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Crítica | LEGO Ninjago: O Filme – O Primeiro Tropeço da LEGO nos Cinemas

Uma hora, titãs caem. Não demorou muito para o império cinematográfico da LEGO se consolidar. Com apenas dois sucessos fenomenais como Uma Aventura LEGO e Lego Batman: O Filme, a Warner a empresa dinamarquesa de blocos de montar conseguiram mostrar como é possível retrabalhar clichês para contar ótimas histórias.

Rapidamente, viraram uma das franquias mais lucrativas de animação dos últimos anos, além da boa média crítica. Porém, com LEGO Ninjago: O Filme temos a primeira reviravolta neste cenário até então otimista. A linha Ninjago da LEGO foi uma grande febre no começo dos anos 2010 conseguindo até mesmo emplacar diversos seriados da marca explorando as aventuras do sexteto de ninjas Kai, Jay, Cole, Lloyd, Nya e Zane sob a tutela do mestre ninja Wu.

Assim como Bionicle, a LEGO provava que suas novas ideias rendiam lucros exorbitantes, além de permitirem explorar culturas fora do padrão ocidental e dos brinquedos licenciados de outras marcas. Logo, não demoraria nada até a LEGO e a Warner investirem em uma produção cinematográfica dessa linha.

Ao contrário dos outros dois filmes, Lego Ninjago entra sorrateiramente, escondido sob a névoa de outro lançamento importante que já resenhamos: Kingsman – O Círculo Dourado. Quando nem o marketing se anima em vender o filme, podemos prever que algo não está indo bem. E de fato, Lego Ninjago é uma experiência medíocre.

Oportunidade Perdida

Outrora, os pontos mais altos dos filmes LEGO eram seus roteiros repletos de sacadas rápidas, nenhum medo do ridículo, além da subversão de expectativas pelo uso do nonsense, além de contar boas histórias. Lego Ninjago teria esse grande potencial não fosse a quantia assustadora de pessoas que assinam seu roteiro: nove, incluindo dois dos três diretores da obra: Paul Fisher e Bob Logan.

Apesar de não ser a regra, é costumeiro que filmes escritos por muitas mãos tendam a resultar em obras de baixa qualidade e bastante fragmentadas mostrando a condensação quebradiça das várias ideias do texto.

Infelizmente, desse clichê, Lego Ninjago não consegue se safar ou revolucionar seu uso. O filme, na verdade, começa mal, bem mal, se assemelhando a obras B infantis dos anos 1990. Em uma clara concessão para exibir a imagem de Jackie Chan explicitamente, somos apresentados a um jovo ordinário entrando em uma antiga loja orienteal de mistérios – sim, como em Gremlin. Lá esse jovem deprimido por não ter amigos encontra Jackie Chan que se põe a contar a história da lenda de Ninjago.

Um prólogo completamente desnecessário e sem-graça que consegue quebrar a imersão do filme, pois os diretores tratam a imagem da cena como se tivesse consciência de quem Jackie Chan é e representa. Passada essa interrupção desnecessária, o verdadeiro filme começa do modo que está na moda em blockbusters contemporâneos: com pressa, muita pressa.

Rapidamente conhecemos o conflito primordial do nosso protagonista, Lloyd, o ninja verde líder do sexteto de ninjas protetores de Ninjagos. Ele é filho do grande vilão Garmadon que vive dentro de um vulcão localizado a poucos metros das praias da cidade. Diariamente, Garmadon ataca Ninjago na tentativa de dominar a cidade, mas sempre é derrotado pelos ninjas. Lloyd, portanto, tenta conciliar sua vida normal na qual todos o odeiam por ser filho do vilão mais temível da cidade, enquanto treina secretamente com seus únicos amigos, os outros cinco ninjas, e seu tio, Mestre Wu, para salvar a vida dos cidadãos de Ninjago.

Ao contrário das outras obras que se valem de clichês para nos surpreender com ótimas sacadas, Lego Ninjago conta uma história clichê. Lloyd é clássico arquétipo do personagem ovelha negra que todos odeiam. Porém, estranhamente, o filme não nos joga em uma clássica jornada do herói como em Uma Aventura LEGO.

Aqui, Lloyd já é um grande ninja e atua diariamente para salvar a cidade das garras de seu pai, o vilão Garmadon – uma relação bastante engraçada que salva o filme do desastre completo, principalmente pela mimese mais realista do jogo de paternidade bizarro visto com Luke Skywalker e Darth Vader.

Tudo que envolve o vilão carismático realmente é ótimo e muito divertido. A comédia praticamente só funciona quando ele está em cena. Já a maioria dos outros personagens, não possuem muito propósito ou mini arcos de desenvolvimento. Já são apresentados ao estilo tosco de Esquadrão Suicida e possuem pouquíssima relevância na narrativa, não auxiliando o herói em praticamente nada. Fica bem claro que o propósito de todos os personagens ao longo de toda a história é voltado para o desenvolvimento e venda de playsets.

Aliás, este talvez seja o principal problema de Ninjago: é um filme claramente feito sob demanda do contratante. Logo, mesmo que seja uma produção caprichada visualmente, sentimos uma grande falta de interesse da equipe em realizar algo notável, pois é uma obra extremamente segura e antiquada, com piadas óbvias e muitas vezes repetitivas.

