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Crítica | Gotham – 1ª Temporada

nota-3,5

Estamos vivendo um boom de adaptações de super-heróis no mercado audiovisual. Não só o cinema orquestra gigantescos universos cinematográficos que visam viajar por diversos gêneros com seus personagens coloridos e sombrios, mas a televisão também vem criando algo que rapidamente tornou-se popular e com uma base de fãs fortíssima – e com seguidores mais fiéis, alguns diriam. A Marvel foi um passo além na escolha de unificar absolutamente tudo, incluindo suas séries na ABC, Agents of SHIELD e a finada Agent Carter, e suas adaptações sombrias e violentas de heróis urbanos na Netflix.

Já a DC tem algo mais próximo de um “multiverso”. Todas as séries da CW e FOX vivem seus respectivos universos isolados, sem conexão com a ainda pequena franquia cinematográfica que vem se montando com a entrada de Zack Snyder – o que ocasionalmente força a saída de núcleos e personagens da telinha, como o Esquadrão Suicida, por exemplo. Flash, Arrow, Legends of Tomorrow e agora Supergirl vão lentamente montando sua própria Liga da Justiça ali, enquanto outra série popular da DC vive em seu próprio mundinho separado: Gotham.

A ideia de uma série do Batman sem o Batman parecia estúpida. A noção de ter versões infanto-juvenis dos principais vilões do Cavaleiro das Trevas, pior ainda – já que as melhores encarnações do personagem exploram a ideia de que sua presença é o principal motivo pelo qual temos uma insurgência de vilões, como se fosse responsável por eles. Para se apreciar a série de Bruno Heller, é preciso ter em mente que estamos diante de um universo paralelo completamente aleatório, que vai tomar todas as liberdades artísticas possíveis e definitivamente não será para todos. A grande surpresa é que Gotham não é a porcaria que eu imaginei.

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Como poderia imaginar, a trama começa justamente na noite em que Bruce Wayne (David Mazouz) tem seus pais assassinados em sua frente, durante um assalto que contou com a jovem Selina Kyle (Camren Bicondova) como testemunha oculta. Paralelamente, acompanhamos o novato Jim Gordon (Ben McKenzie) acostumando-se à rotina do corrupto departamento da polícia da cidade, sendo designado a trabalhar com Harvey Bullock (Donal Logue), um tira com métodos pouco ortodoxos que apresenta Gordon ao submundo comandado por Fish Mooney (Jada Pinkett Smith) e sua guerra de gangues com as famílias mafiosas de Carmine Falcone (John Doman) e Sal Maroni (David Zayas).

São diversos núcleos que misturam-se em uma narrativa linear complexa para alguns personagens com a velha fórmula do caso da semana para os protagonistas, algo esperado quando estamos no gênero policial. Nesse sentindo, a melhor maneira de enxergar a série é como uma revistinha pulp barata. O conteúdo não é exatamente bom, ou executado da melhor forma, mas agrada justamente por esse aspecto capenga e às vezes tosco que Heller e seu time de roteiristas abordam. Por exemplo, como não torcer o nariz para um criminoso que executa suas vítimas ao amarrá-las em pequenos balões de hélio para fazê-los flutuar pela cidade ou um serial killer que acredita estar possuído pelo espírito de um cabrito. É uma mistura saudável e divertida do Batman de Joel Schumacher com o aspecto gótico de Tim Burton, mas com um nível de violência um pouco acima da média – o que torna a combinação ainda mais curiosa.

A estrutura de caso da semana é definitivamente o maior demérito da série, que se vê na necessidade de criar oponentes e tramas que até funcionariam com maior desenvolvimento (Ok, menos a do Homem do Balão, essa é imperdoável) caso tivessem mais tempo para serem trabalhadas, e o que temos no lugar é uma fórmula batida, clichê e que acaba sendo resolvida fácil demais com alguma pancadaria ou visitas aos pontos barra pesada da cidade. Isso só melhora após o décimo episódio, posterior ao hiato da série que retornou com uma narrativa mais centrada e focada em menos núcleos – o caso da semana agora se convertia em caso de “algumas semanas”, como a introdução ao Espantalho e o assassino Ogro, em uma boa performance de Milo Ventimiglia.

Mas o que nos faz suportar Gotham em seus piores momentos e nos empolgar naqueles mais bem sucedidos é o elenco e a caracterização de seus personagens. Mesmo sem o icônico bigode, Ben McKenzie é muito eficiente na construção de seu Jim Gordon. Mesmo sendo uma performance de uma nota só, o ator consegue captar e transmitir a bússola moral do personagem e a raiva interna que ocasionalmente lhe toma, na maioria das vezes por ser incapaz de combater a corrupção ou levar a melhor sobre seus superiores no departamento.

