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Catálogo

Crítica | O Último Imperador – Bertolucci Amadurecido

A incrível história de Pu Yi.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
27 de maio de 2018 · 9 min de leitura
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Certos acontecimentos realmente surgem na hora e no lugar certos. Depois de Bernardo Bertolucci emendar dois filmes ambiciosos que também marcariam o maior desastre de sua carreira com 1900 e La Luna, o diretor estava, aparentemente, sem muita influência ou crédito na comunidade cinematográfica internacional. Assim como diversos outros cineastas, o começo dos anos 1980 não seriam muito generosos para realizadores autorais.

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Porém, por conta de sua vasta militância ideológica refletida em quase todos seus longas, Bertolucci teria um renascer artístico muito invejável que marcaria tanto seu amadurecimento pleno como cineasta, além de mostrar as fortes tendências de reabertura da China depois da morte de Mao Tsé-tung.

Pela primeira vez na História, a China permitiria a filmagem em loco na Cidade Proibida, o palácio imperial que abrigou dinastias inteiras por séculos desde 1420 até 1924 quando o último imperador já abdicado Pu Yi foi, enfim, expulso quando o partido nacionalista Kuomintang assumiu o poder em um período totalmente caótico na política e recém-criada república chinesa. Com o dinheiro do produtor ricaço Jeremy Thomas, O Último Imperador se tornou realidade e catapultou Bertolucci novamente para a indústria.

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O Despertar do Imperador

Durante todo o século XX, palco das maiores transformações que o mundo presenciaria na História, a China viveria um de seus capítulos mais sangrentos e caóticos de todos os tempos. O marco da posse do imperador bebê Pu Yi em 1908, quando tinha apenas dois anos de idade, revelava como a elite política de um país ainda feudal estava no ponto da virada. O tempo mostraria a todos como o reinado do último imperador duraria pouco por conta da aurora de uma nova república em 1912 que também não duraria muito tempo graças a uma crescente guerra civil com interferências diretas de Moscou e das maquinações de Mao Tsé-tung e o PCC – Partido Comunista Chinês.

Logo, como nem Bertolucci e o co-roteirista Mark Peploe oferecem um raso panorama histórico sobre a situação chinesa no começo de 1900, é preciso que o espectador esteja melhor preparado para apreciar a narrativa e as locações em um nível mais aprofundado. Obviamente, o longa busca trazer uma abordagem épica sobre a história da vida do último imperador chinês que experimentou a jornada literal do luxo ao lixo.

Bertolucci e Peploe fazem a abordagem clássica que filmes biográficos da época realizavam: acompanhar a vida do protagonista desde a infância e até a morte. Embora isso oferece um vasto arsenal para criar cenas memoráveis ao decorrer da vida do imperador, também abre a uma das brechas mais distrativas do longa. Por ser Hollywood, O Último Imperador é todo falado em inglês e como diversos atores chineses encarnam Pu Yi, há uma diferença absurda entre sotaques e domínio do idioma até John Lone assumir a idade adulta do personagem.

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É algo incomodo que teria sido limado não fosse a fobia assustadora que boa parte do público estrangeiro tem por legendas – sim, não é só o Brasil que adora filme dublado. Apesar dessa grande distração, é preciso reconhecer como o cineasta e roteirista trazem situações extraordinárias que ajudam o longa a fluir mesmo com uma abordagem desnecessária de narrativa não-linear, ou seja, repleta de flashbacks.

Em questão da conclusão do primeiro ato, é uma certeza que O Último Imperador herda alguns dos piores vícios da escrita de Bertolucci, apesar dos diálogos serem muito melhores dispostos. O problema central envolve o protagonista. Pela característica episódica da narrativa, o personagem acaba bastante subaproveitado em caráter estacionário. É sim uma circunstância fenomenal ver como o jovem imperador, dotado de toda a riqueza e luxo, não tem poder nenhum sobre a China, além de ser prisioneiro de seu próprio palácio.

Em pontos, os roteiristas oferecem contrastes elaborados que ajudam a complementar e dar sustância para Pu Yi como personagem. Isso vai desde o coming of age que marca sua adolescência amargurada por não poder conhecer nada além das fronteiras das muralhas da Cidade Proibida, o deixando totalmente frustrado, até o ponto no qual se torna um adulto falido que deseja novamente ser imperador e para tal, fazer um pacto desastroso com o Japão para reaver seu título, mas ainda sem qualquer poder real sobre o território que deveria comandar.

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Pu Yi é um personagem fracassado desde sua coroação. Bertolucci está absolutamente fantástico na direção do longa e não demora nada para criar imagens repletas de significados poderosos, além de refinar seu estilo sempre muito movimentado com a câmera. Por exemplo, em uma das cenas mais marcantes, vemos o protagonista em sua primeira aparição como imperador. A coroação ocorre toda dentro do palácio, mas o menino é atraído pela seda amarela vibrante que vibra na porta.

