Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes explora os 50 tons de Emily Brontë
O novo O Morro dos Ventos Uivantes é um filme repleto de opulência visual, embora sofra de certa artificialidade na arrumação quase publicitária

O romance vitoriano de Emily Brontë que fornece a base para esta nova adaptação já foi levado às telas algumas vezes, sendo a versão mais reconhecida até então a de 1939 dirigida pelo mestre William Wyler e que guarda com esta poucas semelhanças. A história original é tão boa, tão sólida e tem personagens tão interessantes que seria quase impossível estragá-la. Basta apoiar-se nela, conseguir meia dúzia de atores capazes de dar o texto e confiar na sensibilidade da audiência.
Para a diretora e roteirista, entretanto, é preciso converter a trama ao gosto da plateia de 2026 (menos afeita a sutilezas), e isso implica uma série de decisões que por pouco não comprometem o filme inteiro. É visível que este não se contenta em ser somente uma “releitura de Brontë”, mas sim uma alteração radical de credo, eliminando algumas ambiguidades e tornando o que era até então “subtexto” quase no “texto inteiro”. Uma “prisão mental” se transforma numa prisão de verdade, uma pessoa emocionalmente “acorrentada” numa pessoa literalmente acorrentada, e assim por diante. Tampouco o caráter fantasmagórico da narrativa original se mantém: o roteiro se concentra no drama romântico e praticamente anula qualquer outro aspecto relevante.
Embora não seja tão jovem, a diretora Emerald Fennell (de Saltburn e Bela Vingança) parece sofrer de um problema muito atual entre os novos diretores de cinema que se acostumaram a observar o mundo pela tela de um smartphone: seu olhar cinematográfico “achata” os atores em planos muito fechados. Lá se vão milhões em cenários luxuosos e caprichadas composições digitais, mas nada disso importa porque Fennell só consegue enxergar detalhes, bocas, dedos, caras e pescoços. A edição tampouco ajuda: você não tem a chance de “ver a cena” porque esta acaba reduzida ao pingue pongue de planos muito curtos, o que também é um problema geracional e denota falta de confiança na encenação e na dinâmica natural entre atores e texto. Essa sucessão exasperante de “talking heads” perde fôlego na metade do filme, e é aí que ele evolui como se passasse da adolescência à vida adulta.
Seria impreciso dizer que a visão de Fennell não funciona: estão aqui elementos de interesse da audiência, e a essência da trama original que sustentaria qualquer barbeiragem da direção – a qual, entretanto, é carinhosa, embora peque no tom e se arrisque em exageros formais, visuais e especialmente musicais que impedem o filme de ser melhor do que acaba sendo.
A trilha musical pop que sobra (no mau sentido do termo) em quase metade das cenas da primeira metade, o visual meio vampirão de Heathcliff, tudo aproxima a produção de sucessos recentes – que também misturavam algum erotismo, um clima “neogótico”, perversões de comercial de sabonete e devaneios românticos – como a saga Crepúsculo e a trilogia 50 Tons de Cinza. Onde este filme sobressai, claro, não é naquilo que compartilha com estes, mas na base literária de Brontë, a anos-luz em complexidade do universo cartunesco das produções mais recentes.
A trama é relativamente conhecida e envolve um amor impossível, traição, vingança e sadismo emocional nas relações entre homens e mulheres. O órfão encardido chamado de Heathcliff (Jocob Elordi) é adotado pela família de Cathy (Margot Robbie), uma menina rebelde e órfã de mãe em relação conflituosa com o pai bêbado (Martin Clunes). Os dois se afeiçoam mas, emparedados por um destino de miséria caso se unam como casal, acabam seguindo caminhos diferentes: Heathcliff vai embora, enquanto Cathy descola para si um casamento de conveniência com Edgar (Shazad Latif), um falso aristocrata que vai viver na vizinhança. Os dois apaixonados irão se cruzar novamente, mas uma teia de desconfiança, erros de julgamento, orgulho e traição ameaça o triunfo de seu romance.
As escolhas para o elenco principal oscilam entre o acerto preciso (Alison Oliver) e a incredulidade (Hong Chau?), tendo o casal central no meio do caminho e um Shazad Latif apagado no papel mais ingrato do drama. Robbie é uma atriz energética (parecendo entretanto facilmente subir um tom em qualquer cena), mas Elordi está aprisionado na criatura de Frankenstein (embora isso funcione se considerarmos a natureza falsamente “vampiresca” que Fennell confere a seu personagem). O instrumento que ele toca só produz a mesma nota do início ao final e não ajuda muito a construir as “camadas” que o personagem original deveria ter.
O novo O Morro dos Ventos Uivantes é um filme repleto de opulência visual, embora sofra de certa artificialidade na arrumação quase publicitária de seus elementos. A decisão de enfiar canções comentando algumas das cenas é sofrível (nenhuma delas é cantada por Kate Bush…), mas a diretora arruma isso no terceiro ato, que é triste e solene como a história original pede e merece. O filme não é grande, mas o romance de Emily Brontë é. Ele seguraria qualquer desvario, qualquer maneirismo, que o cinema de entretenimento de 2026 (clipado, ironicamente pudico e dependente de subterfúgios) poderia ocasionar.