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Catálogo

Crítica | Meu Pé Esquerdo – Daniel Day-Lewis é apresentado para o mundo

Uma atuação que fez um filme mediano se tornar histórico.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
9 de fevereiro de 2018 · 8 min de leitura
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Em algum ponto da sua vida cinéfila alguém comentou sobre Daniel Day-Lewis, provavelmente o maior ator vivo de cinema que a Sétima Arte já recebeu em sua História. Famoso por sua dedicação fervorosa e esgotante para todos os papéis que aceita encarnar, Lewis é tratado como uma lenda viva. Aguardamos por seus filmes para ver um espetáculo de interpretação que poucos conseguem oferecer.

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O primeiro papel que acabou lhe rendendo o Oscar e, também, o apresentando para o mundo e Hollywood veio de uma pequena produção irlandesa: Meu Pé Esquerdo. Retratando a difícil vida do artista plástico Christy Brown, portador de severa paralisia cerebral, Lewis conseguiu cravar o filme na História do Cinema. Porém, desde 1989, a arte evoluiu bastante e, dependendo da visão de determinado diretor, o tempo pode ser bastante cruel com o trato cinematográfico da obra. Será que Meu Pé Esquerdo é um filme completo ou apenas lembrado pela incrível atuação de Day-Lewis?

Estrutura desestruturada

O longa é baseado na própria obra autobiográfica de Christy Brown, contando os detalhes da sua vida e todos os desafios que teve de superar para conseguir sair do anonimato e livrar sua família da miséria. O responsável pela adaptação do texto foi Jim Sheridan, também diretor da obra – na verdade, este é seu primeiro filme.

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Escolhendo uma abordagem que deveria ser facilitadora do processo narrativo, Sheridan nos apresenta a Christy momentos antes dele receber um prêmio que simboliza todas as suas conquistas como pintor e escritor. Enquanto espera para sua grande entrada, Christy conversa com uma nova cuidadora que se dispõe a ler seu livro enquanto passa o tempo com o debilitado artista.

Nisso, somos apresentados a uma estrutura não linear, recheada de flashbacks, para contar a vida de Christy Brown desde seu nascimento. E já aqui fica claro os enormes problemas que o longa sofre. Sheridan, ao fragmentar a narrativa, prefere abordar tópicos clássicos da vida comum de todos nós como: bullying, contato com a fé, desilusões amorosas e relações familiares.

Tendo que incrementar o básico aliado à característica principal sobre a superação da deficiência torna o longa, de alguma forma, bastante desleixado com os assuntos tratados. Não nos aprofundamos na relação de Christy com seus muitos irmãos e tampouco com seu pai, uma figura misteriosa que não sabemos muito se há o mérito de empatia ou desprezo, já que o personagem é bipolar.

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São diversas situações que são estabelecidas e encerradas sem qualquer cerimônia ou qualquer sentido de conclusão. Isso acontece muitas e muitas vezes no longa, tratando o íntimo de Christy como se fosse algo descartável. Sheridan basicamente falha em notar a alma do filme que, por vezes, se faz notada de modo absoluto.

Há lampejos de genialidade no texto que tornam Christy e sua família mais complexos e com mais personalidade do que apenas às que o roteirista tenta manufaturar. Basicamente, são três segmentos. Um deles é focado quando o menino consegue salvar a mãe, mesmo com os movimentos tão limitados de seu corpo e depois não receber nenhum crédito e ser tratado como imbecil pelos vizinhos. O segundo, também na infância, mostra a primeira palavra que Christy escreve com um giz no piso da sua casa, com o auxílio do único membro que ele tem pleno controle: o pé esquerdo.

O momento final que apresenta de modo cru e potente o drama do longa também traz a melhor cena de Day-Lewis no papel. Em um jantar entre convidados importantes, Christy revela seus sentimentos para a médica que passa a tratar dele. Com uma inesperada rejeição, o protagonista tem um triste acesso de fúria, tentando mostrar aos outros que é alguém normal, uma mente brilhante presa em um corpo quebrado e, por isso, fadado a uma convivência depressiva da solidão.

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Em momentos de puro amargor em contraste com outros tão doces que trazem o melhor da força e amor de sua mãe em sucessivas batalhas diárias, o filme se perde bastante ao apresentar conflitos sem resolução ou na morte abrupta de alguns personagens.

O que mais falta ao roteiro de Me Pé Esquerdo é coesão narrativa. Na pressa de contar uma história incrível, atingiram apenas uma visão resumida, próxima do superficial e sem foco da vida de Christy Brown.

A Arte que Move Montanhas

Não é exagero quando falam que Daniel Day-Lewis é um monstro da atuação. O ator simplesmente consegue carregar Meu Pé Esquerdo nas costas. É fácil notar o tremendo esforço físico que Lewis passou para encarnar Christy Brown e todas as tremedeiras e posições desconfortáveis que ele ficava por conta da paralisia.

