Cinema

Crítica | Família de Aluguel é surpresa despretensiosa que merece ser vista

Delicado e comovente sem pesar no sentimentalismo, Família de Aluguel é uma agradável surpresa. Um filme que carrega ao mesmo tempo o senso de espetáculo familiar e despreocupado típico do cinema norte-americano e o tempero cultural de uma sociedade marcada pelo rigor e pelo equilíbrio frágil das aparências sociais, a comédia dramática co-roteirizada e dirigida […]

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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Delicado e comovente sem pesar no sentimentalismo, Família de Aluguel é uma agradável surpresa. Um filme que carrega ao mesmo tempo o senso de espetáculo familiar e despreocupado típico do cinema norte-americano e o tempero cultural de uma sociedade marcada pelo rigor e pelo equilíbrio frágil das aparências sociais, a comédia dramática co-roteirizada e dirigida pela realizadora Hiraki surge como uma alternativa de final de ano que deve agradar diferentes faixas etárias.

Na trama, Phillip Vanderploeg (Brendan Fraser) é um ator americano que vive no Japão e batalha por uma chance de um papel melhor na competitiva e altamente profissionalizada indústria audiovisual do país. Sem obter grande êxito, ele só consegue pegar papéis secundários e comerciais de TV que se aproveitam de sua aparência grandiosa e desajeitada de ocidental. Um dia, ele acaba aceitando um desafio diferente: interpretar uma espécie de “papel social” para uma agência de “aluguel de parentes” – um negócio que realmente existe no Japão há décadas e que busca suprir uma carência que parece se alastrar na sociedade do país, onde a dificuldade de comunicação, a necessidade constante de aceitação e status levam a uma demanda por preservar o teatro de aparências (pagando inclusive o preço de um serviço, como é o caso mostrado aqui).

Mas o que eles fazem é legal?

Para um brasileiro que assiste ao filme, certas perguntas ficam pairando no ar: estamos acostumados a uma criminalização crescente dos atritos sociais e tudo que a agência faz em Família de Aluguel soaria como crime no Brasil (fraude, falsidade ideológica, estelionato, etc.). O enredo, entretanto, não se aprofunda nesse aspecto, concentrando sua atenção no drama humano dos personagens, tantos os atores que interpretam papéis na vida dos clientes reais, quantos destes, que vão desde jovens que pretendem esconder a sexualidade da família até maridos adúlteros que contratam “falsas amantes” para consertar traições reais.

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Enquanto os colegas de Phillip parecem em paz com seu serviço, ele rapidamente se vê diante de dois dilemas, ao assumir uma falsa paternidade de uma garotinha e fingir ser um repórter escrevendo uma matéria sobre um ator veterano com demência progressiva. Nos dois casos, ele acaba por extrapolar seu papel e colocar em perigo o próprio profissionalismo ao se deixar levar pela empatia, com resultados que colocam em perigo o próprio negócio.

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O enredo praticamente “plana” sobre a superfície dos conflitos e dos personagens, mas – embora tal superficialidade pareça prejudicar o filme em sua primeira parte, quando a montagem picota situações e não permite que elas se desenvolvam a ponto de envolver a audiência – o drama ganha relevo e profundidade enquanto faz com que o teatro de todos os personagens vá se dissolvendo diante de nosso olhos, especialmente numa cena econômica mas bastante tocante do dono da agência em sua rotina com a própria “família”.

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O filme é leve sem ser banal

Brendan Fraser é o típico exemplo de superação hollywoodiana: um ator que foi astro em A Múmia, esteve praticamente fora do jogo e conseguiu se reinventar com A Baleia, escolhendo papéis como este, um drama delicado, tocante e que ultrapassa fronteiras. Seu tipo grandalhão e desajeitado confere o equilíbrio quase felliniano entre drama e comédia, despertando ora simpatia, ora uma graça sem jeito diante da qual é difícil se manter indiferente.

Família de Aluguel não é um grande filme porque a despretensão com que se debruça sobre os conflitos e os personagens dilui o peso da linguagem cinematográfica, de modo que não há nenhum momento de “invenção” (ou, se alguém preferir, “intervenção”) típica que caracteriza os melhores filmes. Por outro lado, é um retrato sólido (embora delicado) sobre uma sociedade conhecida pela gentileza e eficiência, mas que carece de autenticidade nas relações humanas, o que cria uma tensão latente e permanente na vida social e da qual Hiraki tira um fotograma ligeiro, mas ainda assim bonito de ser assistido.

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