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Benedito Ruy Barbosa morre aos 95 anos em São Paulo

Benedito Ruy Barbosa morreu por complicações renais após criar clássicos como Pantanal e O Rei do Gado.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
6 min de leitura

Benedito Ruy Barbosa fez do Brasil profundo uma novela eterna

A televisão brasileira perdeu nesta terça-feira, 7 de julho, um autor que transformou o interior do país em dramaturgia popular.

Benedito Ruy Barbosa morreu aos 95 anos, em São Paulo, após complicações de insuficiência renal crônica. Ele estava internado no HCor, onde recebia cuidados médicos.

O hospital informou que a morte ocorreu pela manhã. A instituição citou “complicações de insuficiência renal crônica” no comunicado enviado à imprensa.

O velório acontece no Funeral Home, na Bela Vista, região central de São Paulo. A cerimônia fica aberta ao público entre 15h e 16h, dentro da despedida marcada das 15h às 21h.

A morte encerra uma carreira que ajudou a definir a imagem da novela brasileira. Benedito escreveu histórias sobre terra, família, fé, amor impossível, imigração, poder político e memória rural.

O autor que levou o interior ao horário nobre

Benedito Ruy Barbosa nasceu em 17 de abril de 1931, em Gália, no interior de São Paulo. Cresceu em Vera Cruz, cercado por cafezais, imigrantes italianos e japoneses.

A infância virou matéria-prima. Antes de escrever sobre peões, fazendeiros, colonos e migrantes, ele ouviu causos, viveu o campo e conheceu a dureza de quem depende da terra.

O pai, Otávio Barbosa, tinha jornal, livraria e tipografia. Morreu jovem, aos 29 anos, e obrigou Benedito a trabalhar ainda menino para ajudar a sustentar a família.

Essa ligação com a palavra veio antes da televisão. Benedito trabalhou como jornalista, publicitário, revisor e roteirista antes de se tornar um dos autores mais conhecidos do país.

O primeiro grande passo artístico veio com Fogo Frio. A história nasceu após uma geada devastar cafezais no Paraná e depois chegou ao Teatro de Arena, com direção de Augusto Boal.

De Meu Pedacinho de Chão a Pantanal

Na TV, Benedito estreou nos anos 1960, ainda na TV Tupi, com Somos Todos Irmãos. A entrada na Globo ganhou força com Meu Pedacinho de Chão, exibida em 1971.

A novela tinha um caráter educativo e rural, algo incomum para a época. Também enfrentou cortes da censura durante a ditadura militar.

Depois vieram títulos que consolidaram seu nome no horário das 18h. Cabocla, Paraíso e Sinhá Moça mostraram que o interior podia sustentar romance, conflito social e identidade nacional.

Nos anos 1980, ele também assinou Os Imigrantes, na Band. A novela reforçou outra marca de sua obra: o interesse pela formação do Brasil a partir das famílias que chegaram ao país.

Mas Pantanal mudou o jogo em 1990. Exibida pela Rede Manchete, a novela que a Globo havia recusado virou fenômeno e obrigou o mercado a olhar para outra linguagem.

O ritmo era mais contemplativo. A câmera respirava com os rios, os animais, o silêncio e a paisagem. A televisão brasileira parecia descobrir que o país também cabia fora do estúdio.

A força de Renascer e O Rei do Gado

O sucesso de Pantanal abriu caminho para o retorno de Benedito à Globo. Em 1993, ele assinou Renascer, ambientada no universo do cacau na Bahia.

A novela misturou realismo, misticismo e melodrama familiar. Também reforçou a habilidade do autor em criar patriarcas marcantes, amores atravessados pelo tempo e disputas movidas por culpa.

Três anos depois, O Rei do Gado ampliou esse olhar. A trama uniu romance, política agrária, memória da imigração italiana e conflitos em torno da posse da terra.

A novela colocou o debate rural no centro do entretenimento de massa. Sem abandonar o folhetim, Benedito falava de sem-terra, violência no campo, herança e poder econômico.

Essa combinação explica por que suas novelas resistiram tanto. Elas tinham romance, vilania e catarse, mas também falavam de um Brasil pouco visto pela dramaturgia urbana.

O Brasil de Benedito continuou em novas versões

A obra de Benedito não ficou presa às exibições originais. Várias novelas ganharam novas versões, reprises e redescobertas no streaming.

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Cabocla voltou em 2004. Sinhá Moça ganhou remake em 2006. Paraíso retornou em 2009. Meu Pedacinho de Chão recebeu uma releitura visualmente ousada em 2014.

A família também preservou essa herança. As filhas Edmara Barbosa e Edilene Barbosa trabalharam em adaptações de obras do pai.

O neto Bruno Luperi assumiu a missão mais simbólica. Ele escreveu o remake de Pantanal, exibido em 2022, e depois adaptou Renascer para uma nova geração.

Essas versões provaram que Benedito não criou apenas sucessos de época. Ele construiu mundos reconhecíveis, com personagens que sobrevivem a mudanças de elenco, linguagem e horário.

Uma despedida que mobilizou a televisão

A notícia da morte provocou homenagens de artistas ligados à história da teledramaturgia. Tony Ramos, Osmar Prado, Maria Bethânia, Vanessa Giácomo, Zezé Mota, Cristiana Oliveira e Isabel Teixeira estiveram entre os nomes que lamentaram a perda.

A comoção faz sentido. Benedito criou papéis que marcaram carreiras e revelou talentos que atravessaram décadas na televisão brasileira.

Ele também ajudou a mudar o modo como a novela filmava o país. Suas histórias usavam cenas externas, paisagens naturais e sotaques regionais como parte da dramaturgia.

Essa escolha tinha consequência estética. O campo não aparecia como cenário turístico. Ele surgia como espaço de desejo, disputa, sobrevivência e tragédia.

Benedito escrevia sagas porque entendia a vida como permanência. Famílias brigavam por terras, amores atravessavam gerações e personagens carregavam feridas como herança.

Um legado que ultrapassa a novela

A trajetória de Benedito também cruza o futebol. Antes de eternizar fazendeiros e peões, ele escreveu Eu Sou Pelé, livro lançado em 1961 e reconhecido como a primeira biografia do Rei.

Esse detalhe combina com sua formação. Benedito vinha do jornalismo e sabia transformar personagem real em narrativa popular.

Na televisão, fez algo parecido com o Brasil rural. Ele não inventou o interior. Ele dramatizou memórias, contradições e afetos que muita gente reconhecia em casa.

Sua última novela inédita foi Velho Chico, exibida em 2016. A obra manteve a relação com rios, famílias, terra e imagens de um país profundo.

Com sua morte, a televisão perde um autor de voz própria. Benedito Ruy Barbosa deixa uma obra que ainda pulsa porque nunca tratou o Brasil como paisagem neutra.

Suas novelas tinham barro, reza, gado, café, cacau, rio, promessa e sangue. Tinham também melodrama sem vergonha de emocionar. Por isso, mesmo depois da despedida, o Brasil de Benedito continua no ar.

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