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Crítica | Fargo: 4ª Temporada – Uma história de crime e imigração na América

Quando os historiadores e analistas da televisão voltarem os olhos para a década de 2010 em alguns anos, o destaque no ramo das séries de ficção provavelmente ficará em obras como Game of Thrones, Stranger Things, Better Call Saul e outros dramas de alto prestígio, seja no cabo ou no streaming. Mas, na opinião deste que vos escreve, nada foi tão gigante e perfeito quanto a série de antologia Fargo, do FX.

O projeto começou como uma simples adaptação/reinvenção do filme homônimo dos irmãos Joel e Ethan Coen, mas graças à genialidade do showrunner Noah Hawley, evoluiu para uma das séries mais originais, bem escritas e desafiadoras que a televisão americana viu em anos recentes. Foram 3 temporadas absolutamente magistrais, que contavam histórias diferentes dentro do mesmo universo, mas sempre com um olhar diferenciado – mantendo o humor satírico e outrora surrealista dos Coen, mas com seu próprio toque de originalidade. Uma quarta temporada nem estava nos planos de Hawley, que tem carta branca na emissora, então ao ver seu anúncio finalmente concretizado, eu já esfregava as mãos na expectativa de mais uma grande narrativa.

Porém, esta nova temporada de Fargo mostra que o raio não cai no mesmo lugar quatro vezes (já sendo algo admirável por se contar as três anteriores), sendo facilmente a coleção de histórias mais fraca e menos memorável que Noah Hawley já produziu na caixa de areia dos Coen. Ainda que, no fundo, ainda seja uma temporada sólida.

Mais uma vez retrocedendo no tempo, a nova temporada coloca a ação na Kansas City de 1959, onde a máfia italiana representada por Donatello Fadda (Tommaso Ragno) mantém uma trégua delicada com o sindicato afro-americano liderado pelo gângster Loy Cannon (Chris Rock). Quando o patriarca italiano é assassinado, seus imaturos e ambiciosos filhos, Josto e Gaetano (Jason Schwartzman e Salvatore Esposito) iniciam uma disputa para assumir o poder, ao passo em que uma guerra com a organização de Cannon se torna cada vez mais próxima. 

Um ano irregular, um elenco acertado

Adicione aqui uma inteligente escritora prodígio que mora na funerária dos pais e uma enfermeira psicopata absolutamente caricata, um policial mórmon com delírios de grandeza e um casal de foras da lei lésbico e temos uma ideia do que esperar do ano quatro de Fargo. No papel, parecem os ingredientes perfeitos para mais uma narrativa de erros e monólogos profundos, até mesmo porque o experimento anterior de Hawley com famílias mafiosas (na brilhante segunda temporada) havia sido um sucesso. Porém, Hawley demora para mostrar suas cartas dessa vez, deixando a impressão de que, ao longo dos mais de 10 episódios, não ter uma resolução em mente para a história.

A estreia da nova temporada ocorreu com um episódio duplo, onde somos apresentados de forma minuciosa e até um tanto arrastada para toda a dinâmica dos personagens e seus conflitos. E, desde o início, é uma proposta que parece demorar demais para entender seu próprio potencial. O vai-não-vai do conflito entre os Cannon e os Farda carece do mesmo texto rebuscado das temporadas anteriores, e ainda que eu saúda Hawley por tentar criar uma trama nova que não envolva “criminosos acidentais” e “forças da lei idealistas”, colocando aqui uma exploração bem-vinda sobre questões raciais na América; simplesmente não garante a empolgação e o estudo inteligente dos anos anteriores. Pode-se dizer que Hayley estava olhando mais para Ajuste Final do que Fargo dessa vez, onde a lenta tensão de uma escalada é o destaque, mas o resultado ficou abaixo do esperado.

