A produção de House of Cards é uma das mais conturbadas da televisão contemporânea, e isso não vem desde sua estreia ainda em 2013. Pelo contrário, os inúmeros problemas começaram a aparecer quando Kevin Spacey, intérprete do protagonista Frank Underwood, foi acusado de inúmeros casos de abuso sexual que datavam da década de 1980 e se estendiam até mesmo para dentro do set de gravações da série. E é claro que, com a onda de denúncias acerca de vários nomes da indústria cinematográfica, o ator perdeu o papel principal e foi obrigatoriamente afastado da sexta temporada, cultivando uma grande dúvida acerca do último ano do show: qual seria o próximo passo?

É claro que o criador Beau Willimon encontraria um jeito de sustentar a história por mais alguns episódios até o aguardado series finale. Afinal, para aqueles que não se recordam, o cliffhanger da assustadora quinta temporada trazia a figura de Claire Underwood (Robin Wright) realizando um golpe contra seu marido e assumindo a presidência dos Estados Unidos, tornando-se a primeira mulher no comando da gigantesca potência. É claro que, comparando com as investidas anteriores, o ano passado tornou-se uma miscelânea de subtramas esquisitas e bizarras que contradiziam todo o teor político-dramático da proposta do seriado. Entretanto, caso o público não levasse os episódios tão a sério, era possível se divertir com as atuações e com os diálogos carregados de clichês e travestidos com um palavreado erudito como se realmente significasse algo de importante.

A verdade é que um dos shows mais polêmicos da Netflix já deveria ter encerrado. E isso apenas se comprova com mais irrefutabilidade com a chegada da sexta iteração – uma infeliz e trágica resolução que não faz jus ao que House of Cards representou durante esses seis anos. E não, o problema não reside na saída de Spacey, mas sim na falta de tato com os personagens e com as tramas. Desde o primeiro episódio fica claro que os roteiristas e diretores brincam com suas zonas de conforto, copiando tendências que funcionaram no passado e desconstruindo-as em meio a arcos previsíveis e monótonos. De fato, se as primeiras temporadas, por mais complexas que fossem, conseguiam nos manter presos através de sua construção técnico-artística (iniciada com o aplaudível nome de David Fincher), é justamente essa minúcia que deixa de existir. Em outras palavras, acompanhar a última saga Underwood é um trabalho árduo e passível de desistência a cada minuto que passa.

Logo no episódio de abertura, Claire sente as pressões de se tornar a primeira presidente mulher. Ainda que receba apoio de certa parte dos cidadão norte-americanos, ela também é alvo de ameaças e, em meio a tantos comentários preconceituosos, mantém uma postura exemplar frente aos obstáculos que constantemente surgirão. Seguindo o mesmo padrão de seu ex-marido, agora morto, ela tem – ou ao menos acha que tem – aliados ao seu lado, materializados na figura de Mark (Campbell Usher), seu vice. Entretanto, conforme a história se desenrola, percebemos que as figuras mais próximas são as que, na verdade, estão apenas usando-a como meios para um fim.

O problema é que nada disso funciona, em momento algum. A premissa, já utilizada por outras temporadas, poderia mergulhar sem medo em uma perspectiva original, talvez focando nos atributos manipulativos de Claire e reafirmando de diversos modos como ela conseguiu chegar à presidência, contrariando seu papel como esposa e primeira-dama e orquestrando um belíssimo golpe contra seu próprio ex-companheiro. Mas, como já mencionado, a safezone fala muito mais alto e não deixa espaço para explorações interessantes, nem mesmo em relação à atuação. Wright parece perder seu brilho em meio às pressas das tramas, e rende-se a uma canastrice sem precedentes. Caso prestemos bastante atenção, é quase possível vê-la empurrar a personagem com a barriga.

Um ou outro diálogo conseguem se salvar, e isso se dá mais pela construção imagética que por qualquer coisa. Através de certos maneirismos que retornam aos anos de glória do seriado, a atmosfera coercitiva e pungente é resgatada em quase toda sua completude. Porém, ao invés de se manter, ela se perde em meio a uma arquitetura intangível e informal demais para que passe a veracidade de uma esfera política. E isso não se mantém apenas no plano visual, mas também abre margens para sequências presunçosas e risíveis: em determinado ponto, a presidente encontra o anel de Frank em seu quarto e o coloca, apenas para “mostrar o dedo” para a câmera numa quebra da quarta parede extremamente forçada. É claro que a ideia aqui era muito mais profunda do que dera a entender, mas a falta de nexo dentro do escopo narrativo transforma um promissor ápice em uma decadente rendição.

Talvez a figura que mais chame a atenção seja Duncan Shepherd (Cody Fern), filho de Annette (Diane Lane) e sobrinho de Bill (Greg Kinnear). Ao que tudo indica, o legado do ex-presidente não terminara, deixando certos acordos a serem finalizados, principalmente com a família Shepherd. Bill se mostra acolhedor para a nova governante dos Estados Unidos, mas depois revela suas reais intenções, chegando a protagonizar, indiretamente, uma das parcas delineações catárticas. Entretanto, ele e Annette retornam aos convencionalismos e dão espaço para Fern mostre mais uma vez sua versatilidade: de fato, sua performance é interessante e revela um comprometimento máximo com a caracterização de seu personagem além de representar um papel muito importante para a ameaçada fluidez da temporada.

House of Cards finalmente encontrou sua ruína, a qual vinha sido premeditada há bastante tempo. O problema é que o show transformou-se em uma convulsão de falsas promessas e voltou a se levar a sério, tentando sem sucesso resgatar o que outrora a colocou em um patamar considerável. É triste, porém é a verdade: a jornada dos Underwood acabou.

House of Cards – 6ª Temporada (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Beau Willimon
Direção: Alik Sakharov, Ami Canaan Mann, Stacie Passon, Ernest Dickerson, Thomas Schlamme, Louise Friedberg, Robin Wright
Roteiro: Melissa James Gibson, Frank Pugliese, Charlotte Stoudt, Sharon Hoffman, Jerome Hairston, Tian Jun Gu, Jason Horwitch
Elenco: Robin Wright, Michael Kelly, Diane Lane, Campbell Scott, Patricia Clarkson, Cody Fern, Constance Zimmer, Boris McGiver, Derek Cecil
Emissora: Netflix
Episódios: 08
Gênero: Drama político
Duração: 55 min. aprox.

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