Até mesmo Jackie Chan como Mestre Wu é pouco aproveitado com presença mínima em tela. Há também uma característica peculiar de Lego NInjago ser dois filmes em um. E isso nos leva para o próximo tópico.

Quando nem a paródia funciona

A primeira metade de Lego Ninjago exibe com clareza a falta de vontade dos nove roteiristas em fazer um mínimo de trabalho de pesquisa para trabalhar com boas paródias. Nota-se, evidenteamente, que a equipe dos ninjas e seus mechas tem inspiração clara em grupos super sentai e de seriados tokusatsu, além de uma inspiração nos clássicos Godzilla dos filmes japoneses.

Enquanto a identidade visual disso é bem absorvida, nunca temos a paródia em ação ou o alvorecer de um humor inteligente – um deslize tanto da direção quanto do texto. Nem mesmo o lado dos filmes kung fu do cinema chinês é aproveitado com Mestre Wu, um desperdício completo. Já com Garmadon, vemos uma fissura clássica de vilões de seriados super sentai, aliado com a paródia de Com 007 só se Vive Duas Vezes por conta do antagonista ter seu covil maligno localizado no interior de um vulcão, além da sua relação com seus generais numerados. Detalhe: a trilogia Austin Powers também tem influência nessa paródia bem-sucedida.

Porém, o filme sofre uma reviravolta em seu miolo que coloca o roteiro em novos rumos de jornada clássica motivada por um mcguffin. Nem mesmo assim, vemos Lloyd e seus amigos ganhando mais contorno ou relevância tanto que Garmadon se torna uma presença necessária para salvar os atos restantes que também não conseguem injetar frescor algum na trama além de flashback contando a história do vilão.

Entretanto, mesmo assim, essa segunda metade é vastamente superior à primeira por enfim dar uma chance da trama desacelerar e conseguir dar mais personalidade para os personagens – em particular, o ninja robô de gelo, Zane, é um desastre completo. 

Aliás, é curioso notar que a versão dublada do filme sofre com piadas localizadas que não funcionam. Isso é uma surpresa visto que a dublagem brasileira tinha superado a original nos outros longas. Em um cinema lotado de crianças e adultos, raramente pude ouvir um entusiasmo vindo do público como acontecia com frequência nos dois anteriores.

Da parte técnica, é evidente que temos uma produção bastante caprichada em temos de efeitos e animação. Mesmo que os diretores não explorem muito a cidade em si e seus interiores, é possível notar todo o cuidado criativo aplicado no design dos cenários e da cidade em si. Com poucas sacadas e expressividade na condução do filme, o trio também se comporta de modo pouco inspirado apenas comportando a linguagem cinematográfica bê-à-bá. Não há experimentações com metalinguagem e quebra de regras como outros diretores já haviam feito antes. Porém, quando os bons momentos finalmente surgem, os diretores sabem como valorizar isso, incluindo o clímax emocional do filme. Aliás, o sentimento de pressa é reverberado por conta de alguns efeitos serem realizados apenas em computação gráfica convencional. Por exemplo, explosões, espirros de água e fumaça agora não são mais feitos com as tradicionais pecinhas do brinquedo como acontecia nos dois filmes anteriores.

O Bloco mais Fraco

Lego Ninjago: O Filme é um filme falho que não consegue viver a altura de seus predecessores. O desperdício de boas ideias é realmente cruel com este filme que esbanja potencial para criar uma franquia por si só. Perturba notar que o longa não consegue dialogar bem com as características autorais que estavam fazendo esses filmes tornarem-se verdadeiramente memoráveis.

De certa forma, fica a impressão da equipe criativa não ter assistido as obras anteriores ou de que estavam sob um controle criativo tão rígido da produção que o resultado saiu como sempre acontece nesses casos: uma obra sem identidade que conta uma história banal que o público já está cansado de engolir, além de uma falta de cuidado com 80% dos personagens do filme.

Excetuando a grande graça que é ver a animação dos bloquinhos LEGO, a trilha musical, algumas sacadas visuais e Garmadon, não há muito o que apreciar verdadeiramente aqui. Apenas um filme comum e tranquilo que os pais podem levar as crianças sem a menor pretensão de assistir a algo que provavelmente já tenham visto antes. É como dizem… o terceiro filme é sempre o pior. Nem mesmo desse clichê, Lego Ninjago consegue se safar.

LEGO Ninjago: O Filme (The LEGO Ninjago Movie, EUA, Dinamarca – 2017)

Direção: Charlie Bean, Paul Fisher, Bob Logan
Roteiro: Bob Logan, Paul Fisher, William Wheeler, Tom Wheeler, Jared Stern, John Whittington, Hilary Winston, Dan Hageman, Kevin Hageman
Elenco: Jackie Chan, Dave Franco, Fred Armisen, Kumail Nanjiani, Michael Peña, Abbi Jacobson, Zach Woods, Justin Theroux, Olivia Munn
Gênero: Animação Infantil, Comédia, Aventura
Duração: 100 minutos

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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