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Crítica | Mank – Muito além do Cidadão Kane

Mank é um retorno formidável de David Fincher para os longa-metragens, ainda que seja um filme difícil de absorver sem que o espectador

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
21 de novembro de 2020 · 7 min de leitura
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Crítica | Mank – Muito além do Cidadão Kane

Já faz 6 anos desde que o cineasta David Fincher nos agraciou com um novo filme nos cinemas, no caso o excepcional Garota Exemplar. Durante todo esse longo tempo (uma eternidade para os cinéfilos fãs do diretor), Fincher se aproximou ainda mais da Netflx, gastando cartuchos nas elogiada série de serial killer Mindhunter e a antologia de animação Love, Death + Robots. Mas, convenhamos, o cinéfilo não quer ver David Fincher em séries – por mais boas que sejam. Precisamos de filmes de David Fincher.

Sem sair de sua confortável e libertadora posição criativa na Netflix, o cineasta traz um de seus projetos mais diferenciados e pessoais até então: Mank, um filme que nasce do desejo antigo de seu pai, Jack Fincher, em contar a história por trás do roteirista de Cidadão Kane, um dos maiores clássicos da História do Cinema. E por mais que existam diversos filmes sobre bastidores de outras obras da Sétima Arte, o longa de Fincher é um experimento bem mais radical, preferindo focar-se em como pedaços de uma vida dão luz ao processo criativo de uma história própria.

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Contada de forma não linear, a trama acompanha o esforço de Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) para escrever o roteiro de Cidadão Kane a mando do prodígio Orson Welles (Tom Burke), que prepara sua grande estreia em Hollywood. Lutando contra o tremendo alcoolismo, Mank vai se lembrando de períodos de sua vida que trarão inspiração para o texto, como a turbulenta eleição para governador em 1934 e sua relação com o magnata da imprensa, William Randolph Hearst (Charles Dance).

Um dos fatores que tornam Mank um projeto ainda mais interessante, além da suficientemente apetitosa premissa de “David Fincher faz um filme sobre Hollywood”, é o fato de que seu roteiro foi escrito por Jack Fincher há anos atrás – e o mesmo faleceu sem nem ao menos saber se seu trabalho veria a luz do dia. É seu único trabalho registrado como roteiro, e a julgar pelo resultado em tela, Jack Fincher teria tudo para ser um dos grandes roteiristas de sua geração: todos os diálogos são primorosos, repletos de referências, sátiras e construções sonoras de causar inveja a Aaron Sorkin: é um recorte impressionante da época, passando pelos sempre divertidos trâmites de estúdios, relações pessoais e uma dose gigantesca de intrigas politicas.

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O mais interessante é observar como Fincher está bem menos interessado em ver as câmeras de Cidadão Kane rodando, tanto que o próprio Orson Welles tem um tempo de tela assustadoramente reduzido (uma pena, visto que Tom Burke está sensacional), mas sim no processo criativo do protagonista para levar suas ideias à tela. A estrutura não-linear, que é derivativa do longa de 1941 – e fica ainda mais dinâmica com a inserção de cabeçalhos de roteiro na tela -, é um mapa para como as peças da vida de Mank foram sendo colocadas no texto que originaria o filme de Welles; e é claro que ter o conhecimento prévio sobre Cidadão Kane torna a experiência mais completa, já que nenhum dos dois Finchers vai apelar para o didatismo.

A grande surpresa, que pessoalmente vi como o grande demérito da obra, é o quanto Mank está interessado na eleição governamental da Califórnia em 1934, quando o republicano Frank Merriam derrotou o democrata (e assumidamente socialista) Upton Sinclair. São passagens longas e que dependem muito de um conhecimento prévio do contexto para um aproveitamento melhor, e que sinceramente parecem distrair o foco da narrativa principal – e por mais que o montador Kirk Baxter seja um mestre em seu ofício, não é difícil sentir o tempo movendo-se de forma mais arrastada durante essas cenas. De forma similar, o roteiro aposta em um arco melancólico para um membro da indústria aqui e que, por tempo de cena e posicionamento tardio, não tem nem metade do impacto que almeja,

Isso é uma pena, já que o texto poderia ter aproveitado muito mais o impacto da vida de William Randolph Hearst no processo de Mank, até porque há uma história bem mais interessante aí. Inclusive, fica a sugestão do documentário A Batalha por Cidadão Kane, um complemento essencial para compreender muitas das sutilezas do projeto.

