nota-4,5

Quando perguntam sobre o que se trata um filme de Richard Linklater, é muito fácil dar a impressão de termos uma produção vazia e flácida durante a resposta. Se eu disser que uma série de filmes gira em torno de um casal conversando o tempo todo, pode parecer maçante e sem graça, até o momento em que nos deparamos com a trilogia de Antes do Amanhecer. Se eu disser que um filme gira em torno de adolescentes enchendo a cara e trocando ideia por uma noite, pode parecer só mais um besteirol americano, mas é Jovens, Loucos e Rebeldes. E se eu disser que um filme todo simplesmente acompanha o crescimento de um garoto, estamos diante de Boyhood – Da Infância à Juventude.

Nessa lógica, para quando perguntam sobre o que os filmes de Linklater são, a resposta mais verdadeira e apropriada é uma só: vida. São histórias centradas em personagens, emoções e como o mundo as afeta, e o cineasta é um dos melhores na arte de capturar essa pureza naturalista. Não fosse por ele, Jovens, Loucos e Mais Rebeldes!! seria apenas um filme qualquer, mas é algo mais especial do que poderia (e deveria) ser.

Batizado pelo próprio Linklater como uma “sequência espiritual” para Jovens, Loucos e Rebeldes (como a tradução nacional literalmente nos escancara), o filme nos apresenta ao jovem Jake (Blake Jenner), recém saído para começar a vida acadêmica em uma universidade no Texas. Chegando lá, ele conhece seus colegas de fraternidade e inicia os treinos para sua posição como jogador de beisebol para a faculdade, ao passo em que conhece as maravilhas das festas e a confraternização universitária – tudo a alguns dias do início das aulas.

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É muito parecido com a atmosfera de Jovens, Loucos e Rebeldes, servindo sim como uma espécie de continuação – afinal, o início da vida universitária é um tema tão interessante quanto o fim do colegial. Então, partimos da magia de Linklater de tornar o cotidiano e ordinário tão interessantes e humanos. Vemos Jake fortalecendo laços com seus amigos, discussões sobre quais festas ir, quais mulheres paquerar e tudo o que poderíamos esperar de um universo jovem assim. A prosa de Linklater permanece inteligente, mas mantendo uma linguagem realista e que se aproxime do mais mundano possível.

Não que isso não dê a oportunidade de Linklater explorar seu viés mais poético, já que um dos melhores núcleos do filme é quando Jake conhece a aluna Beverly (a ótima Zoey Deutch) e inicia uma série de flertes e diálogos de walk and talk que remetem diretamente às deliciosas conversas de Ethan Hawke e Julie Delpy na trilogia do Antes. São momentos de leveza, diversão e excelente química entre Jenner e Deutch, que nos faz desejar observar aonde essa história culminará após os créditos começarem a subir.

As cenas de Jake com os amigos são as mais engraçadas, especialmente pela diversidade de festas que o grupo acaba frequentando. De boates típicas dos anos 80 até house parties que, como de costume, saem do controle além do esperado e bailes em rodeios e uma bizarra festa à fantasia do grupo de teatro, são situações divertias das quais Linklater tira muito proveito, principalmente pela força de seu elenco. Além de Jenner, o elenco quase que predominantemente novato se sai muito bem, com destaque para J. Quinton Johnson como Dale, Juston Street como o surtado Jay e Glenn Powell como o fanfarrão Finnigan. E ainda que não seja exatamente um novato, Wyatt Russell garante um dos personagens mais interessantes e inesperadamente melancólicos como Willoughby.

Outro aspecto importantíssimo do filme – assim como em quase todas as obras do diretor – é o uso brilhante de uma trilha sonora incidental nostálgica e vibrante. Já vemos no título original (Everybody Wants Some!) a canção famosa do Van Halen, e o filme segue essa linha musical evocativa e digna do “original”, que pode-se orgulhar de ter uma das melhores seleções musicais do cinema americano. Aqui, o filme já começa no 220 com o uso memorável de “My Sharona”, do The Shack e ainda traz Pink Floyd, Kool & The Gang, Frank Zappa, Dire Straits entre muitos outros. Ótima playlist.

É difícil analisar um filme onde praticamente “nada acontece”. A técnica de Richard Linklater não é inovadora ou particularmente criativa, mas Jovens, Loucos e Rebeldes!! é uma experiência envolvente e divertidíssima graças à humanidade dos personagens e do fantástico roteiro.