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No ano passado, O Mundo Sombrio de Sabrina excedeu todas as nossas expectativas ao insurgir como uma das melhores séries originais Netflix. Os novos contos envolvendo Sabrina Spellman se afastaram da clássica produção dos anos 1990 estrelada por Melissa Joan Hart e nos apresentaram a um cosmos recheado com suspense, obscuridade e um ácido humor que sem sombra de dúvidas alcançou um nível de envolvimento inexplicavelmente delicioso. É certo dizer que, agora, Kiernan Shipka tomou as rédeas como a adorável e conturbada bruxinha e, com a chegada da segunda temporada, recorreu às suas melhores performances para continuar a mística jornada contra as forças das Trevas que se tornam cada vez mais fortes.

É natural que Roberto Aguirre-Sacasa tenha mergulhado com profundidade na dinâmica dos múltiplos personagens desse cosmos, ambientado na amaldiçoada cidade de Greendale. Depois de ter aprendido com seus erros em sua outra obra, Riverdale, o showrunner abraçou com o máximo de cautela e exímia preparação os quadrinhos da Archie Comics para transcrever as aventuras para as telinhas – e o resultado mais uma vez se repete, trazendo mais elementos críticos para nove episódios originais cuja mensagem é-nos passada com força e com clareza, além de abrir espaço para reviravoltas surpreendentes. De fato, Aguirre-Sacasa arquitetou pequenas pérolas narrativas, culminando em um aprazível finale, ainda que convencional.

Sabrina agora pertence ao Senhor das Trevas, mais conhecido como Lúcifer, a Estrela da Manhã, após ter assinado o Livro das Sombras. E tendo se separado quase por completo de sua vida mortal, incluindo o término do relacionamento com Harvey (Ross Lynch) e seu engajamento com o bruxo Nick (Gavin Leatherwood), que se torna um grande aliado. Entretanto, conforme as tramas se desenrolam, a heroína percebe que as coisas são muito mais difíceis do que parecem – e que render-se completamente aos profanos desejos de Satã teriam drásticas consequências para todos à sua volta.

Os primeiros episódios do segundo ano movem-se através de certa fórmula, respaldando-se nos múltiplos dramas adolescentes dos últimos e marcando um diálogo preocupante com a série conterrânea mencionada acima. Porém, a delineação de todos os arcos e o modo como todos acabam por se entrelaçar mostra que as opções iniciais são compreensíveis, incluindo um inesperado filler que revela ao público os medos mais intrínsecos dos protagonistas – colocando uma camada de fragilidade para as personalidades mais fortes, e trazendo à tona uma força inesperada daqueles que considerávamos mais “fracos”, por assim dizer. É justamente nesse momento que o relacionamento entre Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis) vira a página para um novo capítulo, recheado de mentiras, vinganças e atitudes que as unem ainda mais como irmãs.

O show não se contenta apenas em explorar as recém-adquiridas habilidades de Sabrina, mas mergulha também em sua luta para negar sua verdadeira identidade. Ao que tudo indica – e que nos é confirmado na última iteração -, ela não é filha de Edward e Diana Spellman, mas sim do próprio Lúcifer com Diana, e esse é o motivo que lhe dá forças para um enfoque necessário e chocante que ganha forma no sexto capítulo. Após enfrentar com todas as suas forças caçadores de bruxas angelicais que emulam seres humanos, ela ressurge de uma trágica morte, reascendendo como uma sombria fênix dotada de poderes inenarráveis – que são sadicamente comparados às habilidades de Jesus Cristo e do falso Deus católico.

A jovem bruxa é, como nos revelado de forma dinâmica e enérgica, Mensageira do Inferno, destinada a cumprir espécies de milagres sobrenaturais que desencadearão o retorno de Satã em sua forma real e divina e o início do Apocalipse como retratado nas histórias que conhecemos. O showrunner também encontra terreno fértil para explorar uma mitologia consagrada; todavia, não se utiliza de métodos óbvios para rechear essas histórias, preferindo delinear explanações mais sutis para fatos memoráveis, feitiços e até mesmo a desconstrução de tudo o que já existiu – cujo principal arauto é o Padre Faustus Blackwood (Richard Coyle). Blackwood se baseia em diversas manipulações e mentiras para fazer com que a Igreja da Noite pela qual é responsável e a própria Academia de Feitiçaria retorne a tempos medievais, misóginos e segregadores.

Em meio a tantas manipulações, desejos obscuros e uma rendição ao macabro aplaudível e que merece atenção do público, também não faz sentido deixar de mencionar alguns obstáculos enfrentados neste ano. Algumas subtramas, ainda que dentro de um escopo de aproximadamente sessenta minutos, parecem forçadas e artificiais demais, talvez como modo de tapar buracos no pano de fundo principal ou de dar uma continuidade mais palpável para a arquitetura que se ergue. É óbvio que os pontos positivos eventualmente falam mais alto, mas, em certos momentos, os deslizes expressam sua voz e quebram a sinistra atmosfera.

A série ganha ainda mais força quando procura fomentar, de modo sarcástico e diabólico, aspectos sociais resultado de reflexos do mundo em que vivemos. O embate entre bruxos e bruxas, dentro de uma perspectiva macrocósmica, é uma tradução da compulsória submissão à qual as mulheres são jogadas, em prol de uma política controlada majoritariamente por homens – Faustus representa o retrocesso, por exemplo. É nesse contexto que Mary Wardwell (Michelle Gomez), que na verdade é a mãe de todos os demônios, Lilith, une-se com Sabrina e seus amigos para lutar contra Lúcifer e coroar a si mesma como a nova regente do submundo, dando início a uma nova era.

O Mundo Sombrio de Sabrina retorna para mais uma competente temporada, cheia de mistérios e acontecimentos incríveis e que aumentam nosso próprio relacionamento com os personagens desse universo mágico. Agora, ao que tudo indica, Sabrina está pronta para mergulhar em uma perigosa jornada para o Inferno para resgatar aquele que ama – e desestruturar o balanço do mundo mais uma vez.

O Mundo Sombrio de Sabrina – 2ª Temporada (Chilling Adventures of Sabrina, EUA – 2019)

Criado por: Roberto Aguirre-Sacasa
Direção: Kevin Sullivan, Michael Goi, Salli Richardson-Whitfield, Alex Garcia Lopez, Alex Pillai, Rob Seidenglanz, Antonio Negret
Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa, MJ Kauffman, Christina Ham, Oanh Ly, Ross Maxwell, Matthew Barry, Donna Thorland, Christianne Hedtke, Lindsay Calhoon Bing, Joshua Conkel, baseado nos quadrinhos da Archie Comics
Elenco: Kiernan Shipka, Richard Coyle, Miranda Otto, Lucy Davis, Tati Gabrielle, Michelle Gomez, Ross Lynch, Chance Perdomo, Bronson Pinchot, Jaz Sinclair, Gavin Leatherwood
Emissora: Netflix
Episódios: 09
Gênero: Fantasia, Terror, Drama
Duração: 60 min. aprox.

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