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A Disney segue por intensa reformulação apostando em caminhos cada vez menos ortodoxos e audaciosos. Zootopia e Detona Ralph são bons exemplos de como o estúdio está procurando mais diversidade em suas animações, seguindo abordagens diversificadas próximas as da Pixar. Desde a Renascença, período marcado pelos sucessos do estúdio nos anos 1990, a Disney ousou em explorar outras culturas que fugissem da sua ênfase em obras inspiradas por contos anglo-germânicos europeus.

Os novos ares árabes, africanos e orientais renderam histórias magnificas como Mulan, O Rei Leão e Aladdin. Com Moana é a primeira vez que vemos a Disney visitar a Polinésia. A escolha combina com a vertente ousada dos diretores Ron Clements e John Musker, os responsáveis pela princesa afrodescendente de A Princesa e o Sapo, pegando a temática riquíssima de Nova Orleans.

A dupla traz toda a exuberante cultura do arquipélago do sul do Pacífico para ilustrar uma história cheia de cores explosivas e bons significados.  Moana inicia assim como qualquer outro conto de fadas da era de ouro do estúdio: através da longa exposição sobre a mitologia e do evento base que moverá toda a jornada, em flashback.

A Odisseia de Moana

Maui, um semi-deus, rouba uma pedra mística que oferece vida para todas as ilhas do Pacífico. Porém, ao fazer isso, o herói condena toda a vida do arquipélago em uma onda de corrupção e podridão agressivas que destroem tudo o que há pelo caminho. Antes de reparar seu erro fatal, Maui é exilado e a pedra some no fundo mar.

Anos depois, na ilha Motunui, Moana, ainda bebê e filha do líder da tribo, é escolhida pelo Mar para salvar toda a Polinésia da corrupção ameaçadora. Porém, seu pai, o chefe Tui, a proíbe de chegar próxima do oceano. Ele quer que sua filha vire a líder que a vila merece. Moana cresce, e seu destino a chama cada vez mais.

Completamente apaixonada pelo oceano, o mar apresenta a rocha para Moana, a invocando para a jornada. Sem resistir, a princesa navega pelos mares em busca de Maui para ajudá-la a reparar os erros do semi-deus retornando a pedra em seu local de direito, restaurando todo o equilíbrio do ecossistema, afinal, a podridão chegou em Motunui devastando toda a fertilidade de sua terra.

O que sempre me impressiona nos filmes Disney é a capacidade de organizar o pensamento de tantas cabeças pensando na mesma história. O argumento de Moana foi escrito por sete pessoas, incluindo seus quatro diretores. Tudo organizado no tratamento de Jared Bush. Como podem perceber, é muita gente para elaborar uma narrativa tão simples de jornada do herói básica, mas com requintes modernos sobre o papel feminino, tradição, herança cultural e determinação.

Mensagens importantes e valiosas para as novas gerações que a Disney encantará por anos a fio. Um dos maiores méritos do texto de Moana é justamente investir no estabelecimento da mitologia polinésia e da história de sua protagonista já inferindo todos os conflitos que guiarão a trama.

Vemos a personagem dividida entre cumprir seu papel social como a próxima governante de Motonui, algo imposto pelo patriarca da vila, enquanto lida com sua imensa vontade em explorar o mundo, navegando pelo Pacífico. Os conflitos de Moana são bem imediatos e bem contornados: não demora muito para que o Chef Tui se oponha vorazmente com a vontade da filha em explorar o oceano. O que poderia ser gratuito e fajuto, rende uma boa motivação – importante citar que muitos dos trabalhos de motivação são clichês.

Servindo de contraponto ao pai, a avó de Moana a encoraja a cumprir seu destino. Logo, a relação dela com os dois personagens é eficaz, mesmo que ligeiras. Como em todo musical Disney, as músicas servem de síntese para expor os desejos internos de Moana e Maui. É exposição, sim, mas de uso inteligente, além da qualidade das canções serem excelentes.

