No ano passado, a Netflix deu início a suas produções originais de fim de ano, visando a concentrar um número considerável de obras natalinas que recuperassem, ou ao menos tentassem recuperar o espírito do otimismo e da esperança para o iminente ano novo. Uma dessas investidas, talvez uma das poucas que funcionaram em seu escopo limitado e previsível, intitulou-se O Príncipe do Natal e, apesar de todos os clichês dos quais se dispôs, tornou-se uma comédia romântica fofa e interessante dentro de suas propostas. De qualquer forma, a narrativa respaldada no amor proibido entre duas pessoas de mundos totalmente diferentes não é algo novo a ser visto, mas a remodelagem até que foi agradável.

O problema é que talvez a plataforma de streaming não saiba exatamente quando parar. Tal qual foi a nossa surpresa quando o serviço anunciou a continuação, trazendo uma história nada menos que previsível e que teria a atmosfera construída acerca do futuro do casal principal. Em O Casamento Real, como prenuncia o próprio título, Amber (Rose McIver) e Richard (Ben Lamb) estão prestes a se casar a constituir uma nova era dentro da secular monarquia de Aldóvia. Para aqueles que não se recordam, Amber era uma jornalista contratada por sua empresa para cobrir os escândalos acerca do príncipe e futuro herdeiro do trono, mas uma virada inesperada abriu margens para que se apaixonassem e, um ano depois, a aguardada união está prestes a se concretizar.

Entretanto, diferente do que poderíamos esperar – ou talvez não tão diferente assim -, as coisas estão bem longe de estarem perfeitas. Enquanto tenta mascarar suas decepções acerca do futuro marido, Amber mantém-se ocupada com tarefas reais e maritais ao mesmo tempo em que luta para conseguir continuar com seu blog pessoal, no qual fala sobre sua vida e sobre as realizações que alcançou. Mesmo assim, a secretária de relações públicas, Sra. Averill (Sarah Douglas), deseja tomar controle da situação e obrigá-la a seguir um rígido protocolo de etiqueta, colocando-a num ciclo inquebrável de provas de vestido, aparições públicas e sigilo absoluto. Talvez Averill seja a única personagem que foge um pouco do convencionalismo e consiga uma complexidade maior, ainda que não o suficiente, para que o público crie laços afetivos com o longa-metragem.

Todos os personagens são monótonos ou extremamente chatos. Nathan Atkins e Karen Schaler retornam como roteiristas e cedem ao “conforto” do unidimensionalismo excessivo, transformando o que poderia muito bem ser emocionante ou satisfatório em uma compulsoriedade desnecessária e repulsiva, por assim dizer. A química entre as personas é inexistente, e até a rebeldia da irmã mais nova de Richard, Emily (Honor Kneafsey), é varrida para debaixo do tapete. Seus diálogos são previsíveis, assim como seu arco e sua “importância” para a resolução de um pano de fundo que, eventualmente, também é esquecido. Na verdade, são poucas as coisas que ganham sequer uma fatia de atenção – e nem mesmo a direção de arte se salva em meio a esse equívoco audiovisual.

Como se não bastasse, o reino também passa por problemas políticos e econômicos que diminuem a aceitação da figura real pelo povo. Os programas beneficentes para as classes menos abastadas não estão funcionando, culminando na falta do pagamento de salários dos funcionários e no alto índice de desemprego. Com isso, o conde Simon (Theo Duvaney), o vilão original, retorna para ajudar sua família, ainda que eles fiquem com um pé atrás, e mergulha num arco de redenção que na superfície fica bem explícito, mas sem qualquer motivo aparente para que isso ocorra. De fato, sua presença em nada altera a continuidade narrativa, funcionando como um elemento extra que serve apenas para enrolar ainda mais um filme confuso.

Se você não desistiu até aqui de assisti-lo, meus parabéns: as coisas ficam piores conforme nos aproximamos do final. Amber se transforma em uma justiceira movida a frases prontas – há um pequeno momento de confronto dramático entre ela e o real antagonista, ambos envolvidos por uma ambiência de corrupção inexplicável que também não auxilia na aceitação do público. A adição de coadjuvantes até serve para complementar e respaldar os protagonistas, mas eles são tratados com tanto descaso que mergulham em estereótipos prontos. No geral, a produção em si parece mostrar que o gênero das rom-coms precisa urgentemente de uma repaginação.

De qualquer forma, O Casamento Real não consegue ser pior que A Princesa e a Plebleia, outra investida original da Netflix. Mas isso não quer dizer muita coisa, pois a técnica utilizada pelo diretor John Schultz invade o amadorismo puro, com falta de preocupação imagética, desfoques acidentais e perceptíveis, e erros de continuidade que poderiam ser previstos e arrumados até por diretores estreantes. A conclusão do terceiro ato é uma horrível mixórdia de zooms e planos-sequência mal utilizados que deixam a obra ainda mais rechaçável.

A continuação de O Príncipe do Natal prova mais uma vez que não há muito mais o que se fazer com histórias clássicas além de deixá-las como estão. A atemporalidade desses contos é irretocável por um motivo, então por que se aventurar em mudá-los ou deixá-los contemporâneos? Desde os contos de superação até as fábulas com morais enaltecedoras, é melhor buscar a originalidade do que travesti-la com o moderno. Para o bem de todos.

O Príncipe do Natal: O Casamento Real (A Christmas Prince: The Royal Wedding, EUA – 2018)

Direção: John Schultz
Roteiro: Karen Schaler, Nathan Atkins
Elenco: Rose McIver, Ben Lamb, Alice Krige, Honor Kneafsey, Sarah Douglas,Theo Devaney, Simon Dutton, Andy Lucas, Katarina Cas, John Guerrasio, Raj Bajaj
Gênero: Comédia, Romance
Duração: 92 min

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