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Crítica | O Lutador

A ressurreição de Mickey Rourke.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
21 de setembro de 2017 · 5 min de leitura
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Muitas vezes as pequenas coisas podem significar muito mais do que as grandes. O ideal de cada personagem, um piscar de olhos ou até mesmo o silêncio. O Lutador (The Wrestler, 2008) é tudo isso e mais um pouco.

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Randy “O Carneiro” Robinson é um renomado lutador de luta-livre que vive de bicos para sobreviver. Pela manhã trabalha em um mercado como ajudante e à noite participa de lutas clandestinas para entretenimento de fãs. Mas atingindo a sua idade sênior, Randy não consegue mais acompanhar esses lutadores novos e se depara com um ataque do coração após uma de suas apresentações. Agora ele terá que abraçar a sua idade e tentar concertar erros do passado.

Este não é aquele filme dramático gostoso de assistir. Robert Siegel, o roteirista, não tem a menor intenção de fazer você se sentir bem e te coloca dentro do personagem de Randy. Seu roteiro apareceu na Blacklist – lista dos melhores roteiros nunca produzidos – durante um tempo até Darren Aronofsky pegar o texto e colocar toda essa sujeira na tela.

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Na época, Aronofsky já era um diretor conhecido do público como o cara que fazia tudo da maneira mais pop possível. Até inventou um estilo de edição chamado Hip-Hop – é sério. Só que após o fracasso de Fonte da Vida (The Fountain, 2006) ele se viu preso em um beco sem saída, refém de si próprio, e resolveu apostar tudo que tinha, até mesmo sua visão, para realizar esta obra. Apaixonado pelo roteiro, comprou os direitos junto com o seu braço direito Scott Franklin, pela produtora Protozoa, e começou a trabalhar no que se tornaria o seu melhor trabalho até aqui.

Influenciado pelo cinema belga, Aronofsky chega com uma visão mais aberta, onde a história tem que ser apresentada e não picotada.

Para o papel de Randy a primeira escolha foi Mickey Rourke, que estava em uma fase decaída, mas já tinha um grande preparo para o papel graças aos anos que dedicou à sua fraca carreira de boxeador. Existem rumores de que Rourke não gostou do roteiro quando leu, mas aceitou o papel com a condição de que poderia improvisar as suas falas de acordo com as cenas e direção do Aronofsky. Sendo essa história verdadeira ou não, o ator se encontrava no mesmo lugar que o seu personagem: velho, já em seus 55 anos, tentando provar para si mesmo que ainda é capaz de fazer algo que valha a pena. O resultado é uma atuação digna e limpa, extravasando todas as suas frustrações e emoções, merecedora de seu primeiro Oscar.

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Mas de nada seria o filme sem um elenco inteiro de pessoas fortes. Aí entram o papel das duas mulheres que fazem a diferença na vida de Randy: Cassidy e Stephanie.

Sempre tomando o rumo de mulheres frágeis e papéis secundários de comédias românticas nos anos 80, Marisa Tomei aqui interpreta Cassidy, uma striper já na sua idade avançada, mas com “tudo em cima”. Tomei deita e rola neste papel, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, fazendo em seu primeiro dia de gravação uma cena de strip com Rourke. Esse já foi o tira gosto para o que estava por vir. Ela constrói a personagem com aquele clichê de garota sonhadora, mas mistura brilhantismo da mulher experiente, surgindo com essa mistura intrigante de mulher que está do lado de Randy em seu momento mais crítico da vida. Tomei tem uma atuação calibrada e de igual com Rourke, fazendo com que as cenas dos dois sejam as mais gostosas de assistir.

Já conhecida pelo público como uma atriz emergente, Evan Rachel Wood foi chamada para interpretar Stephanie, a filha de Randy. Wood tem uma química incrível com Rourke, mesmo que seu papel não requeira muita, mas aqui fica o cartão de visitas dela. Em uma atuação tão pontual sobre uma filha que é abalada pela falta de atenção de seu pai, Wood faz uma performance que supera o esperado e destaca a sua personagem, dando uma instabilidade para o Randy, para a atuação de Rourke e até para nós mesmos espectadores. Claro que tudo isso tem um porquê, e ajuda muito bem a construção dos pontos de virada da história.

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Fora da sua zona de conforto, Aronofsky chamou a francesa Maryse Alberti para realizar a direção de fotografia. Conhecida pelos trabalhos em documentários como Quando Éramos Reis (When We Were Kings, 1996), Alberti sabe muito bem aproveitar os momentos de “realismo” das lutas e o imediatismo da história, deixando-nos como mero voyeurs. Usando a câmera para pressionar os personagens, e misturado com o novo estilo de corte elaborado por Andrew Weisblum, ficamos o tempo que for necessário na cena. Weisblum consegue criar momentos impactantes como uma luta em flashbacks, fazendo com que haja naturalmente uma ação e reação do próprio personagem com a cena que acabamos de assistir. No final das contas, Randy também é um voyeur em sua vida.

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Apenas 2 dias após o corte e aprovação final, O Lutador estreava no Festival de Cinema de Veneza, conquistando o Leão Dourado – prêmio de melhor filme. Recebeu duas indicações no Oscar e três no Globo de Ouro. Com orçamento de US$6 milhões de dólares, arrecadou mundialmente US$44 milhões de dólares.

No final recebemos aquele filme que não queremos, mas que devemos assistir. Um marco na história do cinema e da carreira de todos os envolvidos.

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Texto escrito por Herbert Santos

O Lutador (The Wrestler, EUA/França – 2008)

Direção: Darren Aronofsky

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Roteiro: Robert Siegel

Elenco: Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Woods

Gênero: Drama, Ação

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Duração: 110 min.

Tags: #Darren Aronofsky #Marisa Tomei #Mickey Rourke #O Lutador
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