Quando Moana parte, o roteirista não se alonga para apresentar novamente Maui para o público. Na relação dos dois, é onde o filme brilha de modo muitíssimo inteligente. Os diálogos, sempre adequados ao feeling da cena, divertem pela dinâmica ligeira entre eles. Maui, por ser um semi-deus com poderes mágicos graças ao uso de seu gancho, é arrogante, convencido e orgulhoso servindo de contraponto para Moana, ainda insegura e ingênua em encarar os diversos perigos da jornada.

Trabalho básico entre opostos, mas com uma jogada bastante inteligente. Maui, por ser muito poderoso, sempre põe em cheque a competência de Moana por ela ser humana e fraca. Não é preciso pensar muito para ver que se trata de uma metáfora para as constatações machistas do personagem. É evidente que o confronto é bem trabalhado e, conforme o filme avança, as certezas de Maui são postas em cheque.

Outra relevância do roteiro é enxergar na completa desnecessidade de um núcleo romântico. Creio que esse seja o primeiro filme da marca Princesas que deixe isso ausente, já colocando outra forma de pensamento sobre as personagens femininas da Disney, cada vez mais independentes e aventureiras. Isso é frisado com certa frequência, pois Bush usa linhas de diálogo que escancaram um exercício metalinguístico dessa animação. Ou seja, o texto tem consciência de que se trata de uma narrativa de princesas em um filme Disney.

Friso que isso nem chega perto de ser panfletário. A ordenação é bem inteligente em trabalhar polemicas com naturalidade e humor. Também é inteligente a solução de seu clímax na aventura, subvertendo a figura do antagonista de modo mais profundo do que já visto em Frozen.

Talvez, as fraquezas do longa estejam nos excessos e na estrutura previsível e manjada ao extremo. Como o longa tem insights valiosos e trabalhe com uma jornada do herói muito similar a de Odisséia, de Homero, a narrativa derivada não incomoda tanto. O personagem do Galo, um alívio cômico, é usado demais com piadas repetitivas, além de um diálogo sofrer um anacronismo miserável.

Fora isso, não muito com o que reclamar de Moana. É um filme que satisfaz imensamente.

E o faz apostando em uma aventura expansiva e épica enquanto centra seu núcleo em esferas intimistas e delicadas, cativando pela quantidade seleta de personagens muito cativantes. Destaque para a avó de Moana, também trabalhada em clichés vistos em Pocahontas e Kung Fu Panda, porém, novamente, temos essa consciência tão valiosa sobre as limitações do filme.

Diretores Antropólogos

É impossível se desapegar de certas tradições. A Disney frisa isso em todos os filmes, justificando o longo trabalho de produção de cada um dos longas. Para a empresa, é preciso conhecer de perto a realidade do tema que será retratado na ficção para ser o mais acurado possível. Com Moana não é diferente.

A dupla Clements e Musker viajaram por diversas ilhas da Polinésia para compreender a cultura local, aplicando o conhecimento transcendental a favor da narrativa. Inegável notar isso em tela. O contato com a natureza, a importância da família, da cultura, da herança, de seu papel na sociedade é frisada compartilhando a cultura local seja com tatuagens, com os hábitos alimentares, na arquitetura fidedigna dos barcos, dos adereços, da decoração apropriada, da mitologia e religião e, principalmente, no caso do oceano que vira um personagem ativo na obra, seja como elemento dramático ou cômico.

É uma dualidade encantadora de pavor, medo, paixão, humor e alegria. Nisso, ambos sabem trabalhar bem. Apesar do oceano ter escolhido Moana para a aventura, não significa que ele é responsável por ela – logo o filme se livra de muitos problemas de conveniências narrativas e deus ex machina.

A voz da Polinésia

Até mesmo as escolhas dos atores são convenientes com o tema. Dwayne Johson, descendente de povos originários do arquipélago da Polinésia, arrasa com Maui, conseguindo atingir a potência vocal necessária para elevar a imponência do personagem. Até arrisca em uma sequência de canto excelente onde os diretores apresentam um recuso sensacional que dura no restante do filme: o uso das tatuagens de Maui, animadas tradicionalmente com traço único, como elemento narrativo catártico e moral para o personagem – tem a função de side kick como Olaf, Grilo e Mushu.

