência química, pela culpa e pela autodestruição. Aqui, pela primeira vez, ela parece buscar algo que transcende a própria sobrevivência. Sua aproximação com a fé não surge como uma conversão simplista ou uma solução mágica para seus problemas, mas como uma tentativa desesperada de encontrar significado e redenção em um mundo que constantemente lhe oferece apenas sofrimento.
A pergunta que move Rue deixa de ser “como permanecer sóbria?” e passa a ser “como continuar vivendo?”.
Em uma série que sempre flertou com simbolismos religiosos, a terceira temporada finalmente coloca Deus no centro da conversa. E o resultado produz alguns dos momentos mais íntimos e emocionalmente maduros de toda a série.
Talvez seja justamente por isso que Rue continue sendo a personagem mais humana de Euphoria. Ela não está tentando salvar o mundo. Não está tentando ser um exemplo. Está apenas tentando encontrar uma razão para acordar amanhã.
Outro destaque absoluto para mim é o Colman Domingo. Se Zendaya continua sendo a alma da série, Domingo se consolida como sua consciência moral. Ali sempre foi um personagem importante, mas nesta temporada alcança uma profundidade inédita. Por mais que suas aparições estejam mais limitadas nesta temporada, sua presença em cada uma das cenas em que ele aparece traz uma humanidade rara para um universo frequentemente marcado pelo caos e pela autodestruição. Inclusive, algumas das melhores cenas da temporada acontecem justamente quando Ali e Rue simplesmente conversam. Não há explosões, violência ou grandes reviravoltas. Apenas dois seres humanos tentando encontrar sentido em suas próprias ruínas.
É o tipo de atuação que lembra ao espectador que Euphoria, por trás de toda sua estilização, ainda é uma série profundamente interessada em pessoas.
E em uma série repleta de personagens emocionalmente explosivos, temos a introdução do novo antagonista que reflete bem essa expressão com o Alamo Brown interpretado maravilhosamente por Adewale Akinnuoye-Agbaje. Ele surge como uma presença quase mitológica, bíblica. Sua simples entrada em cena altera completamente a atmosfera dos episódios. Existe algo de western moderno em sua construção, como se Levinson tivesse retirado um personagem diretamente de um thriller criminal e o inserido dentro do universo de Euphoria.
A atuação consegue equilibrar carisma, mistério e ameaça de forma impressionante. Quando Alamo aparece, os problemas emocionais dos personagens deixam de parecer abstratos e passam a ter consequências concretas. Sua presença ajuda a consolidar a transformação desta nova temporada em algo mais próximo de um drama criminal do que de um drama adolescente tradicional.
E além da Rue, outro arco realmente fascinante nesta temporada também foi o da Maddy Perez, interpretada por Alexa Demie. Durante anos, ela foi alguém definida por frases marcantes, maquiagens impecáveis e pelo relacionamento tóxico com o Nate (Jacob Elordi) e uma confiança quase inabalável. Mas arrisco dizer que nesta terceira temporada, Levinson se interessa mais pela temporada e mostra ela dando passos maiores e mais arriscados.
Agora inserida no mundo profissional e distante dos corredores da escola, Maddy parece uma das poucas personagens realmente tentando construir um futuro para si mesma. Alexa Demie entrega uma performance mais madura sem abandonar a personalidade afiada que transformou a personagem em um fenômeno cultural.
Existe uma melancolia silenciosa em sua trajetória, como se ela estivesse descobrindo que a autoconfiança que a manteve viva durante a adolescência não é suficiente para enfrentar todas as frustrações da vida adulta.
O único problema é que a temporada parece perceber tarde demais o quão interessante essa versão da personagem é. Em diversos momentos fica a sensação de que Maddy merecia muito mais espaço. Entre todas as figuras da série, ela talvez seja a que mais claramente representa o tema central desta temporada: o choque inevitável entre quem imaginávamos que seríamos e quem acabamos nos tornando.
Se existe uma grande decepção nesta temporada, ela atende pelo nome de Jules.
Depois de ser uma das personagens mais importantes das duas primeiras temporadas e uma peça fundamental na jornada emocional de Rue, sua participação aqui parece quase uma participação especial vazia e sem propósito. O salto temporal abre possibilidades interessantes para a personagem, mas Levinson demonstra pouco interesse em explorá-las.
