No começo, John Wick (ou De Volta ao Jogo, no Brasil) parecia mais uma curiosidade divertida e bem executada. Keanu Reeves como um matador aposentado que inicia uma onda de vingança sanguinolenta após a morte de seu cachorro. O experimento dos ex-dublês Chad Stahelski e David Leitch se tornou um fenômeno, com a franquia crescendo em uma ótima continuação e agora com John Wick 3: Parabellum; resultando em mais uma trilogia para Reeves após o sucesso de Matrix.

Porém, como acontece em boa parte das trilogias, Parabellum é o capítulo mais fraco e inconsistente da franquia. Não que isso signifique que o filme seja ruim, de forma alguma, já que o grande atrativo da franquia – as cenas de ação absurdamente bem executadas – permanecem impecáveis.

A trama do terceiro filme começa imediatamente após os eventos de Um Novo Dia para Matar, com John Wick (Reeves) se preparando para a onda de matadores que virá a seu encalço, já que foi excomungado da Alta Cúpula após matar um de seus membros no hotel Continental – violando a única regra da misteriosa organização. Enquanto tenta sobreviver a assassinos espalhados por toda a cidade de Nova York, John embarca em uma jornada misteriosa que pode resultar na anulação de seu contrato e garantir sua sobrevivência.

Mitologia divisiva 

O grande barato do segundo filme de John Wick foi a forma como expandiu sua mitologia de forma criativa e envolvente. Parabellum segue essa linha, ao passo em que explora a premissa um tanto limitada de termos uma caçada a John Wick em Nova York – limitada, mas não menos empolgante. O problema do roteiro de Derek Kolstad, Shay Hatten, Chris Collins e Marc Abrams é que a narrativa dá voltas em um caminho sinuoso e desnecessariamente complicado. A busca de John no primeiro ato da trama faz sentido, mas culmina em uma revelação besta em uma péssima cena com o personagem de Said Taghmaoul, que representa o líder da Alta Cúpula.

Mas há boas exceções. A maior delas fica com a personagem de Anjelica Huston, uma antiga mentora de John que toca uma academia de dança que serve de fachada para uma escola de assassinos. Grita por um derivado próprio, ainda que traga lá seus ecos de Operação Red Sparrow e a origem da Viúva Negra, de Os Vingadores. E nunca é ruim rever os carismáticos personagens de Ian McShane e Laurence Fishburne (este último em um nível de intensidade maravilhoso), e também ver que o cordial Lance Reddick é capaz de entrar em ação de forma admirável.

As decisões dos roteiristas no ato final de Parabellum também mostram-se indecisas. A lealdade de John é testada algumas vezes, apenas para que alguns personagens revelem uma natureza oposta e que não condiz com suas respectivas personalidades – de certa forma, parece que Stahelski quis usar o choque pelo choque, ao mesmo tempo em que prepara um inevitável quarto capítulo da franquia.

Ação boa pra cachorro

Mas sejamos francos. Não é pelo roteiro que ninguém está interessado em John Wick, e tampouco é a proposta da franquia de ação. O que realmente importa em Parabellum são as cenas de ação, e é empolgante ver como Chad Stahelski, Keanu Reeves, o diretor de fotografia Dan Laustsen e os incansáveis membros das equipes de dublês literalmente quebram novo chão para apresentar sequências inéditas e que raramente vemos no gênero. Todas as cenas de lutas corporais contam com o habitual absurdo e estilização da franquia, com Stahelski apostando em planos longos e no “cansaço” de seus personagens, além de apostar mais na violência – vide a batalha envolvendo facas e aquela em que John é constantemente arremessado em uma decoração de vidro.

O nível da franquia aumenta quando a personagem de Halle Berry entra em jogo. Uma antiga aliada de John, Sofia traz um excelente monólogo dramático (Berry ainda tem a habilidade) e conta com o auxílio de dois pastores-alemão ferozes nas cenas de ação, rendendo uma cena realmente especial; quando os dois trabalham juntos para escapar de uma emboscada em Marrocos, e meu queixo simplesmente foi para o chão quando vi os cães literalmente saltando no ar para abocanhar braços de capangas e salvar seus “donos” de balas perdidas. É simplesmente impressionante, e mostra que esta é a franquia “pet friendly” mais casca grossa que há.

Em todas essas sequências, a câmera de Stahelski se mostra sempre ágil e inteligente na forma como preserva planos abertos; especialmente na cena dos cachorros. A sequência dos motoqueiros armados com katanas é prejudicada pelos efeitos visuais evidentes, mas o estilo de Stahelski prevalece. E por falar em estilo, a fotografia de Laustsen garante um dos filmes mais deslumbrantes do ano, principalmente pela seção que mantém John em uma Nova York chuvosa e iluminada pelo neon, reforçando o cerco que se fecha a seu redor. Mas é mesmo no clímax, quando estamos em uma sala construída inteiramente de vidro transparente (que por si só merecia um Oscar de Design de Produção), que a ambição dos envolvidos realmente impressiona. É uma maravilha de se olhar.

Ainda impressiona

Por mais que não alcance a precisão de seus dois capítulos anteriores, John Wick 3: Parabellum garante mais um espetáculo na condução das cenas de ação mais impressionantes do ano. Keanu Reeves se mantém no controle de mais uma franquia de sucesso, e que – apesar de algumas decisões de história questionáveis – seguem nos mantendo interessados nesse mundo; e em seu letal protagonista.

Agora, quando teremos aquele derivado sobre os cachorros mesmo?

John Wick 3: Parabellum (John Wick: Chapter 3 – Parabellum, EUA – 2019)

Direção: Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad, Shay Hatten, Chris Collins e Marc Abrams
Elenco: Keanu Reeves, Halle Berry, Ian McShane, Mark Dacascos, Laurence Fishburne, Asia Kate Dillon, Anjelica Huston, Lance Reddick, Said Taghmaoul, Jerome Flynn, Randall Duk Kim
Gênero: Ação
Duração: 130 min