O maior destaque fica para a protagonista Auli’i Cravalho, havaiana, que oferece uma explosão de vida para Moana. É uma voz um pouco rouca que combina com os sentimentos refreados da personagem, além de ambas serem adolescentes – os pitis são genuínos. O talento musical também é destaque, superando o desempenho da cantora oficial em How Far I’ll Go.

Fotorrealismo abundante, técnica elegante

Com O Bom Dinossauro, a Pixar alçou o fotorrealismo em animações feitas por computação gráfica em outro patamar. Moana é o correspondente no feito para a Disney. O conceito é similar. Os cenários são bastante realistas, de cores saturadas com iluminação impressionante e de texturas sinestésicas. Os diretores valorizam o trabalho dos artistas e clamam por diversos desafios para os animadores. Esse é, possivelmente, o melhor mar animado que tenhamos visto em filmes do gênero. O que justifica completamente a escolha da computação gráfica.

Seria uma pena notar que toda a riqueza visual do filme talvez fosse prejudicada se optassem pela animação tradicional. Não somente pela qualidade da animação, das artes conceituais, dos cabelos volumosos ou da intrincada tecnologia de iluminação exemplar, mas principalmente na modelagem dos protagonistas que carregam traços do povo indonésio.

Esse é um filme mais apressado em termos visuais. Os diretores apostam em muitos planos com variedade tremenda de linguagem cinematográfica, além de esbanjarem criatividade para as sequências musicais com destaque para Shiny, que é uma cena bem mista em termos de qualidade. Visualmente ótima, mas muito dilatada com uma música a la David Bowie que destoa bastante do tom das outras – há uma justificativa, mas é estranho de toda a forma.

Particularmente, mesmo que seja um filme abundante aos olhos, os dois não demonstram muitas jogadas visuais inteligentíssimas ou particularmente sensíveis. É tudo correto e condizente, sombrio e contemplativo quando necessário e efervescente, pulsante em outros momentos. A única jogada espetacular é a solução visual lindíssima para uma tragédia que atinge profundamente a vida e o emocional da personagem. Uma sequência de primeira catarse digna de aplausos.

Aliás, os dois consegue se valer bastante de metáforas com o mar para representar o vai-e-vem emocional da personagem. Infelizmente, diria que a direção de A Princesa e o Sapo é um pouco mais criativa nesse tipo de riqueza metafórica, mas ainda se trata de um trabalho exemplar.

Mar de Aventuras

Apesar de seu roteiro se sustentar em arquétipos clássicos e conflitos manjados, além de se movimentar por conta de um macguffin, Moana é uma animação nada menos que excelente. Cativa pela sutileza, pelo carisma impressionante e da própria qualidade visual soberba. O cuidado antropológico e cultural é vasto, além de contar com uma trilha musica digna de Oscar captando completamente a atmosfera da Polinésia. Não somente por esses cuidados, mas por possuir soluções narrativas para repensar a figura do antagonista e da mulher nos filmes de princesa do estúdio.

Moana é a melhor Odisseia que seu filho pequeno pode ver e, com certeza, as mensagens adequadas sobre valores tradicionais e ecologia encantarão os mais adultos. É a mágica da Disney. Encantar pessoas, não importando sua idade.

Moana: Um Mar de Aventuras (Moana, 2016, EUA)
Direção:
 Ron Clements, Don Hall, John Musker, Chris Williams

Roteiro: Jared Bush, história de Ron Clements, John Musker, Chris Williams, Don Hall, Pamela Ribon, Aaron Kandell e Jordan Kandell
Vozes originais: Auli’i Cravalho,  Dwayne Johnson,  Rachel House, Temuera Morrison,  Jemaine Clement, Nicole Scherzinger,  Alan Tudyk, Oscar Kightley
Gênero: Infantil, Comédia, Aventura
Duração: 107 min.