O que poderia dar errado ao adquirir os direitos de uma obra escrita pelo lendário George R.R. Martin, responsável pelo maior fenômeno de fantasia nerd desse século: Game of Thrones? Bom, aparentemente, muitas coisas. Antes de se tornar série, Nightflyers já havia virado filme em 1987, pouquíssimos anos depois da publicação do conto em 1980 dentro de uma coletânea de curtas histórias.

Com o sucesso provocado por Game of Thrones, era evidente que muitos produtores iriam olhar pelo baú de vastas obras de Martin para encontrar um novo potencial sucesso que simplesmente estourasse picos de audiência se tornando um grande fenômeno. Mas, felizmente, não foi isso o que aconteceu com a série do SyFy/Netflix que readapta Nightflyers, modernizando seus conceitos para o novo milênio.

Samba do Sci-Fi Doido

Contando com dez episódios de duração média (40 a 50 minutos), a primeira temporada, escrita por Jeff Buhler, traz a inchada história dos tripulantes da nave Nightflyer. Em uma missão para salvar a Terra de um vírus mortal, diversos cientistas e notáveis se reúnem nessa nave em busca de uma cura que somente, na hipótese, os alienígenas Vulcryns podem oferecer.

As criaturas surgiram no vazio em meio a Via Láctea, mas não respondem nenhuma tentativa de comunicação dos humanos. Por conta disso, a missão foi ordenada como último recurso para o pedido de socorro. Reconhecendo que as criaturas se comunicam através da energia Teke, o principal cientista da missão, Karl D’Branin (Eoin Macken), traz um poderoso e imprevisível telepata para conseguir criar uma ponte de comunicação com as criaturas.

Porém, quando a nave começa a ter diversos problemas técnicos que colocam a missão em risco, assim como a vida da tripulação, suspeitas começam a recair em Branin, a psiquiatra Agatha (Gretchen Mol) que controla a medicação inibidora do telepata e, obviamente, no mutante poderoso: Thale (Sam Strike).

Acredite, apesar de ser inspirado na obra homônima de Martin, essa versão de Nightflyers opta em usar somente o cenário original como inspiração trazendo uma história diferente e mais “audaciosa”. Infelizmente, na teoria, tudo pode ser perfeito, mas na prática, a maioria das ideias é um verdadeiro desastre.

A começar, temos um problema crônico de identidade com a série, já que ela tenta misturar, sem sucesso, uma miríade inacreditável de tópicos ou conflitos explorados em uma infinidade de obras de ficção científica consagradas já realizadas há tempos. Como não li o conto original, não posso me basear com plena certeza sobre as alterações que o roteirista inseriu aqui.

Listando algumas que consigo me lembrar temos pontos muito similares a Mass Effect 2, 2001: Uma Odisseia no Espaço, O Enigma do Horizonte, Matrix, A Origem, Alien, Interestelar, Vingador do Futuro etc. São muitas e muitas obras que conseguem ser superiores a Nightflyers com facilidade. Entretanto, na maioria da temporada, os temas que conversam com 2001 e O Enigma do Horizonte são os mais presentes.

Pela familiaridade do espectador com os temas – e, para o azar da série, eu tenho considerável familiaridade com essas narrativas, é extremamente fácil adivinhar as “grandes” reviravoltas que os espectadores começam a encontrar a partir do terceiro episódio. Porém, o maior desafio é justamente chegar até esse ponto da história.

Nightflyers sofre bastante com situações muito apelativas e bizarras, com personagens caricatos que constantemente se comportam como bestas quadradas ao invés de cientistas renomados, os melhores da humanidade, buscando a última esperança para evitar a extinção – aliás, esse ponto da epidemia é porcamente explorado sem oferecer qualquer senso de gravidade para o espectador.

Aliás, o formato do roteiro já é péssimo por mostrar, nos minutos iniciais da série, que o caos toma conta da Nightflyer com alguns tripulantes malucos matando personagens do elenco principal. Ou seja, quando isso enfim ocorre, no episódio nove, não há o menor impacto, pois o espectador raramente irá simpatizar com um personagem cujo destino já foi testemunhado.

Isso seria driblado, obviamente, caso houvesse genuíno interesse no arco desses personagens, mas isso não ocorre, pois, a grande maioria sofre com uma péssima escrita. Começando pelo protagonista, o espectador perceberá que D’Branin sofre do clássico conflito do astronauta que se afasta da Terra por tragédias pessoais. Ele foge de uma responsabilidade do passado, mas fingindo ser altruísta, afinal sua missão de ir para o Espaço encontrar os Volkryns e salvar a humanidade não passa de um subtexto, uma desculpa, para ele encontrar uma afirmação de que é alguém especial.

Logo, se o protagonista já é problemático em níveis de sanidade, o resto deles acompanham o ritmo insano. Acredite se quiser, a única sensata do grupo inteiro é Melantha, uma mulher criada através da bioengenharia para ser mais apta em todas as capacidades humanas. Apesar dessa construção muito interessante da sua biologia e perfeição de código genético, a personagem se limita a dizer o óbvio durante a série inteira, forçando os personagens a agirem como eles deveriam agir em primeiro lugar.

