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Crítica | O Signo do Leão – A Valsa dos Interesseiros

Um retrato peculiar sobre a miséria.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
5 de fevereiro de 2018 · 5 min de leitura
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Iniciada a Nouvelle Vague por um tempo considerável, é curioso como Éric Rohmer foi um dos cineastas mais tardios do movimento. Após dirigir um punhado de curtas, finalmente o prolífico e peculiar diretor teria sua estreia no audacioso campo dos longa-metragens. O Signo do Leão, curiosamente, é seu primeiro grande filme, mas é o que menos tem a ver com ele.

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Apesar de não ser exclusivamente centrado na busca da assinatura cinematográfica que o movimento prezava, Rohmer traz uma crítica social sob um prisma possivelmente indiferente através da escolha de um protagonista realmente complicado em uma jornada que pouco se movimenta.

A Reviravolta de um milionário

Rohmer, em colaboração com Paul Gégauff, traz uma rapsódia urbana em sua estreia. Acompanhando o franco-americano Pierre Wesselrin (Jess Hahn), um músico vadio repleto de vícios e maus modos, descobrimos que o indivíduo herdou uma vasta quantia de dinheiro e propriedades de uma tia ricaça que acaba de falecer. Ao saber da maravilhosa notícia, o homem já pede um grande empréstimo para um de seus amigos para dar uma grande festa para comemorar a notícia.

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Após comer, transar e gastar tudo o que pode, Pierre lê atentamente ao telegrama e descobre que sua tia, na verdade, o havia deserdado, deixando tudo para o primo. Desesperado, Pierre tenta pedir mais dinheiro emprestado a seus amigos para pagar um hotel depois de ser despejado. Porém, como tudo acontece durante as férias de julho, rapidamente o protagonista fica sem amigos na cidade e se torna um mendigo maltrapilho.

O que torna O Signo do Leão tão peculiar é o fato de ser uma obra muito silenciosa, afinal um mendigo solitário não conversa muito. Por isso, a direção de Rohmer precisa sustentar enormes conflitos somente com o auxílio da imagem, além de modelar um retrato que não caia na banalidade melodramática para o personagem, já que, como sabemos, se trata de um embusteiro folgado.

Há muita força no primeiro ato no qual Rohmer procura trabalhar com diálogos vazios ou situações desconfortáveis para mostrar Pierre cheio de soberba, se vangloriando do dinheiro fácil que recebeu, além de rir da morte de sua tia, nunca reconhecendo a tragédia da morte da idosa. O diretor deixa claro que aquelas pessoas, algumas totalmente desconhecidas, só orbitam Pierre por acreditar na sua fortuna.

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Tanto que, quando pobre, poucos ligam para seu destino. Nesse segundo ato, não existem diálogos, apenas a decadência completa que Rohmer traz através de imagens e cenas óbvias para acompanhar os primeiros passos de um homem que, em vez de se tornar um ricaço, experimenta a mais profunda miséria e indiferença parisiense.

Através de uma escalada de situações como o flerte do suicídio em primeiro momento, aos múltiplos calotes, ao gasto impensado das últimas economias, a solidão, recorrer ao crime e, finalmente, a fome que o motiva a procurar restos no lixo. O curioso é que Rohmer se vale do poder da montagem de planos/contraplanos para estabelecer relações de desejo do protagonista, ou inveja, o que for, com o que ele observa com olhares carregados de ódio.

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Rohmer ainda não adota o estilo visual e narrativo pelo qual ficou tão conhecido. O Signo do Leão é repleto de closes, movimentos de câmera abundantes, encenações fabricadas, uma terrível trilha musical extradiegética e até mesmo zooms. É uma linguagem totalmente diferente, mas que funciona sem muito impacto para contar a história.

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O principal problema de O Signo do Leão é sua dependência pesada nas duas grandes reviravoltas da obra revelando um inchaço considerável para o filme. Felizmente, no terceiro ato, temos a presença de um mendigo que faz amizade com Pierre, mostrando uma generosidade até então desconhecida pelo protagonista.

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Mesmo assim, acertadamente, Rohmer preserva a natureza babaca de Pierre que continua sendo um enorme egoísta vagabundo, apesar de ser forte, virtuoso com o violino e saber falar diversos idiomas. Logo, o diretor traz um filme que não busca inocentar Pierre de sua própria miséria, mas ser o principal responsável por ela, além de definir a frieza francesa no tratamento dos pedintes, os ignorando ou temendo por sua segurança.

A Soberba do Leão

O Signo do Leão não é o melhor que Éric Rohmer pode oferecer a qualquer cinéfilo, mas por ser seu primeiro longa-metragem, a visita é sempre válida – há até mesmo uma cameo bizarra de Jean-Luc Gordard. As ironias repletas que quebram o protagonista a todo momento, apesar do final trazer uma situação muito cruel, oferecem diversas mensagens com fundo social importantes, além de trazer uma moral valiosa sobre soberba e vadiagem, afinal não é possível contar com a sorte no próprio bolso.

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Pierre descobre isso da pior forma com sua fé cega no seu próprio signo, o “melhor de todos” para uma pessoa tão condenável.

O Signo do Leão (Le Signe du Lion, França – 1962)

Direção: Éric Rohmer
Roteiro: Éric Rohmer, Paul Gégauff
Elenco: Jess Hahn, Michèle Girardon, Van Doude, Paul Bisciglia
Gênero: Drama
Duração: 103 minutos.

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Tags: #Éric Rohmer #Nouvelle Vague #Paul Gégauff #Van Doude
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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