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Catálogo

Crítica | O Exterminador do Futuro é James Cameron fazendo História

Nasce um clássico da ficção científica.

Lucas Nascimento
Lucas Nascimento Redação
31 de agosto de 2022 · 6 min de leitura
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Imaginem um homem. Durante uma viagem para divulgação de seu primeiro trabalho, que enfim veria a luz do dia após um verdadeiro inferno para finalizá-lo, esse mesmo homem tem um pesadelo. Por consequência da experiência frustrante desse primeiro trabalho, o sonho em questão lida com o homem tentando ser morto por uma criatura muito específica, e acaba inspirando-o a criar uma história, que ele lutaria para transformar em seu próximo trabalho. Depois de um longo processo, diversos “nãos” e favores de colegas da profissão, esse homem, que é ninguém menos do que James Cameron, transforma seu pesadelo de uma máquina assassina vinda do futuro em um dos mais eficientes clássicos da História da ficção científica americana: O Exterminador do Futuro.

A trama nos informa de uma guerra futurista. A Humanidade luta contra máquinas assassinas após uma rebelião promovida pelo sistema operacional da Skynet, que fez todas as formas de inteligência artificial do planeta se revoltarem contra seus criadores. Quando a Skynet sofre uma derrota importante, sua última cartada é enviar um Exterminador (Arnold Schwarzenegger) de volta no tempo, para assassinar Sarah Connor (Linda Hamilton), que tornaria-se a mãe do líder da Resistência humana: John Connor. Visando impedir as máquinas e manter a linha temporal intacta, a Resistência envia o soldado Kyle Reese (Michael Biehn) para proteger Sarah do androide.

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Perspectiva de Slasher

A produção de O Exterminador do Futuro é uma das histórias mais inspiradoras para aspirantes a cineastas. Com um conceito original e fortemente ligado a um gênero, Cameron usou toda a sua experiência coletada como aprendiz do lendário produtor/diretor Roger Corman (para quem havia dirigido o desastroso Piranhas 2: Assassinas Voadoras) para fazer um filme de ficção científica barato e de qualidade, algo que fica evidente na execução magistral. O fato de que todas as cenas de ação se passam à noite ajudam a esconder limitações técnicas, e por trazer diversas sequências nessa hora escura, acaba por criar uma atmosfera mais imprevisível e ameaçadora para o longa, que valoriza bem os becos e vielas encardidas da Los Angeles oitentista. Dessa forma, é ainda mais significante que a mãe do salvador da humanidade esteja escondida ali, nessas ruas perigosas e anônimas e temos uma história de riscos gigantescos sendo contada através de uma perspectiva menor.

A mistura de gêneros é crucial para a execução dessa perspectiva. Com um conceito gigantesco de ficção científica por trás, Cameron adota uma estrutura similar à do slasher, tomando inspiração do mestre John Carpenter, que despontara essa variante do terror com Halloween: A Noite do Terror; outro grande filme produzido com um orçamento baixíssimo. É o clima de perseguição perfeito, e que se desenrola bem no visual noturno descrito no parágrafo acima. Assim como o clima e o antagonista aparentemente indestrutível, Cameron também traz o estereótipo da final girl na forma da Sarah Connor de Linda Hamilton, uma simples garçonete que acaba tendo um dos arcos mais formidáveis que uma mulher já teve no cinema de gênero: com seu futuro literalmente batendo à porta, Sarah entra na metamorfose que a transforma em uma mera vítima até uma das figuras de ação mais imponentes do gênero; algo que é melhor explorado na continuação, mas que ganha vislumbres aqui graças à ótima performance de Hamilton.

Mas, ainda que seja eficiente no terror e em seus diferentes elementos, o grande truque do roteiro de Cameron reside justamente em como sua história lida tão bem com a viagem no tempo e o paradoxo de simultaneidade; e que as inúmeras continuações sempre respeitam religiosamente. Ao voltar no tempo para proteger Sarah, Kyle Reese acaba se apaixonando e tornando-se o pai de John Connor, criando um paradoxo fascinante: como Kyle existe em primeiro lugar, se ele necessita que seu filho inexistente o envie de volta ao passado para engravidar sua mãe? É desses conceitos que são feitos os melhores exemplares da ficção científica, e esse arco tão conhecido hoje é desenrolado de forma sutil e surpreendente no filme, com o espectador ligando os pontos sozinho a respeito dessas conexões: nunca é explicitamente dito, apenas ilustrado e sugerido pela montagem e os quadros. A própria Skynet é ligada a um paradoxo desses, com o braço do T-800 sendo encontrado por uma equipe de pesquisadores, que futuramente desenvolverão a tecnologia dos androides – apenas porque a viagem no tempo ocorreu.

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A criação de um ícone

Para o personagem-título, que hoje é um dos ícones indiscutíveis do cinema americano moderno, Cameron se lança com outros dois nomes que tornariam-se históricos. O primeiro deles, claro, é o do então fisioculturista austríaco Arnold Schwarzenegger, que até então havia estrelado a impagável comédia Hércules em Nova York e dois filmes de Conan, O Bárbaro, onde aparecia como protagonista. Aqui, Cameron usaria a presença física de Schwarzenegger para criar uma figura amedrontadora, e cujas limitações em seu sotaque garantiriam uma performance silenciosa e fria, com o Exterminador atirando e levando golpes sem demonstrar muitas emoções; o próprio confronto em que chega sem roupas para enfrentar um grupo de punks é uma excelente inversão de expectativa, com um homem nu assassinando um grupo que parece muito mais perigoso e hostil. É um papel desafiador para Schwarzenegger, mas o ator é capaz de encontrar essa presença diferente, e que nunca deixa de atrair nossa atenção quando entra em cena.

O segundo nome é de um dos maiores monstros dos efeitos especiais do século XX: Stan Winston. Responsável também pelos animatronics de Jurassic Park, Aliens e o primeiro Homem de Ferro, Winston chamou a atenção pelos efeitos inovadores para o Exterminador, especialmente para o complicado dispositivo que criava a ilusão de termos Schwarzenegger arrancando e consertando seu próprio olho. O clímax é outro momento de brilho, onde a execução de Winston se alinha com a inspiração de Cameron em outro grande mestre do cinema: Ray Harryhausen, o maior especialista na arte do stop motion, principal técnica utilizada para criar o confronto entre Sarah, Kyle e o Exterminador em sua forma natural de exoesqueleto metálico, saído diretamente do pesadelo de Cameron.

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Uma das histórias mais inspiradoras para fãs do cinema, O Exterminador do Futuro mostra que uma grande ideia pode ser realizada e executada com criatividade. Contando com a ajuda de colaboradores que se tornariam tão importantes quanto ele, James Cameron cria uma pérola inestimável que lançou uma das franquias mais adoradas e originais da ficção científica, oferecendo um tipo de narrativa coeso e surpreendente à sua própria forma.

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Realmente, devemos prestar mais atenção em nossos próprios sonhos.

Ou pesadelos.

O Exterminador do Futuro (The Terminator, EUA – 1984)

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Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron e Gale Anne Hurd
Elenco: Arnold Schwarzenegger, Michael Biehn, Linda Hamilton, Paul Winfield, Earl Boen, Lance Henriksen
Gênero: Ficção Científica
Duração: 107 min

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Tags: #Arnold Schwarzenegger #Earl Boen #James Cameron #Lance Henriksen #Linda Hamilton #Michael Biehn #O Exterminador do Futuro
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Lucas Nascimento
Escrito por

Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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