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Crítica | A Grande Muralha

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Zhang Yimou é um dos maiores realizadores cinematográficos deste planeta. Isso é um fato. O consagrado diretor coleciona sucessos como O Clã das Adagas Voadoras, Herói, A Flor do Oriente, entre outros. Sem perder tempo e visando o massivo mercado chinês, a Universal convidou o cineasta para dirigir um blockbusters praticamente encomendado para a China, A Grande Muralha.

O épico de guerra acompanha a história de uma dupla de guerreiros, William e Tovar, que tentam a sorte nos desertos do oriente em busca de uma invenção mortal: a pólvora. Fugindo de ladrões, se deparam, por acidente, com a enorme Muralha da China. Entre morrer nas mãos dos perseguidores ante encarar o desconhecido, a dupla decide que é melhor ser capturada pela guarda da Muralha.

Porém, o que não imaginavam é que cairiam por acidente no meio de um confronto milenar entre guerreiros chineses contra uma legião de criaturas mitológicas que tentam quebrar a barreira da Muralha a todo custo a cada sessenta anos. Por séculos, os ataques continuaram repelidos, porém, desta vez, as criaturas estão mais inteligentes. Sem escolha, William e Tovar entram na batalha contra os monstros na tentativa de salvar o mundo.

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Como o Oriente Venceu

Apesar de ser uma produção americana, em maioria, A Grande Muralha tem características muito enfáticas do cinema chinês no gênero de filmes kung-fu. Essa identidade cultural certamente é refletida no trabalho dos diálogos escritos no tratamento do roteiro idealizado por seis cabeças – todas ocidentais. No caso, a inspiração pode ter saído pela culatra.

Em filmes antigos de kung-fu ou wuxia do cinema chinês dos anos 1950 persistindo até hoje, o trabalho com os diálogos sempre fora literal e muito cafona – apesar de ser uma obra-prima, O Tigre e o Dragão de Ang Lee é um exemplo clássico para comprovar essa característica tão peculiar ao cinema chinês.

Esse fato é estranhamente alocado aqui em A Grande Muralha. Por alguma razão, neste wuxia, os diálogos literais e cafonas estão restritos somente ao núcleo ocidental do filme, constituído por três personagens apenas. Enquanto temos diálogos pavorosos entre William e Tovar, interpretados roboticamente por Matt Damon e Pedro Pascal, os personagens chineses conversam com naturalidade e fluidez. Digo isso, pois é impossível não perceber o quanto o trato do texto com os heróis ocidentais é truncado com poucas réplicas e tréplicas que façam sentido.

Em seu argumento, até que a história se sustenta e é interessante – ainda que haja explicações descabidas para justificar a existência dos seres mitológicos. É um filme de batalha medieval bastante pré-formatado. Os seis roteiristas se esforçam pouco em criar um conteúdo original para o exótico local que se passa a ação.

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As poucas ideias originais poderiam ser creditadas facilmente para o diretor Zhang Yimou ou para os designers de produção. A principal delas é toda a diferenciação de patentes militares e funções no campo de batalha através dos belíssimos uniformes que exibem cores exuberantes que explodem na tela. Ou também sobre como as criaturas se comportam, além das estratégias militares de ambos os lados.

De resto, o núcleo ocidental inteiro poderia ser facilmente descartado, pois só consegue prejudicar o filme. O protagonista segue um desenvolvimento pífio de tão manjado que é: um arco clássico sobre lealdade e procura de identidade heroica ou um grande destino como um todo que acaba por prejudicar os planos originais de saquear a Muralha e seus tesouros com seu comparsa extremamente irritante – é impressionante o quão artificiais conseguem ser as cenas desses dois discutindo como comadres violentas.

Além dessas besteiradas, há o romance clássico de lei que não pode faltar nessas produções – mesmo que aqui seja somente pincelado. É bastante bizarro reconhecer que logo um filme de Zhang Yimou tenha esse trabalho deficitário na figura do herói já que em seus longas anteriores, o diretor se preocupava em construir esse arquétipo com precisão e qualidade cirúrgicas.

Enquanto o texto fracassa com os ocidentais, os chineses ganham o merecido destaque, afinal, é um blockbusters encomendado para o mercado deles. A heroína Lin Mae é uma ótima guia para o universo proposto para o filme e pela atuação levada a sério de Tian Jing e de todo o elenco chinês, o senso de urgência nunca sai prejudicado. Até mesmo com Lu Han, novato em filmes desse porte, as coisas saem bem. Seu personagem Peng Yong é facilmente um dos que mais provocam empatia pelo público. Mesmo falando pouco, o ator consegue expressar um medo muito autêntico pelas criaturas conseguindo se destacar entre a multidão. O perigo é real e imediato em A Grande Muralha e essa é sua melhor virtude.

