Xbox demite 3.200 funcionários e libera Ninja Theory, Arkane e mais três estúdios
Asha Sharma confirmou o corte de até 3.200 empregos na Xbox e a saída de cinco estúdios, incluindo Ninja Theory, Arkane e Double Fine, no maior reset da história.
O reset que todo mundo esperava se tornou oficial
Depois de semanas de vazamentos, rumores e reportagens especulativas, a Microsoft confirmou nesta segunda-feira, 6 de julho, o que a CEO da Xbox, Asha Sharma, descreveu como “a reestruturação mais significativa da história da Xbox”. Em memorando enviado aos funcionários, Sharma confirmou o corte de aproximadamente 3.200 empregos ao longo do ano fiscal de 2027, dos quais 1.600 já foram eliminados imediatamente. A divisão também vai se desfazer de cinco estúdios: Ninja Theory, Undead Labs, Compulsion Games, Double Fine Productions e, possivelmente, Arkane Studios.
O número representa até 20% da força de trabalho total da divisão de games da Microsoft. É a quinta rodada de demissões em toda a história recente da Xbox desde a aquisição da Activision Blizzard, e a primeira sob o comando de Sharma, que assumiu o cargo em fevereiro após a saída de Phil Spencer.
O que acontece com cada estúdio
Compulsion Games, criadora de South of Midnight, e Double Fine Productions, estúdio de Tim Schafer por trás de Psychonauts, vão se tornar independentes, mantendo a propriedade intelectual, catálogo e financiamento para seus próximos projetos. Ninja Theory, responsável pela franquia Hellblade, e Undead Labs, criadora de State of Decay, foram vendidas para compradores ainda não revelados, com os acordos ainda em fase de finalização.
O caso mais delicado é o da Arkane Studios, na França. Segundo Sharma, a liderança do estúdio francês começou a consulta obrigatória com seu conselho de trabalhadores, processo exigido pela legislação trabalhista francesa antes de qualquer decisão estrutural. Isso significa que o destino da desenvolvedora de Dishonored e Deathloop, incluindo o projeto Blade baseado no personagem da Marvel, ainda está em aberto entre fechamento, venda ou independência.
“Nosso negócio hoje não está saudável”
Sharma foi brutalmente direta sobre o estado financeiro da divisão. Segundo ela, a Xbox opera com margens de 3 a 10 vezes menores do que negócios comparáveis de plataforma e publicação. “Em um ano típico, perdemos 64 centavos para cada dólar que investimos”, escreveu a executiva. A aposta em Game Pass, multiplataforma e um portfólio de conteúdo mais amplo, segundo ela, criou valor real, mas não cresceu no ritmo esperado, enfraquecendo o núcleo do negócio ao mesmo tempo em que a empresa continuava adicionando equipes e investimentos na esperança de um resultado melhor.
A executiva também citou a atual crise de componentes de hardware, a mesma que já detalhamos extensivamente em cobertura anterior sobre memória e preços de consoles, como “a mais severa crise de hardware da história” enfrentada pela Xbox.
Uma reestruturação de três frentes
Sharma dividiu o plano de reset em três eixos. O primeiro é o portfólio de conteúdo, reconhecendo que a Microsoft expandiu agressivamente sua coleção de estúdios desde 2018, enquanto a produção mensal de jogos em toda a indústria já supera a última década combinada. “Não é possível nem desejável possuir todo grande estúdio independente”, escreveu.
O segundo eixo é a simplificação da plataforma. Segundo Sharma, em algumas partes da empresa o trabalho passa por até 14 camadas de gerenciamento, mesmo com as equipes de plataforma sendo 40% maiores do que no início da geração atual, apesar da base de jogadores e do tempo de jogo terem caído. A meta é reduzir as camadas de gestão para no máximo cinco, e onde possível, três.
O terceiro eixo é operacional: a Xbox está criando, pela primeira vez, um cargo de diretor de operações com responsabilidade total sobre conteúdo, hardware, plataforma e serviços. Helen Chiang, executiva com quase duas décadas de casa e ex-líder da Mojang e da franquia Minecraft, assume a posição e passa a responder diretamente a Sharma.
O que não muda, segundo a Xbox
Sharma foi enfática ao afirmar que nenhum jogo ou projeto de primeira parte anunciado publicamente está sendo cancelado como parte dessas reduções. Cortes acontecem em graus variados em Activision, Bethesda/ZeniMax, Blizzard, King, Mojang e Xbox Game Studios, mas sem cancelamento de títulos já confirmados publicamente.
Mojang e King passam a reportar diretamente a Sharma, reconhecendo o papel crescente das duas empresas como plataformas de jogadores ativos mensais, as maiores da Xbox atualmente. Segundo uma fonte da Variety, a Microsoft vinha “usando Minecraft como fonte de financiamento” para outros estúdios sem dar à Mojang o investimento necessário para crescer, um padrão que a reestruturação pretende corrigir priorizando franquias como Elder Scrolls e Minecraft como áreas de crescimento.
O contexto mais amplo do corte
Os cortes na divisão de games fazem parte de uma rodada maior de 4.800 demissões em toda a Microsoft anunciada na mesma segunda-feira, concentradas principalmente em vendas comerciais. Dave McCarthy, executivo com 17 anos de casa na Xbox, também está se aposentando como parte das mudanças de liderança.
Sharma encerrou o memorando com um tom de determinação apesar da dureza do anúncio: “Essas mudanças são sobre um futuro maior para a Xbox, não menor. A próxima década de games será maior, mais global e mais criativa do que qualquer coisa que já vimos. Este ano, vamos investir tanto na Xbox quanto sempre investimos, mas com mais foco, mais disciplina e mais clareza.” Ela projetou retorno ao crescimento da divisão em 2027, encerrando com uma frase que soa quase como desafio: “A história está cheia de empresas que confundem longevidade com inevitabilidade. Nós não seremos uma delas.”