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Não somente pelo retesamento dos músculos tão atrofiados e inquietos, mas também pelas expressões faciais bastante tortas e da fala débil muito embolada. Aliás, o desenvolvimento da fala ao longo das cenas é algo fantástico de ser visto. Lewis encarna diversos estágios da vida de Christy, incluindo a adolescência na qual ele ainda não conseguia falar de modo que todos conseguissem compreendê-lo. É espetacular. Lewis realmente colocou esse filme no mapa por conta de sua atuação que desperta a curiosidade de muitos espectadores.

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Porém, não há somente mérito dele no longa. Supreendentemente temos um elenco muito afiado, com destaques para Brenda Fricker e Hugu O’Connor que interpretam a mãe e Christy Brown enquanto criança, respectivamente. Aliás, O’Connor certamente merece mais crédito que recebe, pois toda a atuação entre ele e Lewis é muito consistente. Os dois tornaram esse Christy Brown em uma pessoa real e repleta de emoções.

Na direção, temos também Jim Sheridan, enfrentando o primeiro trabalho como diretor que teria na vida. E, apesar de uma indicação surreal ao Oscar como Melhor Diretor, Jim Sheridan não é nenhum visionário. Talvez em 1989, se comportando no trata estético 8 ou 80 da década, Meu Pé Esquerdo fosse um primor técnico. Mas hoje, passa muito longe disso.

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Assim como pessoas, filmes envelhecem, já que a linguagem visual e a identidade estética estão em constante mudanças ao decorrer das décadas. Alguns longas conseguem ser tão apurados que resistem ao tempo, se mantendo impecavelmente obras-primas como é o caso de dramas como Um Estranho no Ninho ou …E o Vento Levou. No caso desse daqui, o tempo não foi nada gentil: Meu Pé Esquerdo é uma peça mais velha do que aparenta ser.

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Como de praxe em trabalhos de diretores que não apostam muito em seu próprio cacife em projetos de estreia, Sheridan deixa o visual em escanteio, temendo fazer besteira. Isso não se diz apenas nos pobres cenários e da direção de arte totalmente desinteressante, mas também no trato da decupagem do longa que mais parece uma telenovela britânica de pouca qualidade.

Majoritariamente presa em closes e planos próximos, Sheridan nunca deixa o filme respirar direito com planos mais abrangentes. Fixando a câmera em um ponto do cenário, respeitando um eixo único tirado de peças teatrais, temos então o passeio visual em planos que mostram as reações dos personagens diante dos acontecimentos. De modo imóvel, não há espaço para a câmera receber um uso mais delicado ou criativo. Aqui o visual é rudimentar.

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Mas, claro, sempre há a possibilidade de superinterpretar essa assinatura visual antipática de Sheridan ao definir que o diretor quis deixar a câmera tão imóvel quanto o protagonista. Porém, como diversas vezes temos mudanças de ponto de vista dentro das cenas, claramente não é esse o propósito.

Sheridan, obviamente, consegue caprichar no trato com os atores. O trabalho de direção de elenco é excepcional conseguindo trazer à tona toda a emoção que ele não consegue gerar através das imagens. Aliás, esse é o principal problema da direção em Meu Pé Esquerdo: não há momentum cinematográfico. Ou seja, a decupagem não trabalha a favor da emoção dos fatos. Tudo é frio e engessado.

Esse modo gélido de direção é notado também pelos cortes bizarros da montagem em pontos que parecem importantes de primeiro momento. Não há uma transição mais delicada ou poética para os fatos, tudo é na base do corte seco. Isso acaba conseguindo nos distanciar ainda mais do assunto retratado, apesar dos esforços de Day-Lewis em tentar deixar o espectador apaixonado pela vida de Christy Brown.

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Com o Pé Direito

Daniel Day-Lewis conseguiu um pico artístico em Meu Pé Esquerdo e esse não seria apenas seu primeiro trabalho de deixar todos embasbacados pela sua qualidade incrível ao encarnar personagens dificílimos. Porém, por mais que seja muito agradável ver um trabalho exemplar, o mesmo não pode ser dito para o filme em sua maioria.

Com problemas notórios e constantes em direção e roteiro, Meu Pé Esquerdo é apenas um bom drama, mas muito aquém de seu verdadeiro potencial. Talvez, no futuro, a história de Christy Brown seja revisitada dando a chance de outras pessoas brilharem em um agridoce drama de superações e desafios de diversas naturezas. Um bom drama acompanhado de uma das maiores atuações do Cinema.

Meu Pé Esquerdo (My Left Foot, Irlanda, Reino Unido – 1989)

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Direção: Jim Sheridan
Roteiro: Jim Sheridan, Shane Connaughton, Christy Brown
Elenco: Daniel Day-Lewis, Brenda Fricker, Fiona Shaw, Hugh O’Connor, Kirsten Sheridan, Ray McAnnally
Gênero: Drama biográfico
Duração: 101 minutos.

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Tags: #Daniel Day-Lewis #Fiona Shaw #Jim Sheridan
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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