Jules surge em momentos pontuais, recebe basicamente nenhuma cena realmente significativa e termina a temporada sem um arco dramático à altura de sua relevância histórica dentro da série, pessoalmente, eu achei um desrespeito, principalmente considerando a construção dela nas primeiras temporadas.
É um total desperdício do potencial da Hunter Schafer, que continua excelente. Mas simplesmente falta material, ela não tem propósito algum dentro desta nova temporada e isso incomoda bastante. É um absurdo Levinson ter desdenhado tanto de umas personagens mais iconicas e ricas narrativavemente que ele mesmo construiu.
A Jules da Hunter Schafer já foi o centro de diversas decisões emocionais da série e acabou reduzida a aparições breves e quase decorativas.
E não só a Jules, mas as decisões criativas frustrantes também afetam bastante o personagem do Nate Jacobs do Jacob Elordi.
Durante duas temporadas, Nate foi construído como uma das figuras mais perturbadoras, perigosas e complexas da televisão recente. Um personagem definido por violência, repressão emocional e sexual e manipulação e traumas familiares.
Entretanto, a terceira temporada parece suavizá-lo de maneira abrupta e se esquece propositadamente do que havia construído para o personagem anteriormente.
Não existe problema em mostrar crescimento. O problema é que a série não faz o trabalho necessário para justificar essa transformação pacifica do Nate. Em diversos momentos, o personagem parece uma pessoa completamente diferente daquela que acompanhamos anteriormente.
A narrativa sugere uma evolução emocional, mas nunca se dedica a explorá-la de forma convincente. Ao tentar humanizá-lo, acaba deixando de lado conflitos que mereciam ter uma melhor resolução. É um dos poucos momentos em que a temporada parece menos interessada em enfrentar as consequências do passado do que em seguir adiante.
E agora, vamos falar do polêmico arco de Cassie no OnlyFans, que por vezes me parece ter sido frequentemente interpretado da maneira errada.
Pois é um fato que a série constantemente apresenta Cassie como uma figura desesperada, perdida e cada vez mais refém da própria necessidade de validação, e o OnlyFans vem como uma ferramenta para aprofundar mais dos problemas de validação e afeto que ela tanto apresenta durante a série.
Ainda assim, existe uma contradição interessante. Embora a intenção dramática pareça ser mostrar a degradação emocional da personagem, a direção ocasionalmente cai na mesma armadilha que pretende criticar. Algumas cenas reforçam uma sexualização excessiva de Cassie que pouco acrescenta ao desenvolvimento da narrativa.
O aspecto mais controverso da história — os conteúdos inspirados em ageplay e na infantilização da personagem — funciona justamente porque é desconfortável. Porém, a própria premissa possui um grau de exagero deliberado. Na realidade, conteúdos que simulem menores de idade não são permitidos pelas políticas do OnlyFans.
Mas em contrapartida, há o mérito de que Levinson faz da plataforma uma hipérbole dramática sobre até onde Cassie está disposta a ir para transformar atenção em afeto.
O resultado é menos uma história sobre trabalho sexual digital e mais uma tragédia sobre autodestruição emocional. A série não trata Cassie como alguém empoderada por essas escolhas; trata como alguém que já não consegue distinguir amor, desejo, aprovação e humilhação.
Mas no fim, em uma indústria cada vez mais orientada por algoritmos, pesquisas de engajamento e demandas instantâneas das redes sociais, Euphoria continua sendo uma obra que parece existir porque alguém teve uma visão artística específica e decidiu segui-la até o fim.
Goste-se ou não do resultado, mas existe algo admirável nisso.
Pois a série se manteve leal desde o principio, é uma historia sobre pessoas quebradas tentando sobreviver até o próximo dia. Rue não encontrou felicidade. Cassie não encontrou validação. Nate não encontrou redenção.
E talvez seja justamente isso que incomode tanta gente.
Porque a terceira temporada se recusa a mentir para o espectador. Ela olha para seus personagens e diz algo simples: crescer não significa encontrar respostas. Às vezes significa apenas aprender a conviver com as cicatrizes.
A terceira temporada não entrega aquilo que parte do público queria.
Entrega aquilo que a série vinha prometendo desde o primeiro episódio. Não uma história sobre salvação. Mas uma história sobre sobrevivência.
E, goste-se ou não do resultado, Sam Levinson teve coragem de seguir essa visão até o fim.