As tramas em paralelo com a narrativa principal parecem correr em seu próprio ritmo e universo, tendo pouco em comum com o motte principal da série. A trama toda da enfermeira Oraetta Mayflower (Jessie Buckley, uma ladra de cenas) é divertida pelo carisma da atriz, e também pela circunstância mais intensa – principalmente quando se cruza com a inteligente personagem de Emyri Crutchfield, mas sempre surge como uma distração da narrativa principal, e que no final parece pouco justificado; especialmente com a bizarra presença de um “fantasma”.

Quando estamos lidando com os irmãos italianos, Jason Schwartzman mostra-se uma escolha equivocada, por trazer um ar de extrema imaturidade para Josto (por mais que seja a proposta, o resultado destoa demais dos demais personagens), ganhando mais fôlego quando o ótimo Salvatore Esposito, na pele da figura detestável que adoramos odiar. E por falar em antagonistas com essa característica, Timothy Olyphant personifica com gosto uma das inversões mais bem sacadas dessa nova temporada: o policial mórmon Dick Wickware, que assume uma postura muito mais clara de vilão, ao contrário dos heróis das temporadas anteriores.

Mas se havia um nome que certamente atraía atenção nesta temporada é o de Chris Rock, naquele que talvez seja seu papel mais desafiador e complexo. É um ótimo personagem, mas que infelizmente demora cerca de 3 ou 4 episódios para realmente mostrar a que veio, ficando mais à sombra do parceiro Doctor Senator (Glynn Turman, excelente) durante essa metade inicial. Quando a história permite que Loy Cannon brilhe, Rock certamente faz um bom trabalho, principalmente com momentos mais dramáticos e longos monólogos de negociação. Ainda assim, fica a impressão de que o ator poderia ter sido muito melhor aproveitado, assim como seu personagem.

Maestria técnica

Em termos técnicos, porém, a quarta temporada de Fargo talvez seja a mais bem resolvida. Adotando uma paleta de cores mais quente, mesmo tratando-se de um período de inverno, todos os episódios garantem soluções de câmera elegantes e sequências que vão desde homenagens a Os Intocáveis até a alguns filmes dos Coen, sendo divertido ver o plano onde um dos agentes de Cannon enforca um de seus inimigos da mesma maneira que o Anton Chighurn de Javier Bardem fez em Onde os Fracos Não Têm Vez.

E se há um episódio que merece destaque aqui é aquele que claramente podemos rotular como filler. Lá pelo final da temporada, o nono episódio, chamado East/West, impressiona pela fotografia em preto e branco melancólica e pelo tom fabulesco; acompanhando a fuga de Rabbi Milligan (Ben Whishaw) com seu protegido, o pequeno Satchel Cannon (Rodney L. Jones III) pelas estradas rurais do interior dos EUA. É um capítulo que foge totalmente das maquinações frágeis da trama mafiosa para se dedicar a um ótimo estudo de personagem e propor questões profundas com o humor nonsense dos Coen. Foi apenas ao longo desses 50 minutos, tivemos um episódio realmente à altura da reputação magistral de Fargo.

No fim, é difícil negar o sentimento de desapontamento em relação ao quarto ano de Fargo. Ao longo de suas 10 horas, temos uma trama competente e com um nível relativamente aceitável de surpresas e reviravoltas, mas nada que chegue aos pés da genialidade de Noah Hawley nas três primeiras temporadas.

Fargo – 4ª Temporada (EUA, 2020)

Showrunner: Noah Hawley
Direção: Noah Hawley, Michael Uppendahl, Dearbhla Walsh, Dana Gonzales, Sylvain White
Roteiro: Noah Hawley, Enzo Mileti, Scott Wilson, Francesca Sloane, Lee Edward Colston, Stefani Robinson
Elenco: Chris Rock, Jason Schwarztman, Jessie Buckley, Emyri Crutchfield, Ben Whishaw, Salvatore Esposito, Jack Huston, Andrew Bird, Anji White, Timothy Olyphant, Glynn Turman, Rodney L. Jones III
Gênero: Drama/Comédia
Episódios: 11
Emissora: FX
Duração: 40-50 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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