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Mank: Voltando no tempo

Em questões técnicas, Mank é um triunfo absoluto. Quando falamos sobre perfeccionistas em Hollywood, certamente não há um profissional mais detalhista e até obcecado do que David Fincher, famoso por seguir a tradição de Stanley Kubrick de fazer múltiplas tomadas de uma mesma cena. O que vemos em Mank é uma perfeita recriação do visual, estilo e até sons de um longa metragem que seria lançado entre as décadas de 30 e 40, sendo capaz de provocar uma imersão admirável, e que poucos filmes que apostaram nessa ideia nostálgica foram capaz de atingir.

Trocando o habitual diretor de fotografia Jeff Cronenweth por Erik Messerschmidt, com quem trabalhou na série Mindhunter, Fincher adota uma paleta em preto e branco que aposta forte no alto contraste e até mesmo em imperfeições da imagem – obtidas através de filtros na pós-produção, já que o diretor é um dos raros anti-película na indústria. Dessa forma, Messerschmidt cria uma série de imagens emblemáticas que ajudam na imersão dos períodos de época e também nas homenagens visuais a Cidadão Kane, como na cena em que a mão de Mank derruba uma garrafa de vidro no carpete, emulando a icônica cena de abertura do filme de Welles.

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O visual é um trabalho notável e que todos podem literalmente enxergar, mas é preciso uma atenção especial a toda a área sonora de Mank. Diferentemente de todas as produções lançadas atualmente, o longa de Fincher aposta na exibição do som em formato mono (ou seja, uma única camada de som, diferentemente do padrão stereo, com até 7 camadas), algo que o sonoplasta Ren Klyce usa para garantir o “feel” de um filme dos anos 40. E eu jamais imaginei uma trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross que fosse totalmente orquestral e sem os sons eletrônicos habituais da dupla, mas o resultado é absolutamente vibrante e atmosférico, capturando uma essência de jazz e big band de forma memorável.

E, considerando o trabalho meticuloso de direção de Fincher, naturalmente temos um elenco afiadíssimo. Gary Oldman é o destaque mais evidente, e que é capaz de garantir uma imagem magnética e imprevisível para seu colorido protagonista, trazendo bons toques de humor ao retratar seus ataques espalhafatosos de embriaguez, e aquele envolvendo uma metáfora a Dom Quixote talvez seja o destaque absoluto de toda a projeção. Toda a ala coadjuvante também brilha, com um excelente Arliss Howard capturando a fanfarronice do presidente da MGM, Louis B. Mayer, Charles Dance exibindo a postura dominante de Hearst e uma carismática Amanda Seyfried como a emblemática Marion Davies, uma das figuras mais importantes no processo de criação da história de Cidadão Kane.

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O Rosebud de David Fincher?

Mank é um retorno formidável de David Fincher para os longa-metragens, ainda que seja um filme difícil de absorver sem que o espectador faça uma boa “lição de casa” sobre o período e suas referências. Apesar de uma narrativa outrora distraída, é uma perfeita recriação de época e um estudo de personagem fascinante, carregado por um elenco perfeito e uma técnica irretocável.

Mank (EUA, 2020)

Direção: David Fincher
Roteiro: Jack Fincher
Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Charles Dance, Lily Collins, Tom Burke, Arliss Howard, Tuppence Middleton, Tom Pelphrey, Toby Leonard Moore
Gênero: Drama
Duração: 131 min

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Tags: #Amanda Seyfried #Arliss Howard #Charles Dance #David Fincher #Gary Oldman #Lily Collins #Mank #Netflix #Tom Burke #Tom Pelphrey
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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