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Crítica | Lion: Uma Jornada para Casa

A ida e a volta de um indivíduo por suas origens.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
15 de fevereiro de 2017 · 5 min de leitura
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Crítica | Lion: Uma Jornada para Casa

Inspirado no livro auto biográfico, “A Long Way Home” (2012), “Lion – Uma Jornada Para Casa” conta a história do autor, Saroo Brierley, que se perdeu da família biológica aos cinco anos de idade e vinte e cinco depois tenta encontrá-los.

Lion é um filme de estrutura pautada sempre em pares e dividido em duas metades. É sobre a ida e a volta de um indivíduo por suas origens. Na primeira parte, passada na Índia, Saroo (Sunny Pawar) é um garoto de família pobre e, junto ao irmão mais velho Guddu (Abhishek Bharate), tenta de tudo para conseguir trocados que complementem na renda de casa. Desde ajudar a mãe no trabalho pesado de carregar de pedras, até roubar carvão em trens de carga e, sempre com bom humor, Saroo almeja o dia em que poderá comprar os apetitosos jalebis. Numa noite, Guddu vai à área movimentada da cidade para trabalhar e leva o pequeno consigo, que acaba se perdendo, entrando num trem errado e indo parar na grande Calcutá, há cerca de 1600 km de sua cidade. Por algum tempo vive na rua até que vai parar num orfanato, porém, é incapaz de dizer de onde veio e acaba indo para a fila de adoção, sendo então levado por uma família da Austrália.

Saroo mais velho (o vencedor do Bafta 2017 Dev Patel, de Quem Quer Ser um Milionário? e Chappie) abraçou a nova cultura. Somos apresentado a um homem forte e saudável saindo da água trajando roupas modernas de surf, uma cena que reforça sua metamorfose plena. Ele fala com sotaque australiano e até diz torcer no críquete para seu país de criação ante o biológico (ambos são rivais no esporte). Seu alter ego juvenil é um estranho para si mesmo, até que, numa festa de amigos, suas lembranças reprimidas são reativadas ao defrontar-se com uma porção de jalebis. O herói, então, sente o vazio de uma vida inteira deixada para trás. Ele ouve os gritos de desespero de sua mãe que perdeu um filho e de Guddu procurando-o na estação de trem.

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As duas histórias caminham paralelas. Na Índia do jovem Saroo, tudo que a falta de dinheiro esvazia, é preenchido com o amor que une sua família e o cuidado que um tem pelo outro. Apesar da vida ser mais difícil, é muito mais simples. O próprio tom desse ato é mais leve e tem menos diálogos – todos no idioma local (hindu), evitando ocidentalizações. O diretor, inclusive, diz que inspirou-se muito na animação Wall-E (2008) para contar essa história e sabe como captar a inocência e ingenuidade no olhar do jovem Sunny Pawar. Por outro lado, nos anos posteriores, a segurança financeira da casa é garantida. A instabilidade é emocional, já que o problemático irmão mais velho Mantosh (Divian Ladwa) – também adotado e indiano – sofre de algumas psicoses e aptidão por más decisões, causando situações que tiram o sono da mãe (Nicole Kidman). Saroo vive bem, mas assim que se depara com o vácuo dentro de si por causa da perda de suas origens, começa a desmoronar. Há dois momentos de perdição para o personagem principal e são justamente quando ele perde a figura que o guia. Na primeira metade é Guddu, na segunda, a namorada interpretada pela sempre ótima Rooney Mara (A Rede Social e  Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres). São princípios paralelos e opostos ao mesmo tempo.

A partir do ponto que sua memória reativa-se pelo olfato, Saroo passa a lembrar-se da infância na Índia. Ele não sabe o nome da cidade, mas enxerga uma caixa d’água na estação de trem e, usando de uma “nova descoberta” tecnológica, o Google Earth, Saroo inicia sua busca. Sozinho, assim como no final da outra metade do longa-metragem.

A relação do personagem principal com alguns coadjuvantes, como seu irmão e pai adotivos, é mal investigada, mas a ligação que Saroo estabelece com suas mães, ou seus suportes (Guddu e a namorada) atinge profundidade íntima necessária, compensando.

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O diretor estreante Garth Davis tem mão muito segura na condução da trama. Ainda que aplique uma estética básica de construção narrativa, ele não deixa pontas soltas, nem subestima o telespectador, evitando explicações literais. Tudo flui bem e é fácil de digerir, mas é um filme comercial, afinal começa com um picote de paisagens e termina com uma música pop feel good para que o público consiga se recompor rapidamente do final comovente. A trilha, melosa e enjoativa na maior parte – principalmente nos momentos enternecedores –, ganha temperos vibrantes e distinto quando mescla elementos indianos na composição.

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Garth Davis dá a entender que tem plena noção da proposta do filme e cuidou para que o tom fosse leve. Por mais que seja gostoso de assistir, o público não pode permitir-se a desatinar em choro, pois o drama não se estende por tempo o suficiente. No final, só algumas lágrimas bastam para absorver Lion e preencher o vazio que somos levados a sentir junto com Saroo Brierley.

Lion: Uma Jornada para Casa (Lion, EUA, Austrália, Reino Unido – 2016)

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Direção: Garth Davis
Roteiro: Saroo Brierley, Luke Davies
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara, Sunny Pawar
Gênero: Drama biográfico
Duração: 118 minutos

Escrito por Rodrigo de Assis

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Tags: #Biografia #Cinema #crítica #Dev Patel #Diamond films #Lion: Uma Jornada para Casa #Nicole Kidman #Oscar 2017 #Rooney Mara
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