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Sua química com Daniel Logue também é um ponto alto, já que abraça o estereótipo do buddy cop de forma leve e engraçada, o que também se deve à performance fanfarrona de Logue – que surpreende quando os roteiristas lhe fornecem raros momentos dramáticos. Só fica difícil aguentar todo o núcleo romântico de Gordon com Barbara (Erin Richards), que acaba se levando a sério demais em um seriado que abraça o cartunesco. Se bem que a situação fica pior justamente quando os produtores resolvem inventar uma reviravolta completamente absurda e risível para a personagem, em mais um exemplo da reinvenção proposta por Heller. Felizmente, Gordon ganha uma subtrama amorosa mais interessante com a entrada de Morena Baccarin.

Quem surpreende aqui é Jada Pinkett Smith, dando vida a uma vilã inédita nos quadrinhos do personagem e que mostra-se uma das figuras mais perigosas e ameaçadoras da série, e a atriz claramente se diverte ao criar uma figura que constantemente ultrapassa a linha do over the top. Mas quem realmente se encaixa nesse perfil é o excelente Robin Lord Taylor, que entrega a versão em carne e osso mais carismática e memorável do Pinguim até hoje (não que seja difícil esquecer a encarnação idiota de Danny DeVito em Batman – O Retorno). Este Oswald Cobblepot em início de “carreira” garante os melhores momentos da série com seu núcleo que concentra-se na ascensão do sujeito no mundo criminoso, evocando até mesmo O Poderoso Chefão em seus momentos mais gloriosos, e Taylor domina cada cena em que aparece com sua mistura certeira de grotesco e excêntrico.

Ainda sobre jovens vilões do Morcego, vale destacar a incrível Camren Bicondova. Embora tenha meus problemas com ver uma Selina Kyle completamente formada e já experienciada mesmo quando criança, a performance energética e irônica da atriz é capaz de nos fazer aceitar a ideia, e o seriado ganha ritmo quando sua mini ladra gatuna está em ação. Outro destaque é Cory Michael Smith, que interpreta Edward Nigma antes de sua transformação no Charada, colocando-o como um isolado e tímido forense no departamento de polícia. Seu núcleo que envolve um difícil aproximamento com uma colega de trabalho começa tedioso, mas ganha proporções interessantes quando vemos os vislumbres de seu alter ego enigmático. Só poderiam diminuir os trocadilhos, claro. 

Temos também uma introdução duvidosa e confusa a um tal de Jerome que pode vir a se tornar o Coringa no futuro, e ainda que a série não saiba exatamente o que fazer com ele, Cameron Monaghan é uma revelação ao trazer a psicopatia e a risada maléfica de Jerome.

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Por fim, temos Bruce Wayne. Infelizmente, Heller não é muito hábil em como lidar com o personagem. Compreendo que isso é uma releitura e liberdades criativas são inevitáveis, mas realmente não há muito o que Bruce possa aprender antes do período em que viaja o mundo e aprende artes marciais de todos os tipos. Como a série dificilmente deixaria o garoto de luto durante todo o tempo, Bruce ganha um núcleo forçado onde tenta encontrar o assassino de seus pais e treinar seu corpo para se livrar do medo. É fraquíssima, mas vale para termos a interação de David Mazouz com Sean Pertwee, que faz uma das encarnações de Alfred Pennyworth mais divertidas e diferentes que já vi.

Tecnicamente, Gotham é formidável e ao mesmo tempo não. Mas isso faz parte do charme. O trabalho de design de produção da equipe é realmente fantástico por trazer a arquitetura gótica, colorida e ocasionalmente sombria (a paleta é quase sempre de filtro tungstênio) da era Tim Burton a um período temporal difícil de se identificar; nunca fica claro em que ano a série se passa, e as vestimentas, adereços e carros de época ajudam nessa confusão que torna-se atmosférica. Quando digo que “ao mesmo tempo não”, é porque a presença de efeitos visuais de preenchimento e cenários virtuais são perceptíveis, mas isso estranhamente torna a experiência mais característica e próxima da analogia feita com a revistinha pulp.

A fotografia é um departamento que também surpreende ocasionalmente. A paleta de cores frias e puxadas para o tungstênio acabam entrando em contraste com o amarelo e vermelho durante as cenas que envolvem o clube de Fish Mooney ou a aconchegante mansão de Bruce Wayne, garantindo um visual sólido para a série. Ainda que poucas, algumas cenas de ação são impressionantes pela simplicidade da coreografia e a direção certeira, principalmente quando temos T.J. Scott atrás das câmeras, vide a sequência de luta em contra luz que é uma grata combinação da luz de 007 – Operação Skyfall com a cenografia de Blade Runner: O Caçador de Andróides. Créditos também para Paul A. Edwards que trouxe um confronto claustrofóbico em uma trama levemente inspirada em Clube da Luta para o episódio que nos apresenta ao Máscara Negra.

Gotham é uma série beneficiada pelo cartunesco. Sem apelar demais ao camp ou ridículo que afundou a franquia de Joel Schumacher nos anos 90, a história é bem sucedida ao trazer boas encarnações de personagens consagrados e narrativas despretensiosas que são capazes de manter o interesse. Agora, o universo é tão bem estabelecido e atmosférico que eu queria mesmo era ver o Batman ali…

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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