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Crítica | Fuja – Uma Nova Perspectiva para a Síndrome de Munchausen

Quando pensávamos que as histórias de suspense e de terror já não conseguiam trazer mais originalidade para um público ávido pelo novo, surge Fuja. O longa-metragem traz como premissa básica (e vista na incrível minissérie The Act) a Síndrome de Münchhausen, um transtorno fictício em que os indivíduos fingem ou causam a si mesmo ou a outrem doenças ou traumas psicológicos para chamar atenção ou simpatia a eles – criando sintomas com indução de toxinas, medicamentos e drogas para ganhar credibilidade por parte dos profissionais de saúde. Essa “tese”, por assim dizer, teve notoriedade ao colocar em foco a história de Dee Dee Blanchard, uma mulher que fez com que sua filha, Gypsy Rose, acreditasse que tinha as mais diversas doenças para depende unicamente dos cuidados da mãe – acabando num trágico assassinato fruto de uma vingança muito bem elaborada.

A história real foi transportada este ano para um escopo um tanto quanto mais diabólica e tensa com o longa-metragem supracitado, comandado por ninguém menos que o aclamado diretor Aneesh Chaganty. O nome pode não parecer familiar à prima vista, mas se você assistiu ao thriller Buscando…, sabe que Chaganty tem uma habilidosa mão para criar histórias envolventes a partir de panoramas clichês, por assim dizer – ora, ele até mesmo trouxe de volta a grandiosidade dos mockumentaries e dos found-footage com a obra estrelada por John Cho. Em sua segunda incursão cinematográfica, ele retorna com força inigualável, entregando apenas o que podemos entender como uma das melhores produções do ano e trazendo Sarah Paulson em uma das performances mais incríveis de sua carreira depois de American Crime Story.

Paulson dá vida a Diane Sherman, uma traumatizada mãe que dá vida a uma garota prematura chamada Chloe (Kiera Allen). Apesar da situação nada favorável, Chloe cresce e se torna uma inteligente garota – agora com dezoito anos e prestes a entrar para a faculdade. Versada em tecnologia e em robótica, ela é apaixonada pelo conhecimento, mas sofre de diversas mazelas: arritmia cardíaca, asma, hemocromatose (excesso de ferro no sangue), diabetes e paralisia – um cenário nada favorável, é claro; de qualquer forma, mãe e filha desenvolvem um laço inquebrável de empatia, amizade e amor, que transforma o pior em uma situação suportável dentro de seus limites. Entretanto, as coisas mudam quando Chloe encontra uma caixa de remédios com o nome de Diane numa sacola de compras – remédios que ela está ingerindo.

O trailer do filme entrega alguns pontos-chave da trama – algo que seria inaceitável em qualquer outra iteração. Entretanto, Chaganty, em colaboração ao seu parceiro de longa data, Sev Ohanian (com quem assina o roteiro), parece ter feito isso propositalmente, caminhando com cautela enquanto construía reviravoltas dentro de uma narrativa previsível, por assim dizer. Diane é uma mãe superprotetora que mantém a filha presa em uma jaula sem grades, não tirando os olhos de cada movimento que ela faz e até mesmo dando-lhe aulas em casa. Chloe não tem amigos, não tem contato com o mundo externo (nem mesmo as cartas ela consegue pegar em mãos, visto que a mãe sempre está lá na porta para tomar conta de tudo). Como já é de se esperar, tudo sai do controle quando uma série de eventos assombrosos colocam em xeque a confiança entre as duas mulheres e as coloca em uma luta pela sobrevivência.

A atuação impecável de Paulson não é nenhuma surpresa: ela conquistara nossos corações com suas múltiplas rendições na antologia American Horror Story, além de ter participado de produções como Ratched, 12 Anos de Escravidão e Oito Mulheres e um Segredo, sempre mostrando uma versatilidade aplaudível e um comprometimento com seus papéis que a colocaram num patamar honrável. Em Fuja, a atriz encarna uma das únicas vilãs da carreira, mergulhando em um arco de redenção e queda que entra em conflito explosivo quase o tempo todo – e motivo pelo qual transferimos nossa atenção para ela.

Entretanto, é Allen quem se destaca como a outra protagonista. A novata havia participado apenas de um curta-metragem intitulado Ethan & Skye, em 2014, fazendo sua grande estreia neste ano. Para um primeiro papel em um filme de calibre considerável, a jovem atriz entrega muito mais que o esperado e se delicia com uma complexidade apaixonante, fazendo bom uso de todas as camadas de uma personalidade que não sabe mais o que é real ou não. Chloe parece se sentir incompetente por não ter percebido que o carinho da mãe era, na verdade, uma máscara para todos os erros que ela cometera no passado; Diane havia perdido a filha prematura duas horas após o nascimento e, numa loucura extrema, roubara uma recém-nascida do berçário do hospital e induzira uma criança perfeitamente saudável a ter as mais diversas doenças, por um simples motivo: mantê-la dependente e sempre necessitada.

Como já mencionado, Chaganty abre espaço para fórmulas datadas e que premeditáveis, por assim dizer – e é isso o que ele almeja: sabemos o final dessa arrepiante história, sabemos que Chloe vai dar um jeito de escapar de uma tortura inconsciente que a transformou em um animal de estimação. Todavia, o que nos chama a atenção é a aprazível e tensa condução de cada uma das sequências – e de que forma a direção e o roteiro promovem uma metamorfose chocante de duas personagens que acreditavam ter tudo sob controle. As peças se encaixam perfeitamente e até mesmo trazem o talentoso Torin Borrowdale, de Locke & Key, para a composição da tétrica e dissonante trilha sonora.

Fuja tem os seus deslizes, mas não descarrilha em nenhum momento; pelo contrário, o thriller de suspense é uma garantia de que Aneesh e companhia não tiveram apenas sorte de principiante em sua estreia diretorial, servindo como lembrete de ficarmos de olho em um time de realizadores que ainda têm muito a nos contar.

Fuja (Run – EUA, 2020)

Direção: Aneesh Chaganty
Roteiro: Aneesh Chaganty, Sev Ohanian
Elenco: Sarah Paulson, Kiera Allen
Duração: 89 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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