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Crítica | O Dia Depois – Escolhas, dilemas e covardia

*Este filme foi visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Quando a personagem de Kim Min-hee aparece na telona, não restam dúvidas sobre a importância da atriz na obra de Hong Sang-soo. A câmera desliza suavemente para a esquerda, enquanto sua personagem adentra a editora chefiada pelo protagonista. Nesta entrada, percebe-se algo de definitivo, de inescapável. Algo que nem um ou vários dias depois serão capazes de apagar, apesar da infidelidade e da covardia do homem.

O Dia Depois, quarto filme de Hong Sang-Soo em menos de um ano, chega com um clima distinto dos anteriores, ainda que a “fórmula” do seu cinema mantenha-se intacta. O protagonista, Kim Bongwan, é dono de uma editora com apenas mais um funcionário. No caso, uma assistente, com quem trai sua esposa. Sua jornada de infidelidade nos é apresentada como uma lembrança dolorosa: em preto e branco (opção que não usa desde O Dia em que Ele Chegar, de 2011), ao som de uma única melodia chiada extra-diegética, as cenas são alternadas entre presente e passado.

Um mês após a saída de sua assistente-amante, Song Haejoo (Cho Yunhee), Bongwan contrata Areum. Entretanto, a sorte não está favorável para a personagem. O dia de sua contratação coincide com aquele em que a mulher de Bongwan (Ki Joabang) encontra um bilhete amoroso em sua casa. Furiosa, a mulher acaba indo até a editora e brigando com a novata, que não sabia nada da história. Mesmo diante de uma situação como essa, o protagonista continua a alimentar mentiras e alimentar esse desastre. Bongwan é um homem incapaz de cultivar a alteridade. Só fala aquilo que acha que as mulheres querem ouvir.

É o mesmo tipo de atitude que condena a protagonista de Na Praia à Noite Sozinha – dos últimos filmes de Sang-soo, o melhor. Bongwan edita ilusões, livros – isto é, realidades cercadas por limites materiais. Areum afirma que a leitura melhora a sua vida. A cada cena que aparece, suas falas fascinam a câmera, cheias de uma pretensa originalidade com a qual o protagonista não sabe lidar. Não à toa, a câmera tenta acompanhar Kim Min-hee (é preciso saber para onde ela vai, tentar compreendê-la), mas a chegada do motoboy com o almoço impede esse movimento. Bongwan, também crítico literário, cultiva o ceticismo (suas convicções são desestabilizadas pela fé de Areum) porque só visa os desejos superficiais.

Como é de praxe, temos muitas cenas em mesas. Mas em O Dia Depois sempre há um desequilíbrio, uma falta de sintonia entre as personagens. Em uma das primeiras cenas, Bongwan conversa com a sua mulher, enquanto faz uma refeição, de madrugada. Ele continua a comer, fazendo barulho, e a rir enquanto a mulher o interpela, questiona seus hábitos, sua fidelidade. Da mesma forma, em outras cenas, Bongwan tem que enfrentar a embriaguez de sua amante, ou a lucidez espiritual de Areum.

A arrogância do protagonista, estereotipada na sua ocupação de crítico literário, é sua maior fragilidade. Ainda que não seja o seu filme mais potente, dos últimos parece ser o mais fechado em si mesmo. Os planos fixos aprisionam o protagonista em colocam seus desejos frente aos seus medos. Desse desconforto, Sang-soo consegue extrair um delicioso caldo, ora cômico, ora melancólico. Quaisquer que sejam, porém, as sensações que cada cena produza, elas unem-se no final, em suas coerências.

O Dia Depois (Geu-hu, Coreia do Sul – 2017)

Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Hong Sang-soo
Elenco: Cho Yunhee, Joabang Ki,Kim Min-hee, Kim Sae-byeok e Kwon Hae-hyo
Gênero: Drama
Duração: 92 min.

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Publicado por Henrique Artuni

Estudante de jornalismo, cinéfilo e crítico de cinema. É também editor de arte da Revista Esquinas.

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