Como temos ao menos seis personagens principais, não vale a pena detalhar todos, pois a série não merece um tratamento tão especial assim no texto, afinal ela trata o espectador como um completo pateta através de uma história fraca, autoexplicativa e muitas vezes absurda, quebrando as próprias regras que previamente foram estabelecidas.

O personagem que mais chama a atenção, certamente, é o telepata Thale. Com a atuação acima da média de Sam Strike, o personagem cativa ainda mais pelo seu conflito ser interessante trazendo a marginalização de suas relações sociais por conta do pavor que os outros tripulantes sentem por ele.

Entretanto, muito tempo é perdido com um conflito bem superficial do caso das panes eletrônicas da nave com os tripulantes jogando a culpa no telepata. Nesses momentos, a história não avança e se torna uma novela de tanta discussão sem fim que o espectador atura. Felizmente, o arco dele avança, mas não cumpre um papel muito significativo no final já que a temporada termina em um cliffhanger barato, criando um mistério mindfuck no qual pode funcionar em alguns espectadores.

O que complica muito são as encheções de linguiça que atingem ao menos quatro dos dez episódios da série. Nightflyers é repleta de fillers, desvios absurdos da trama que raramente contribuem para a progressão da narrativa. Há ideias jogadas, como se funcionassem como “casos da semana”, onde coisas mirabolantes ocorrem para serem abandonadas completamente no episódio seguinte.

Um dos exemplos mais absurdos da narrativa ocorre quando um fungo letal começa a se espalhar na nave, forçando a quarentena de personagens importantes que possuem relações e vínculos amorosos com outros dos protagonistas. Isso gera um arco razoavelmente interessante, um flerte com Alien, mas nada faz sentido: a origem da doença, do agente infectante e até mesmo da luta dos personagens pela cura.

O pior disso tudo é o resultado que o evento gera no exobiólogo Rowan (Angus Sampson). O personagem se torna excessivo, um biruta completo, como se fosse uma paródia de mau gosto de Jack Nicholson em O Iluminado. O negócio fica tão bizarro que o espectador é obrigado a aturar uma cena na qual Sampson come favos de mel enquanto ameaça outra personagem. Apésar de haver um contexto, é ridículo.

Mirando o Inalcançável

Se ao menos houvesse elegância e refinamento técnico na série, muitas das coisas exageradas e absurdas seriam facilmente ignoradas, afinal o diretor saberia o que está fazendo. Porém, infelizmente, não é o que acontece.

A todo momento, há a incômoda sensação de ver uma produção B, algo que não se leva a série, um sci-fi trash dos anos 1960. Porém, não é isso que a série quer passar, pois ela se leva a sério o suficiente para lançar questionamentos filosóficos, de poder, existência e todo o resto da filosofia de araque que costuma acompanhar ficções científicas não muito inspiradas.

Os diretores utilizam muito da banal linguagem televisionada, aproveitando pouco do refinamento cinematográfico que diversas outras séries trazem para o mercado atual. Sucessões de cortes rápidos, planos em close abundantes, ação genérica e um design, em maioria, muito batido.

Isso por si, é algo impressionante, já que as ficções científicas permitem explorar visuais interessantíssimos. Infelizmente, Nightflyers aposta em cores monocromáticas com variações de cinza em diferentes tons em praticamente todos os episódios – vez ou outra surge uma iluminação vermelha.

O pior que isso está totalmente acoplado à construção dos cenários físicos que tornam o design da nave menos interessante. Apenas nas domas repletas de vida vegetal que existe o vislumbre de algo mais original. Verdade seja dita, os Volcryns, ao menos, são mais originais com um design curioso e colorido. O mesmo pode ser visto na cabine do capitão Eris, totalmente anacrônica com suas decorações e móveis de madeira maciça.

De modo geral, Nightflyers é uma tremenda decepção. Dedicar ao menos oito horas para conferir uma narrativa fraca e caricata, repleta de ideias medíocres que já foram exploradas com mais competência em outras obras, além de trazer atores longe do nível aceitável, é uma bela perda de tempo.

Não foi dessa vez que conseguiram emplacar outra obra de George R.R. Martin na TV. Acredito que seja para o melhor. A série ainda não foi renovada e pela recepção do público, é muito provável que fique no limbo para sempre.

Nightflyers (Idem, EUA – 2018)

Showrunner: Daniel Cerone
Direção: Mike Cahill, Andrew McCarthy, Nick Murphy, Maggie Kiley, M. J. Bassett, Damon Thomas, Mark Tonderai, Stefan Schwartz
Roteiro: Jeff Buhler, Daniel Cerone, Lindsay Sturman, Brian Nelson, Terry Matalas, Christopher Monfette, David Schneiderman, Michael Golamco, Amy Louise Johnson (baseado em obra de George R. R. Martin)
Elenco: Eoin Macken, David Ajala, Jodie Turner-Smith, Angus Sampson, Sam Strike, Maya Eshet, Brían F. O’Byrne, Gretchen Mol, Phillip Rhys, Gwynne McElveen, Zoe Tapper, Miranda Raison
Duração: 42 a 44 min. por episódio (10 episódios no total)