Conforme o menino avança até o pano, em sua total inocente ignorância, o tecido é levantado, revelando uma legião de súditos obedientes. O contraste entre infância e responsabilidade logo é estabelecido com clareza. Esses jogos de contrastes visuais simples, mas eficientes e potencializados pela dimensão das imagens gigantescas que Bertolucci traz, sempre evoluem de modo catártico. Claro que a presença de Vittorio Storaro na cinematografia faz toda a diferença ao captar tão bem tons vibrantes de vermelho que sempre indicam o limite da ação do personagem, assim como cria jogos de iluminação poéticos e adequados para estabelecer o tom das cenas, principalmente em uma envolvendo o ménage que Pu Yi experimenta com sua esposa e amante – destaque para a delicadeza de Bertolucci ao somente enquadrar os lençóis se movimentando e refletindo a luz do luar até acontecer a reviravolta da derrocada do protagonista.

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Derrota Milenar

A primeira parte de O Último Imperador funciona muito bem. O cineasta realmente tem um olhar magnifíco para valorizar a inestimável locação e o trabalho exemplar da direção de arte e figurino através da decupagem generosa em planos bastante abertos para exibir toda a magnificência do lugar ancestral. Cada cena criada aqui, oferece um detalhe trivial, mas fascinante da vida do imperador, como seu pseudo amor pela ama de leite, a rotina de estudos com o pouco aproveitado personagem Reginald Johnston (Peter O’Toole excelente), a aproximação com o irmão de sangue até, enfim, chegar nas ótimas sequências envolvendo seu casamento com Wan Jung (Joan Chen).

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Com a introdução excepcional desse núcleo, era esperado que Bertolucci conduzisse melhor o arco romântico do filme conforme a história avança, mas muitas das características da primeira metade são esnobadas logo após. Por exemplo, todo o desenvolvimento do romance de Pu Yi é bastante frágil, já que a crise em seu casamento é e não é tratada com relevância, apenas rendendo cenas de grande potencial dramático, mas bastante soltas dentro do texto.

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É claro que Bertolucci tenta transmitir ao espectador a mensagem que Pu Yi não consegue controlar nada e ninguém, até mesmo seus parceiros mais próximos, não inspirando lealdade e qualquer firmeza. Isso é satisfatoriamente trabalhado com o segmento mais burocrático e abarrotado da obra envolvendo a reconquista do Império ao se sujeitar ao domínio japonês na Manchúria. Se tornando um fantoche de Hirohito, Pu Yi apenas mantém as mordomias e aparências de seu título continuando sem exercer o menor poder.

É interessante o fato do personagem ser impotente e nunca exercer política – quanto tenta, logo é sabotado, vítima de uma corrupção endêmica no sistema, mas simplesmente falta substância para compreender melhor a melancolia do personagem. O mesmo ocorre com a aparente vaidade e o desinteresse constante sobre sua esposa, entre outras características que apenas surgem inesperadamente.

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Ou seja, de modo geral, O Último Imperador é uma obra que traz diversos episódios interessantes sobre a vida desse personagem prisioneiro de um título que só lhe trouxe desgraça por toda a vida, mas ao mesmo tempo, não consegue desenvolvê-lo a ponto de ser realmente denso ou interessante. Pela atuação ótima de John Lone, é possível perceber toda a frustração dolorosa que o persegue, mas também muito pouco é de fato debatido ou demonstrado com imagens mais intimistas – Bertolucci praticamente teme o uso de close ups aqui.

Muito dessa confusão tonal com o protagonista pouco sólido vem por conta das interrupções quando a narrativa retorna ao tempo diegético exibindo o interrogatório que o leva a relembrar dessas situações importantes. Isso acaba gerando diversos sumiços de personagens e abandonos de linhas narrativas. Apenas se firma o ótimo espetáculo visual e até mesmo, surpreendentemente, críticas sutis ao método de perseguição maoísta instalado na China pós-Revolução Cultural, se tornando um dos lugares mais hostis do planeta.

Imperador de Nada e Lugar Nenhum

O Último Imperador sofre sim com falhas graves de storytelling e maior capricho com importantes personagens repletos de potencial, mas isso de modo algum pesa excessivamente nas ótimas horas de entretenimento e representação histórica que Bertolucci tanto se esforçou em trazer. Tudo é feito com extremo carinho e precisão para deixar o espectador emocionalmente ativo e conectado com a infeliz história de Pu Yi, além de ficar mesmerizado pelas imagens estonteantes que marcam, sem sombra de dúvida, o melhor momento do polêmico diretor em toda sua carreira.

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Tendo já se tornado um clássico moderno e praticamente um filme obrigatório para muitos cinéfilos, é tentador se apaixonar por uma obra tão fascinante e poética. Apesar de toda beleza e esplendor técnico, o filme não faz jus a preciosa história de Pu Yi – se compararmos com outro filme sobre o período como Adeus Minha Concubina, a obra empalidece.

Ironicamente, sendo o único longa de ficção a retratar esse acontecimento, se torna a melhor obra disponível que, apesar da boa qualidade, é repleta de falhas assim como a completa impotência de seu protagonista em firmar o próprio destino rumo a absoluta grandeza.

O Último Imperador (The Last Emperor, EUA, Reino Unido, Itália, França, China – 1987)

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Direção: Bernardo Bertolucci
Roteiro: Mark Peploe, Bernardo Bertolucci
Elenco: John Lone, Joan Chen, Peter O’Toole, Ruocheng Ying, Victor Wong, Vivian Wu, Ric Young, Chen Kaige
Gênero: Drama biográfico
Duração: 163 minutos

Tags: #Bernardo Bertolucci #Peter O'Toole #Vivian Wu
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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