Os orientais introduzem as filosofias de sua cultura e edificam o caráter do herói ocidental demonstrando sacrifício, honra, lealdade, paixão e altruísmo, além da moral do filme inteiro ser um discurso sobre a ganância. A ganância é martelada a todo momento, seja com as aspirações profissionais de um enviado do imperador, da elite chinesa, dos heróis que visam os espólios roubados, dos inimigos que querem tomar o mundo para si, etc. É um embate bem reducionista que jogando cada lado em extremos de luz e ignorância moral que comprova o quão desnecessário são os personagens ocidentais cujos conflitos somente emporcalham o filme. Para o restante dos chineses de destaque, cada personagem tem mini arcos que os distinguem entra a multidão. Nada muito original, mas bastante funcionais.

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A Arte da Guerra

Zhang Yimou é uma das mentes brilhantes do cinema chinês. Com talento impecável para o gênero antológico do kung-fu e também do wuxia, consegue fazer nítida diferença em A Grande Muralha, mesmo se valendo de um roteiro tão fraco antagônico a seus filmes anteriores.

Yimou começa mal com uma perseguição de cavalos e outros cortes rápidos durante um acampamento noturno, mas assim que o filme firma seus pés na Grande Muralha, as coisas se transformam.

O brilho desse filme realmente são as fantásticas cenas de batalha que, embora não possuam muita lógica quando pensadas na completa extensão da muralha, são de deixar qualquer um boquiaberto. A construção de cena para a primeira batalha (que também é a melhor), é estupenda. Diversos planos riquíssimos mostram tropas com incontáveis figurantes marchando e se preparando para a luta. Yimou também aposta no mistério da função do esquadrão azul que sobem em pranchas diretamente acima do campo de batalha.

Detalhes de arqueiros, dos atiradores das catapultas escondidas em níveis inferiores da Muralha, de guerreiros de espadas e lanças, etc. Yimou cobre todas as patentes de soldados para conferir um senso único de união, organização e sincronia sobrenaturais para combater as criaturas. Tão logo, já foca no comandante que dispara ordens através do som ritmado dos tambores tão bem incorporados na trilha musical estupenda Ramin Djawadi.

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Assim como sabe usar o som para elevar a expectativa que é correspondida com as ótimas coreografias de luta, Yimou também usa momentos silenciosos para gerar ápices de suspense bastante superlativos. Apesar das grandiosas batalhas na Muralha serem curtas e poucas, também há surpresas no clímax do filme que mostram uma quantidade massiva de criaturas em tela – aliás, os efeitos visuais aqui são formidáveis.

Enquanto Yimou tenta abaixar a brutalidade das lutas quando os humanos são mortos pelos bichos, o mesmo não acontece quando são os demônios que são destroçados, explodidos, mutilados e incendiados. O diretor se preocupa com essa violência e com diferentes abordagens em cada batalha para que o filme nunca se torne repetitivo. Toda vez há alguma novidade fotográfica, estratégica ou de arquitetura para manter a atenção do espectador. E funciona. Apesar das atuações canastronas de Damon e Pascal, A Grande Muralha praticamente nunca perde seu fôlego. Tudo tem a duração adequada que transformam esse filme em uma obra leve, divertida e bastante despretensiosa.

Yimou apenas falha (ou acerta) ao inserir alguns lances totalmente esdrúxulos em algumas pancadarias como um segmento onde Pascal atrai um monstro com movimentos de toureiros. É difícil saber se essa obra se leva a sério ou não por conta de momentos como esse.

Aliás, impossível não comentar uma curiosidade. É interessante ver Yimou embarcando com uma obra que, apesar de ser um wuxia graças aos malabarismos dos bungee jumps sensacionais das lanceiras, não é um filme kung-fu em geral. É um épico de guerra como há muito não se via – desde As Duas Torres e sua maravilhosa batalha do Abismo de Helm.

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O Jogo dos Extremos

Em diversos momentos da obra, tentando me decidir se levava o filme a sério ou não, me deparava com o pensamento paradoxal: esse filme é extremamente estúpido, mas também é genial. Buscando na memória recente, consigo afirmar com certa segurança que nunca havia pensado que isso fosse possível além dos gêneros de filmes trash ou spoof. Eis que A Grande Muralha também consegue essa célebre conquista em oscilar entre opostos tão extremados.

Zhang Yimou salva um roteiro medíocre e preguiçoso de jogadas tontas em centrar a trama no ponto de vista ocidental. Salva através de cenas de ação absurdas de belas, bem coreografadas com manejo de câmera ímpar. Entre os muitos pensadores honestos sobre cinema, há uma grande verdade que paira o fazer desta arte: o tesão. Sem a menor sombra de dúvida, A Grande Muralha é uma obra criada pelo tesão em entregar o melhor espetáculo visual possível. E atingiu este nirvana com sucesso.

Obs: se possível, veja em IMAX. O formato faz uma tremenda diferença para o som retumbante e do poderio visual massivo que esse filme possui.

A Grande Muralha (The Great Wall, China, EUA – 2017)

Direção: Zhang Yimou
Roteiro: Carlo Bernard, Doug Miro, Tony Gilroy, Max Brooks, Edward Zwick, Marshal Herskovitz
Elenco: Matt Damon, Pedro Pascal, Tian Jing, Willem Dafoe, Andy Lau, Hanyu Zhang, Lu Han, Kenny Lin, Eddie Peng
Gênero: Wuxia, Ação, Épico Medieval, Guerra,
Duração: 103 minutos.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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